O Impulso HQ se interessa por todas as vertentes do universo fantástico que são as histórias em quadrinhos, e por isso sempre busca as novidades do mercado editorial e de sua aplicação em outras áreas.

Quando foi divulgado o post Projeto usa quadrinhos na escola, recebemos um comentário do leitor Marcelo Engster, relatando a experiência do jornalista Augusto Paim em escolas do interior do Rio Grande do Sul.

E foi com enorme prazer que a equipe do Impulso HQ, procurou saber mais sobre a iniciativa desse jornalista apaixonado por HQs e que promove oficinas nas escolas através de um processo pedagógico, e que encarou o desafio de levar um universo novo para as crianças da região sul do Brasil.

Atualmente o jornalista está na Alemanha em outros projetos, mas reservou um tempo para responder algumas perguntas enviadas via e-mail sobre o seu projeto que pode ser visto nesse link.

Durante a entrevista Augusto Paim conta como surgiu a idéia de levar as HQs para as escolas, e qual foi à reação e principalmente a reação dos professores, em relação à aplicação de histórias em quadrinhos como material pedagógico, e os seus próximos projetos.

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Acompanhem a entrevista na íntegra:

Impulso HQ: Como surgiu a idéia de levar quadrinhos para as escolas?

Augusto Paim: Bem, primeiro foi por um convite da minha Irma, que é professora do colégio em Dilermando de Aguiar e faz mestrado em artes visuais.

Ela me convidou ha alguns meses. Eu já tinha feito palestras de quadrinhos para estudantes de outros cursos e mesmo para professores e alunos de artes visuais, portanto, estava acostumado.

Mas com crianças seria uma novidade completa, digamos que eu quis passar por essa experiência pra aprender com ela. Um desafio que me lancei.

Curiosamente, houve uma coincidência, um colega meu de outro projeto logo em seguida me convidou para dar outra oficina, em Porto Alegre, essa oficina aconteceu 3 semanas antes das de Dilermando de Aguiar.

*Para quem se interessar acesse o link.

No caso de Tupancireta, já foi outra situação, eu falava sobre essas oficinas num bar para uma amiga, que sugeriu: “Por que tu não faz em Tupa também, Augusto? Uma amiga dá aula lá nessa cidade”. Bem eu topei as 3 oficinas e procurei experimentar modelos diferentes em cada uma delas.

As de Dilermando de Aguiar foram as mais ousadas, digamos assim, mas deu tudo certo.

Ah sim, eu também estava muito preocupado, além de ter essa experiência pessoal e profissional, em achar novas formas de interação no campo dos quadrinhos, novas formas de eu interagir com o campo.

Olha o link q passei em cima que tu entende o que quero dizer.

Só escrever no blog cansa às vezes, e agente vê obras de quadrinhos ai que são terríveis, e quando se mostra isso, mesmo que com educação, se é criticado, portanto eu queria trabalhar essa questão da alfabetização na linguagem da hq e, conseqüentemente, formar público, para que os leitores também exijam melhore obras.

Eu queria martelar em cima do mesmo prego de sempre: quadrinhos não é coisa só para crianças.

Esse foi meu impulso para voltar a fazer oficinas, e agora para crianças, por que eu queria também aprender com uma nova experiência.

IHQ: Como foi a reação das crianças? Teve alguma rejeição inicial?

A.P.: Não, nenhuma. Na verdade, eu estava com medo da reação delas, e depois vi que é ao contrário: as crianças topam tudo. E tem uma facilidade, dessa identificação dos quadrinhos com o público infantil, se você diz q vai falar sobre quadrinhos, elas naturalmente gostam.

Claro que há nuances, como por exemplo, a faixa etária, eu cuidei isso em cada oficina q fiz, pensei projetos diferentes.

