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Demolidor: O Homem sem Medo (ou aquele menino que era como eu ou você, mas sendo menos era mais)

Acho que a primeira coisa que eu lembro de Homem sem medo é a arte que John Romita Jr. E o fato de ser uma história de herói sem herói fantasiado. Pra mim iso oi bem bacana.

John Romita Jr. é com erteza alguém que eu penso muito quando pego um lápis para desenhar. Seu desenho é meio acadêmico, traço firme, bem representativo, mas possui um estilo inigualável.

As hachuras que ele usa com certeza são as mais fantátiscas que eu já vi: Peso, profundidade e sombra sem exageros, sem rabiscos (prestem atenção em como ele fez o céu noturno – Acho que ficaria ainda melhor preto e branco.). E uma capacidade de desenhar cenários que ainda acho estonteante, mesmo 14 anos depois de ler Homem sem medo pela primeira vez!

Ao mesmo tempo, ele não se furta de usar o pincel e tingir grandes áreas de preto, dar uma profundidade digna de Sin City quando é preciso. As cenasmais tenebrosas do gibi são tão carregadas que fico imaginando o quanto de nanquim ele num gastou ali, e o quanto num pesou cada pincelada. Romita Jr. definitivamente conquistou seu lugar no panteão dos grandes desenhistas, pelo menos no meu panteão.

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Não posso esquecer nunca do roteiro e da caracterização de tudo: A cozinha do inferno parece muito com o bairro em que cresci, tirando as escadarias de incêndio do lado de fora dos prédios. Tive muitas vezes a impressão de que veria o Demônio passando por cima da minha casa, se ficasse esperando até de noite.

Se eu esperasse, nas noites quentes, antes de ter de entrar para me deitar, e acordar pra um outro dia cheio de traquinagens, eu tinha certeza de que se prestasse atenção poderia vê-lo. Nunca ouvi-lo, nunca, mas talvez vê-lo de relance.

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Eu me lembro e olhar para aquele moleque magrelo, cabelão na cara, inteligente, esforçado, meio nerd e pensar várias e várias vezes que aquele era um herói que eu poderia ser que todos nós poderíamos ser: Não era um bombado monstro, um ser completamente alienígena; Matt poderia ser eu ou você, ou aquele moleque esperto da rua de cima. Murdock era um dos meus, mesmo sendo completamente diferente de tudo que eu conhecia.

Ok, todos sabem que ele é cego, e acho que quase todos sabem o porquê. Mas acredito que poucos perceberam o que isso fez com ele, como isso modificou a dinâmica do personagem, Murdock sempre, sempre caminha na linha divisória entre o emocional e o racional. Stick diz isso: Ele é emocional demais, vai fazer cagada por causa disso.
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Mas é a sua emoção a flor da pele, sua capacidade de amar, de odiar, de sentir mágoa, gratidão e amizade que o fazem ser quem é. E se ele não sente medo, o que Matthew, mas sente é culpa: Pela morte do pai, pela Elektra se perder, por Karen Page, por Franklin; aparentemente ele tenta carregar todo o peso do mundo em suas costas, e não consegue aceitar que às vezes o fardo pesa. E como pesa!

Toda a história dele gira em torno disso: sua culpa, sua busca por redenção, sua vontade inabalável de consertar esse mundo, um mundo que o privou de tudo; um mundo que cada vez mais aperta o cerco sobre ele. Seu pai era um chacal da máfia, e ainda sim, (talvez ainda mais por isso) Murdock o ama.

Acho que esse amor, tão exacerbado, esse amor que faz ele jogar tudo para o alto, que o corrói quando pensa não estar a altura do que o pai queria para ele, esse amor o move. É inspirado em seu pai que ele faz sue uniforme, é de onde tira seu nome. Seu pai é quem ele queria ser.

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Outros heróis têm uma forte figura paterna, um modelo: Parker tem seu tio Ben, Bruce seu pai Thomas, Scott tem Xavier. As diferenças aqui é que de todos esses, Jack é quem passa mais longe da perfeição, de bom modelo: Muito mais para Rocky que para Papai sabe tudo. Jack é um perdedor, um lutador velho e acabado, um homem que vende sua alma em troco de um futuro melhor para Matt.

E o Vermelhão sabe disso, sabe de tudo: todos os erros, todas as falhas; sente o cheiro de álcool no suor do pai, sabe o que ele faz para a máfia, entende que ele é um lutador que não tinha nenhum futuro, e ainda sim tenta viver a altura das expectativas do pai, tenta sempre ser o melhor que pode. Se o mundo de Matt é negro, seu coração é tão vermelho quanto às cores que leva no peito.

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Sua intensidade não acaba no amor pelo pai: Quando conhece Elektra, ele se joga de cabeça dentro disso, quase morre uma dúzia de vezes em algumas páginas. Cada vez que escapa parece mais e mais apaixonado, a Ninja já sabe que não presta e que ele é um puta cara e até fala isso pra ele, mas quem disse que ele se importa? Seu coração pula, dança canta e rodopia quando sente o cheiro dela. Pra Ele isso basta.

Não sei quanto a outros leitores, mas para mim Frank Fez um IMENSO favor nessa Hq: Tirou o radar! Em nenhum momento Murdock usa aquela droga. Apenas seus outros sentidos; por uma grande sacada (talvez apenas porque planejava que esse fosse um telefilme) Miller nos poupa de uma muleta narrativa terrível: Um cego com radar. Não, tudo o que vemos é seu treinamento agindo, sua concentração monstruosa, sua disposição.

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A ausência do radar apenas aumenta a presença de Dele nas páginas, nos joga na cara que aquela cara é cego, mas nem por isso inválido, que não enxerga, mas acaba vendo muito.

Há um outro fato que para mim torna a coisa tão querida: Murdock aqui é um ginasta soberbo, um lutador competente e apenas esboça coisas improváveis: Mas não é um ninja, não é “super” nada, ele é um homem, um homem disposto a levar suas crenças às ultimas conseqüências e esfregá-las no mundo.

Para mim o Demolidor sempre será uma mistura de atleta de parkour e boxeador. Essa é a representação que o torna mais querido.

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Matt antes do Demolidor, mas já um Herói

Falho, deficiente, obstinado, culpado, grande, magnífico, lindo e forte. Cego. Esse é o demolidor que Frank e Romita Jr. me apresentaram quando eu tinha 10 anos, esse é o Demolidor que sempre carreguei por aí.

Não é todo personagem que te faz desejar, naquelas fantasias infantis e maravilhosas, não ver (cheguei a andar pela casa de olhos fechados, tentando sentir as paredes, tentando reconhecer as coisas pelos seus cheiros e sons).

E se todo super-herói é um símbolo, Murdock empata com o Batman em muitos aspectos, principalmente em sua busca por justiça. Mas tem a vantagem de, como ela, ser cego.

Bruno Garciado fundo da estantedaredevil,Demolidor,Elektra,Frank Miller,Homem sem medo,John Romita Jr,Matt Murdock,StickDemolidor: O Homem sem Medo (ou aquele menino que era como eu ou você, mas sendo menos era mais) Acho que a primeira coisa que eu lembro de Homem sem medo é a arte que John Romita Jr. E o fato de ser uma história de herói sem herói...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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