Dando um passeio na net achei esse texto sobre Hqs.
Retirado do Pasquim Poético

Acreditem ou não, isso que segue abaixo era pra ser uma matéria jornalística pra revista do curso de jornalismo. Como a revista não foi publicada, transcrevo por aqui mesmo.

Inocência Perdida: Quadrinhos são coisas sérias. Podem ser arma política. Podem liberar as fantasias. E podem precisar de censura.

O cientista, psica-nalista e devasso Dr. Marston está concentrado. Na sua escrivaninha, rabisca alguns desenhos. Pensa na sua aluna Olive Byrne, com quem fez amor há pouco tempo. Continua rabiscando. Pensa na esposa Elisabeth Holloway, com quem vai fazer amor daqui a pouco. Desse triângulo amoroso e consensual vai nascer a Mulher Maravilha. Vai nascer, vai crescer, vai se desenvolver, e fará parte da Santíssima Trindade dos quadrinhos da DC Comics, ao lado de Batman e Superman.

E pouca gente saberá que o criador da Mulher Maravilha possuía algumas teorias… estranhas. Uma delas dizia que a América devia se tornar uma Matriarca, além de defender que a mulher poderia e iria usar a escravização sexual para dominar o homem. Tudo isso se refletiu na criação da Mulher Maravilha.

Pode não parecer, mas as “HQ’s”, como são chamadas por seus entusiastas, costumam ter algumas “mensagens” escondidas. Talvez não como essa mensagem implícita nas histórias da Mulher Maravilha. Mas não é difícil encontrar, por exemplo, heróis dos quadrinhos bastante engajaos pliticamente. A mensagem por trás de um personagem assim, costuma ser a ideologia do seu criador, que tenta passar a sua visão de mundo para o leitor.

Edson Takeuti, o popular Tako X, é co-criador do Gralha, um herói curitibano. Mas seu personagem mais conhecido é o Marco, que circulou num jornal de Curitiba entre 1989 e 2002. Tako X é filho de japonês. Os japoneses costumavam aparecer bastante nas histórias de um certo personagem norte-americano durante a Segunda Guerra. “Vários personagens foram criados para incitar certas pessoas, atitudes e reações”.

Foi o caso do Capitão América, o herói que se tornaria símbolo da ideologia norte-americana. “Muitas histórias foram encomendadas durante a guerra pra ajudar no alistamento e criar um sentimento anti-nazista e patriótico”. E dessa forma, depois de Pearl Harbor os japoneses entraram para as histórias do Capitão América como representantes das forças do mal. Ao lado dos alemães, e posteriormente dos comunistas. O Caveira Vermelha, inimigo do Capitão América, foi nazista e depois comunista nas histórias em quadrinhos. Por mais que talvez ele tenha sido volúvel e tenha mudado drasticamente de opinião, o mais provável é que os criadores não perceberam que as duas coisas são inconciliáveis.

“Americano é meio alienado mesmo. Sempre vota a favor do governo”. Quem fala agora é Chuji Seto Takeguma. Cláudio Seto para os cristãos. Foi o primeiro brasileiro desenhista de mangá que se tem notícia. Fez parte das clássicas editoras Edrel e Grafipar, que qualquer esclarecido em quadrinhos nacionais conhece, exalta e acende uma vela em louvor. Seto faz charges para dois jornais de Curitiba. E não considera o leitor tão inocente assim, a ponto de cair nas mensagens e falácias escondidas nas histórias em quadrinhos. “A pessoa só vai se influenciar pelo comportamento do personagem se for muito fanática”. Seto não acredita muito em mensagens subliminares nos quadrinhos. Mas reconhece o envolvimento ideológico de alguns personagens.

Além das mensagens políticas e fantasiosas que estão no comportamento e muitas vezes no próprio visual do herói, há algumas artimanhas na parte gráfica das histórias em quadrinhos. Seto: “A gente fazia algumas brincadeiras”. Uma delas consistia em usar quatro páginas diferentes para fazer um desenho. Cada página com uma parte do desenho. Mas como ninguém vai pegar as quatro páginas depois de prontas e juntar, jamais saberá do desenho “subliminar” que foi colocado de propósito ali. Nem mesmo outros desenhistas. Tako X: “Eu mesmo nunca notei nada propositalmente subliminar nas histórias que li até hoje. Mas se existe, é intencionalmente”.

