O Leitor de Angel Boligan

Maravilhoso texto de Guilherme Smee retirado do site Splash Pages.
Aproveitem o texto interessante de sexta-feira.

Visto no Splash Pages

Quadrinhos e Recepção

A teoria da recepção é um pressuposto bastante novo. Começou a ser estudada há menos de 40 anos. Ela examina o papel do leitor na literatura.

Como assim, o leitor?

Trata da obra vista da perspectiva do leitor, não do autor ou do texto como outras teorias literárias já estudaram.

A Teoria da Recepção vai buscar as deduções que o leitor vai fazer quando exposto a um determinado texto.

Podemos usar essa mesma teoria nos quadrinhos. È o leitor quem completa a história fazendo a ligação entre um quadro e outro.

Ele próprio, conforme o ritmo que ele mesmo estabelece para sua leitura vai estabelecendo as conexões implícitas no texto e nas imagens em seqüências.

Ao longo da narrativa o leitor vai fazendo deduções e comprovando suposições usando de seu conhecimento de mundo e do contexto em que está inserido.

Diz Terry Eagleton: “Na Teoria da Recepção, o leitor ‘concretiza’ a obra literária, que em si mesma não passa de uma cadeia de marcas negras organizadas numa página” – ou de diversos quadros coloridos, balões brancos e marcas negras, no caso dos quadrinhos – “Sem essa constante participação do leitor, não haveria obra literária”.

Lost Girls de Alan Moore

Quando defrontado por uma obra literária, o leitor preenche os ‘hiatos’ presentes nela. Nos quadrinhos ele preenche também as ‘calhas’ ou ‘sarjetas’.

Para o teórico polonês Roman Ingarden a obra literária existe apenas como schemata, ou seja, uma série de direções gerais dadas pelo autor para os leitores.

O leitor abordará a obra com seus pré-entendimentos do mundo e, se a obra for bem realizada, segundo Wolgang Iser, da Escola da Constância, estes entendimentos – também chamados de preconceitos –, serão mudados.

Para Iser, a obra eficiente gera uma nova consciência crítica no leitor, mudando seus códigos e expectativas habituais.

O travesti nazista Bruno, de Frank Miller: Desconcerto

As obras devem desconfirmar nossos hábitos. Desconsertar.

Claro que nem todo leitor está preparado para ser “desconsertado” e absorver a nova realidade apresentada pelo livro. Pois como dissemos antes o leitor é formado pelas suas experiências anteriores e pelo contexto em que se insere.

Um quadrinho de Frank Miller com travestis nazistas certamente chocaria uma freira de uma maneira que ela não poderia absorver a experiência da leitura. Ou ainda Lost Girls, de Alan Moore, que traz experimentações sexuais de todas as formas abalaria os supostos defensores da moral e dos bons costumes.

A escatologia de um Garth Ennis ou a crueza de Warren Ellis não serão experiências tão transformadoras quando lidas por conservadores. E o que dizer dos quadrinhos undergrounds?

Shade, o Homem-Mutável, de Peter Milligan: Leitura orgásmica

O leitor deve concretizar a obra à sua maneira, mas de forma que encontre coerência em tudo isso.

Seja na exclamção que entende que os meios de Ozymandias são justificados pelos fins em Watchmen ou seja na sensação associativa-dissociativa que certas obras de Grant Morrisson nos levam, como Flex Mentallo ou Kid Eternidade, que precisamos de mais de uma leitura atenta para construirmos significados.

Obras desconstruídas, calcadas nas sensações, como as de Morrisson, ou de seus seguidores como Peter Milligan em Shade, o Homem Mutável, que detonam a identidade cultural segura do leitor, são para o crítico francês Roland Barthes ao mesmo tempo uma bênção da leitura e um orgasmo sexual.

Sabe-se hoje que nenhuma leitura é inocente e feita sem pré-conceitos.

Como diria o crítico americano Stanley Fish,a leitura não é a descoberta do que significa o texto – ou o desenho, a imagem, o quadro, a composição da página –, mas um processo de sentir aquilo que ele nos faz.

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Renato LebeauO Leitor de Angel Boligan Maravilhoso texto de Guilherme Smee retirado do site Splash Pages. Aproveitem o texto interessante de sexta-feira. Visto no Splash Pages Quadrinhos e Recepção A teoria da recepção é um pressuposto bastante novo. Começou a ser estudada há menos de 40 anos. Ela examina o papel do leitor na literatura. Como...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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