Outra questão boa de observar é a origem das crianças, em Porto Alegre, as crianças demonstraram interesse de um jeito bem caótico, bagunçado, mas muito ligadas e “antenadas”, porque são da capital, cheia de estímulos. chegavam a uma conclusão que eu queria mostrar antes mesmo de eu pronunciar uma palavra.

No interior é diferente, nem melhor nem pior, as crianças tem histórias de vida diferentes – às vezes dramáticas – e, portanto, tem reações diferentes, gostos diferentes.

Na verdade, uma ciosa que notei com as oficinas é q a rejeição pode partir dos adultos, não das crianças, portanto, os professores também eram meu público, embora eles não soubessem (hehehehe), eu martelei na idéia do uso de quadrinhos em sala de aula – por isso levei gibis da turma do xaxado – e em mostrar obras como Maus, que são complexas e realmente não são obras para crianças.

Essa rejeição dos professores pode se manifestar de dois modos: no primeiro caso, mais raro, é uma rejeição explicita, de achar q trabalhar com quadrinhos não é algo sério.
Nenhum problema quanto a isso, é um preconceito que os quadrinhistas – eu não faço quadrinhos, mas já ouvi isso de alguns – sofrem.

O segundo caso é uma rejeição velada: “Ah, legal uma oficina de quadrinhos, as crianças vão gostar”, e fica nisso, como uma coisa para criança mesmo.

Nesse caso mais comum, eu fiz questão de explicar o que estava sendo trabalhado nas oficinas, que habilidades, que faixa etária, que objetivos pedagógicos, também deu muito certo.

Digamos que essa gratificação dos alunos é um retorno natural, gostoso, lúdico.
Eles vêm te perguntar, mostrar o que desenham, que lêem quadrinhos, crianças têm poucos preconceitos, esse retorno é maravilhoso, mas o outro retorno, que acho mais magnífico, é quando se percebe que você conseguiu seduzir o adulto, o professor, isso é bem mais difícil.

Mas acredito que essa idéia dos quadrinhos como coisa lúdica, que era o que eu queria ressignificar, no fim mais ajudou do que atrapalhou, porque ai todo mundo fica naturalmente disposto e interessado, então você só tem que jogar com isso, trabalhar e remodelar esse interesse.

IHQ: É possível identificar que no projeto os termos das histórias em quadrinhos foram mantidos, como argumento, arte final e etc…, não teve algum momento em que a simplicidade do traço das crianças atrapalhassem o ânimo delas para o projeto?

A.P.: Pois esse era meu maior medo. Essa coisa de fazer quadrinhos coletivamente que propus só em Dilermando de Aguira, tinha tudo pra dar errado.

Eu tinha me preparado pra dar errado, pensei em algo flexível caso desse algum erro, mas no fim deu tudo certo.

Eu usei esses termos referindo-se a etapas da criação em quadrinhos, porque queria mostrar para eles que as historias não surgem do nada, que é um processo coletivo, solidário, etc. e queria ensinar isso pra eles.

Evitei coisas complicadas de dizer, foram só essas palavras mesmo, a explicação mais aprofundada ficou pro projeto.

Quanto aos traços das crianças, nenhum problema, era pra ser uma hq de crianças mesmo, eu achei que ouviria reclamações do tipo “eu não sei desenhar, eu não gosto”, etc., mas não aconteceu.

Eles gostaram de fazer, com raras exceções, coisa que também faz parte, o aluno é um indivíduo particular, tem seus próprios interesses, o que dá para fazer nesses casos é descobrir o interesse do aluno e mostrar que esse interesse é compatível com o que existe em quadrinhos hoje.

IHQ: O resultado foi satisfatório de um ponto de vista de interesse das crianças? Elas ficaram entusiasmadas em continuar as oficinas?

A.P.: Sim, sim, isso é muito divertido. Eles falam em comprar Maus, me mostram desenhos e perguntam quando eu vou ir de novo.

Eu gosto de continuidade, talvez faça algo de novo nessas escolas na volta da Alemanha, em agosto do ano que vem.

