Outro excelente texto sobre quadrinhos e sua relação com a literatura.

Retirado do Splash Pages

Quadrinhos e literatura

A escolha de Fun Home – Uma tragicomédia em família, de Alison Bechdel como livro do ano pela revista Time, em 2006 e American Born Chinese, de Gene Luen Yang, ter concorrido ao National Book Award gerou a polêmica: quadrinhos são literatura?

O histórico de prêmios diria que sim. Afinal, Maus, de Art Spiegelman ganhou o Pulitzer em 1992.

E a história Sonho de Uma Noite de Verão, de Neil Gaiman em Sandman ganhou o World Fantasy Award como melhor história curta em 1991. E Chris Ware, com seu Jimmy Corrigan ganhou em 2001 o Guardian First Book Award. Watchmen foi escolhido como um dos 100 melhores romances do século XX pela Time novamente.

Mas o fato é que quadrinhos NÃO são literatura. Assim como quadrinhos NÂO são cinema. Eles são as duas coisas e também não são.

As histórias em quadrinhos CONTÉM literatura e cinema. Assim como contém a pintura, por exemplo. Os quadrinhos não são um subgênero literário, ou uma divisão artística. Eles são uma coisa à parte.

Eles são a nona arte, mas eles também possuem uma forma narrativa própria. Não são um gênero, mas uma mídia.

Estou dizendo que os quadrinhos não são profundos o suficiente para gerarem os questionamentos que um romance traria? Que não oferecem a mesma fruição que uma obra de arte proporcionaria? Que não são capazes de arrebatar o público, determinar emoções e criar climas da mesma maneira que o cinema? CLARO QUE NÃO.

Quero dizer que eles fazem TUDO ISSO ao mesmo tempo. E a maioria das pessoas nem percebe ou dá importância pra isso. Quadrinhos não são um complemento. São um meio que tem história própria e interações únicas.

Os quadrinhos não conseguem traduzir um romance, muito menos um filme. Um dos exemplos disso são as adaptações de filmes para quadrinhos, que nem sempre se saem bem no seu intento. Ou as adaptações de clássicos da literatura para os quadrinhos nos Classic Illustrated ou nas Edições Maravilhosas. Ou até mesmo quando um livro é adaptado para o cinema. Muita coisa é perdida no processo.

Outras coisas são ganhas. Mas a maioria das pessoas concorda que a experiência de ler um livro é diferente da de assistir um filme. Cada meio possui uma linguagem própria e tem sua forma de capturar atenção do público e de envolvê-lo em sua história.

Infelizmente, por ser um meio marginalizado, os quadrinhos não possuem uma taxonomia própria. E por isso, têm de pegar muitos termos emprestado da literatura e do cinema. Samuel R. Delany cunhou o termo “paraliteratura”, onde os quadrinhos seriam abarcados como um TIPO de literatura. Mas não a literatura propriamente dita.

“Quadrinhos não são prosa. Quadrinhos não são filmes. Eles não são um meio movido pelo texto com figuras adicionadas; eles não são o equivalente visual da narrativa em prosa ou uma versão estática dos filmes. Eles são sua própria coisa: um meio com dispositivos próprios, com inovadores próprios, clichês próprios, seu próprios gêneros, fórmulas, armadilhas e liberdades” foi o que disse Douglas Wolk no seu Reading Comics – how graphic novels work and what they mean.

Quando se afirma que os quadrinhos têm uma linguagem própria e uma forma única de lidar com o leitor, quer dizer que existe uma subjetividade intrínseca entre as páginas de uma HQ, que é impossível de ser traduzida em outras mídias.

Para ilustrar melhor o que eu quero dizer, vou usar um termo que Wolk apresenta no capítulo 5: cada quadro em um gibi representa um MOMENTO GRÁVIDO. Ou seja, cada quadro contém um determinado espaço e tempo cristalizado. Eles estão grávidos de seu passado ou de seu futuro, que não acontece necessariamente no quadrinho anterior ou no posterior, mas no espaço entre eles.

É nesse espaço, que Scott McCloud batizou de SARJETA, que ocorre a grande sacada dos quadrinhos. É ali onde o cérebro do leitor trabalha, unindo o acontecimento do quadro 1 com o do quadro 2 e assim por diante. Esse espaço subjetivo vai ser preenchido com a visão de mundo do leitor.

Visão de mundo, essa que já vem sendo trabalhada nas imagens, que nada mais são do que metáforas do artista para o mundo. O espaço não é visto como ele realmente é, como em um filme, mas como o artista o vê: é a sua interpretação, seja ela errada, adaptada ou inventada.

Alan Moore já falou uma vez que os quadrinhos são o único meio que trabalha os dois hemisférios cerebrais: O esquerdo, racional, que processa as palavras. O direito, emocional, as imagens. Numa leitura que acontece AO MESMO TEMPO AGORA, a que o leitor é exposto durante o tempo que achar necessário, na hora e local que bem lhe couber. A qualidade da atenção de um leitor de quadrinhos é diferente da de um leitor de romances ou de um espectador de cinema.

Quadrinhos podem promover uma aquisição de conteúdo mais efetiva do que os livros e despender de uma atenção maior dos detalhes do que um filme. Segundo Eisner: “Ler a imagem requer experiência e permite a aquisição no ritmo do observador. O leitor deve fornecer internamente o som e a ação das imagens”.

Existe um grande ironia na forma que os quadrinhos comunicam. “Os quadrinhos sugerem movimento, mas eles são incapezes de realmente demonstrar movimentação. Eles indicam som, e até mesmo os soletram, mas são silenciosos. Eles deduzem a passagem de tempo, mas a experiência temporal deles é controlada mas pelo leitor do que pelo artista.

Eles conduzem histórias contínuas, mas são feitos de uma série de momentos discretos. Eles estão preocupados com a condução das percepções do artista, mas uma dos componentes cruciais é o espaço em branco”, para Wolk.

O autor também apresenta uma analogia entre a poesia e a pintura para chegar até os quadrinhos. Simônides de Ceos possuía uma máxima que dizia: “poesia é uma figura verbal, pintura é uma poesia silenciosa”, Horácio, mais tarde reduziu para “assim como a pintura, a poesia também o é”.Então Gotthold Ephraim Lessing, num ensaio de 1766, reescrevia o princípio dizendo que o espaço era o domínio da pintura, enquanto o tempo era o domínio da poesia.

O tempo é o domínio da poesia (ou da linguagem) porque toma tempo para a experimentação, e porque pode descrever o tempo ou a mudança sobre o tempo, de uma maneira mais fácil que as figuras o fazem. Os quadrinhos, por serem a cristalização de um momento no espaço, abarcam a poesia e a pintura comunicando através da MUDANÇA SOBRE O TEMPO.

Poesia, linguagem… Afinal, os quadrinhos são literatura? Não. Eles são MUITO MAIS que apenas isso. Espero que agora você veja os quadrinhos com outros olhos.

Retirado do Splash Pages

Renato Lebeauhistórias em quadrinhos,Splash PagesOutro excelente texto sobre quadrinhos e sua relação com a literatura. Retirado do Splash Pages Quadrinhos e literatura A escolha de Fun Home – Uma tragicomédia em família, de Alison Bechdel como livro do ano pela revista Time, em 2006 e American Born Chinese, de Gene Luen Yang, ter concorrido ao National...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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