Thiago Spkyked, ilustrador, quadrinhista e fundador da Editora Crás, começou sua palestra na Comic Fair apresentando sua relação com os quadrinhos: “Desde criança eu queria ser quadrinista, inclusive aprendi a ler para ler quadrinhos. Na escola, quando a professora perguntava qual profissão os alunos queriam seguir, alguns diziam que queriam ser astronautas; outros, pilotos de Fórmula 1 e eu já queria ser quadrinista. O curioso é que só eu me tornei o que queria, ninguém se tornou astronauta ou piloto”, brincou Spyked.

Em relação a como entrar no mercado de quadrinhos, Thiago contou sua postura e experiência: “Eu procuro estudar o terreno antes de entrar de cabeça. No início, eu fui perguntar para os profissionais do ramo informações sobre o mercado”.

Questionado sobre a supremacia do material estrangeiro eu relação ao nacional nas bancas e livrarias do país, disse: “Somos dominados por publicações estrangeiras porque sai muito mais barato para as editoras publicar material que já vem pronto lá de fora do que produzir uma revista aqui. No exterior há uma estrutura para a produção em grande escala que foi construída há muito tempo”.

Continuando com as características do marcado nacional, Spyked falou sobre a distribuição, “outro grande problema no Brasil é a distribuição porque não se trata somente de colocar a revista na banca, é colocar a revista na banca e conseguir fazer público”.

Thiago citou como exemplo uma determinada revista da Disney cujos direitos foram adquiridos por um ano pela editora Abril: “A revista não dava lucro, mas dava menos prejuízo para a Abril colocá-la em circulação do que pagar a multa rescisória prevista no contrato caso a editora não distribuísse a revista. Resultado, a revista passou um tempo nas bancas com baixas vendas, mas permaneceu tempo suficiente para atrair público e se manter”.

Caso semelhante ocorreu com a revista Época, “que tomou pau nas bancas de jornal por dois anos para poder concorrer com a Veja”, explicou Spyked que completou dizendo que essa atitude (de investir dinheiro em longo prazo para uma revista permanecer nas bancas tempo suficiente para atrair leitores) as editoras de quadrinhos não têm.

Mas nem tudo são pedras para quem pensa em adentrar o mercado, Spyked citou as boas características do ramo no momento: “A tecnologia hoje permite fazer uma edição com tiragem menor e de boa qualidade. Tem os álbuns em livrarias cujo tempo de recolhimento não é tão rápido quanto nas bancas e isso faz com que os quadrinhos ganhem mais espaço – não é o quadrinho nacional, mas já é alguma coisa; os eventos, como este Comic Fair, estão sempre lotados; eu dou aula num projeto de quadrinhos mantido pela prefeitura de São Paulo [nota: Fanzines nas Zonas de Sampa]; o evento que gerou o Anime Friends começou com umas dez pessoas e agora esta se segmentando com a Comic Fair. Este é um bom momento, mostra que as pessoas então se interessando por quadrinhos”.

Spyked mencionou que gostaria que os quadrinhos seguissem o mesmo percurso que as bandas de Hard Core brasileiras da década de 1990 “como o CPM 22 que começou tocando para umas 20 pessoas – todas amigas da banda – em lugares pequenos, foram se unindo com outras bandas, cada uma delas convidando seus amigos, e de repente estavam tocando no Hangar 110 [famosa casa de shows em São Paulo dedicada ao Hard Core e suas vertentes] para mil pessoas. De lá, algum empresário viu que tinham público e levou a banda para o mainstream. Hoje há algum caminho a seguir para as bandas de Hard Core: tocar no lugar tal, colocar link no site tal, enviar release para a revista tal etc”.

Segundo Spyked, é isso que a atual geração de quadrinhistas brasileiros deve fazer, abrir caminhos para que a futura geração tenha uma trilha a seguir e não começar tudo do zero como as gerações anteriores sempre fizeram.

Questionado se realmente existe preconceito do público em relação aos quadrinhos nacionais, disse: “Se existe, é só aquele preconceito do desconhecido” e acrescentou: “mas as pessoas não devem consumir determinado quadrinho porque ele é nacional, tem que consumir porque gosta”.

Spyked também falou se existe algum tema que caracterizasse o quadrinho nacional: “O tema do quadrinho brasileiro não é fazer saci-pererê ou mula-sem-cabeça. A HQ brasileira é sobre nosso cotidiano como, por exemplo, cumprimentar o porteiro e a faxineira na escola. Reparem que os mangás de colegiais não tem isso porque o japonês é um povo mais hierárquico e rígido, o brasileiro não, é mais afetivo. É mais ou menos por ai que deve seguir o quadrinho brasileiro”.

Thiago Spyked encerrou a palestra apresentando sua perspectiva em relação ao futuro do mercado nacional: “Está surgindo uma nova geração promissora. Daqui a cinco anos não acredito que estaremos vivendo de HQ autoral, mas todo mundo que faz alguma coisa quer sempre se aprimorar, por isso acho que já teremos uma estrutura avançada para produzir e publicar. O melhor ainda esta por vir”, finalizou.

Alexandre ManoelquadrinhosComic Fair,Editora Crás,Thiago SpkykedThiago Spkyked, ilustrador, quadrinhista e fundador da Editora Crás, começou sua palestra na Comic Fair apresentando sua relação com os quadrinhos: “Desde criança eu queria ser quadrinista, inclusive aprendi a ler para ler quadrinhos. Na escola, quando a professora perguntava qual profissão os alunos queriam seguir, alguns diziam que...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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