Mas, como te falei, a parte da continuidade me parece ficar mais garantida pelo trabalho de tabela com os professores, se eles entendem a importância do trabalho, eles continuam.

E tem outra coisa bem legal: os alunos começam a exigir dos professores também a falar sobre quadrinhos com eles, isso aconteceu em Dilermando.

IHQ: Durante o processo de criação foi possível identificar alguma mudança comportamental em alguma das crianças, como concentração, atenção e interesse pelo assunto que normalmente elas não teriam na sala de
aula?

A.P.: Sim. Em Dilermando, que foi onde eu fiquei mais tempo. A terceira turma que visitei era também a mais complicada.

Os professores têm muitos problemas com ela, uma quinta série com alunos de até 16 anos, e eles pegaram a parte da quadrinização, que é também a mais difícil, ali tudo daria errado, eu achei isso porque minha irmã estava preocupada, mas foi impressionante, eles se aquietaram e se concentraram dum jeito!

A turma inteira!

Minha irmã disse que isso é raro e aconteceu por dois motivos: gente de fora que vem falar e por ser algo legal, ou seja, quadrinhos.

Mas como falei a questão é saber como jogar com esses elementos que estão a seu favor.

IHQ: A alguma intenção de continuar as oficinas e expandir para outras escolas?

A.P.: Como te falei, eu gosto de continuidade. Não gosto de fazer um evento ali, outro aqui, mas como estou na Alemanha e fico aqui até agosto de 2009, vai ter q ficar para a volta.

Em todo caso, estou com um novo desafio: fazer oficinas de quadrinhos aqui na Alemanha, com crianças daqui.

É perfeitamente possível, mas não agora, meu alemão ainda está ruim, preciso de mais domínio pra poder falar com clareza, talvez seja algo para o ano que vem, mas já tenho visto isso e vi que é possível.

Vai ser legal essa comparação, um novo público para ver a reação.

Em tempo: eu estou numa cidade do interior, 13 mil habitantes.

Também penso num projeto sem ligação com quadrinhos, mas que surgiu a partir da experiência de Dilermando.

Idéia da minha irmã: provocar um intercâmbio entre uma escola daqui e a de Dilermando, por meio de vídeo feito pelos alunos, apresentando a sua escola pra outra cultura.

IHQ: Trabalhar com crianças dessa faixa etária (quinta e sexta série), e incentivar oficinas como a que você ministrou, poderá no futuro criar uma geração de leitores mais assíduos de hqs, e modificando o padrão de super heróis, já que nessa idade a visão de supers são os próprios pais?

A.P.: É a minha intenção, mas obviamente precisa de um mutirão de gente fazendo pra dar conta da demanda.

Eu sou uma formiga carregando a minha folha. E tento pegar uma grande – desde que eu possa carregar – toda vez que me proponho a pegar uma.

Sobre heróis, indico a introdução do livro “A jornada do escritor”, do Cristopher Vogler.
Na verdade, toda obra tem heróis, no sentido narrativo da palavra. O problema é que nos quadrinhos a maioria são super-heróis, e parece que é só isso que se faz em quadrinhos.

Super-heróis são legais, quadrinhos para criança também, mas e Maus, onde entra nessa historia? E Persépolis? Tem muito mais coisa pra ser conhecida.

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O Impulso HQ agradece ao jornalista a entrevista concedida e parabeniza-o pela iniciativa com as escolas da região sul do Brasil.

Com atitudes como essas com certeza as histórias em quadrinhos ganharão posição de destaque cultural em nossa sociedade.

Renato LebeauAugusto Paim,escolas,HQs,oficinasO Impulso HQ se interessa por todas as vertentes do universo fantástico que são as histórias em quadrinhos, e por isso sempre busca as novidades do mercado editorial e de sua aplicação em outras áreas. Quando foi divulgado o post Projeto usa quadrinhos na escola, recebemos um comentário do leitor...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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