Para o alto e avante com as mensagens

Mas e todas essas mensagens e ideologias escondidas são uma coisa ruim? Depende do ponto de vista. Eduardo Luiz Pereira é colecionador de quadrinhos. Para ele, aí é que está a graça das histórias. “Os quadrinhos que passam uma certa ideologia são os melhores que existem”. Eduardo diz que os quadrinhos costumam trazer histórias que fazem o leitor pensar em várias questões. 1) Pessoais: o herói coadjuvante perde a namorada. Ou é seu pai que morre. 2) Naturais: Uma bomba biológica contamina uma cidade.

O que aconteceria nesse caso? 3) Políticas: Como seria caso a ditadura voltasse a coagir as pessoas? “As histórias guardam mensagens escondidas sobre o que mundo é capaz hoje, coisas que dificilmente paramos para refletir.”

Seto deu a entender que só os loucos se influenciam negativamente pelas histórias. Eduardo cita um exemplo. Um jovem colocou uma toalha no pescoço, gritou “Para o alto e avante”, e pulou da janela. Quebrou a perna e infelizmente não conseguiu levantar vôo. Mas por outro lado, há casos de crianças que salvaram outras, em situações de perigo eminente. E fizeram isso porque o seu herói favorito também faria. Nisso, Eduardo concorda com o que diz Tako X: “Personagens com boa índole e alto índice de aceitação popular vão servir de exemplo pra seus leitores”.

As mensagens que os quadrinhos passam podem ter relação com o momento que a sociedade está passado.

Na década de 60, Martin Luther King tinha um sonho. Era ver um personagem negro nas histórias em quadrinhos. Em 1969 apareceu Falcão, o primeiro herói afro-descendente da Marvel. Era uma das épocas em que mais se discutia o preconceito contra os negros. A moral de uma sociedade com o passar dos anos também pode fazer com que algumas mensagens apareçam, mesmo que não tenham sido intencionais.

Quando o Batman foi criado, por exemplo, ninguém duvidava de sua masculinidade. A idéia principal era passar a mensagem de um milionário que perdeu os pais e ficou traumatizado. Sentiu-se então na obrigação de ajudar outros órfãos. Eduardo: “Os editores não poderiam imaginar que 60 anos depois o mundo falaria tanto de homossexualismo, pedofilia e pessoas de classe alta adotando cachorros em vez de crianças”.

A censura pega os quadrinhos

Nem os quadrinhos escapavam ao controle dos censores. Principalmente os eróticos. Cláudio Seto que o diga. Foi ele que criou a Maria Erótica, uma loira com cabelo pichaim parecido com a medusa. Vivia-se a ditadura militar, e os censores não gostavam do erotismo desse tipo de quadrinhos. Como não entendiam muito as outras histórias, se preocupavam em censurar as eróticas.

Certa vez a Maria Erótica foi denunciada, e a polícia baixou na editora em que Seto trabalhava, em São Paulo. Mas ele não estava lá naquele momento. Solução? A polícia apreendeu todos os exemplares originais da Maria Erótica e os colocou atrás das grades. Literalmente. Naquela noite os exemplares de Maria Erótica dormiram em companhia masculina.

Mas houve exceções, diz o samurai. “Teve um censor que gostava de quadrinhos eróticos. Ele mandou uma história e foi publicada”. Com um pseudônimo, obviamente. O Estado reprimia seus próprios instintos.
Durante esse período, o gibi foi uma ameaça à integridade do Estado. É o que podemos deduzir da censura e das retaliações que sofreu. Caminhões das prefeituras passavam recolhendo de casa em casa todos os exemplares das histórias em quadrinhos. Depois, eram levados em praça pública e queimados pela “Inquisição”. Cartazes eram espalhados com um garoto vestido de cowboy. “Hoje mocinho, amanhã bandido”, dizia. O faroeste era outro dos gêneros favoritos dos fãs de quadrinhos.

Os quadrinhos já mudaram bastante ao longo dos anos. Eduardo diz que eles não são mais inocentes. Essa inocência perdida das histórias em quadrinhos acontece porque “a maioria trata de assuntos que estamos vivendo no momento”. Os temas das histórias têm cada vez mais alguma relação com a sociedade. Por isso a violência também aparece tanto em alguns gibis. “Mas isso poderia ser resolvido de uma forma bem simples”. Uma classificação etária para os quadrinhos. Para preservar os inocentes.

Retirado do Pasquim Poético

Renato Lebeaucensura,Dr. Marston,Inocência PerdidaDando um passeio na net achei esse texto sobre Hqs. Retirado do Pasquim Poético Acreditem ou não, isso que segue abaixo era pra ser uma matéria jornalística pra revista do curso de jornalismo. Como a revista não foi publicada, transcrevo por aqui mesmo. Inocência Perdida: Quadrinhos são coisas sérias. Podem ser arma...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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