No meu último post falando sobre as duas HQs que mudaram a minah vida em 2010, eu terminei falando sobre a mania do homem de se achar especial e como isso acaba com o seu relacionamento com os seus semelhantes, quando me referia a Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons.

E é nesse ponto que outra HQ também mudou a minha vida: Tokyo Babylon, da CLAMP, publicada originalmente entre os anos de 1990 e 1993.

A trama gira em torno de Subaru Sumeragi, um garoto de 16 anos que é o líder de uma família cuja missão é manter a paz espiritual do Japão. É função dele proteger seu país dos males que fantasmas ou qualquer entidade espiritual maligna possam causar.

Em qualquer local que tenha ocorrência dessa natureza, ele deve se encaminhar para lá, a fim de proteger os lugares e as pessoas das energias negativas. Assim, ele sacrifica sua adolescência (em muitos casos, a fase mais egoísta da vida), seus amores e sonhos em prol de um bem-estar comum.

Mas ele não é um mero caçador de fantasmas (como era de se esperar em qualquer roteirista comum), seu método para “exorcizar” essas criaturas é muito mais profundo e revelador: ele conversa e dá atenção a essas entidades até elas reconhecerem que estão num lugar ao qual não pertencem mais.

E como fantasmas geralmente são almas com assuntos inacabados ou vítimas de mortes violentas (ao menos essas são definições bem populares), cada espírito que ele encontra narra a sua história de dor, invariavelmente envolvendo a mesquinhez humana.

Como o caso de uma mulher que foi abandonada pelo marido e tirou a própria vida por se ver sozinha – se me lembro bem, ela era órfã numa cidade distante – ou o caso de um ancião que ficou feliz em morrer porque assim não mais seria um fardo para sua família, ele se via apenas como uma despesa desnecessária já que não podia contribuir financeiramente no lar.

E Subaru faz algo que poucas pessoas fariam: ele dá atenção e realmente se importa com a história e os sentimentos de completos desconhecidos – que vêem na figura dele o primeiro ombro amigo que encontram em anos.

Isso me fez pensar em como é importante em nossas vidas ter uma pessoa que nos ouça realmente, que se importe com o que dizemos e que nos faça sentirmos importantes. Quantas vidas poderiam ser poupadas apenas com um abraço… quantas famílias permaneceriam unidas se cada um sacrificasse uma pequena parcela de seu dia para ouvir os demais membros da casa…

Em nossa ânsia por nós mesmos falta um pouco de sacrifício para tentar tornar a vida de nossos próximos menos dura, mais cômoda, mais divertida ou mais significativa.

Integrantes do grupo CLAMP

Na verdade, nem é um sacrifício tão grande assim, apenas um abraço, um sorriso, um bom-dia, tentar compreender o ponto de vista do outro, se importar com o que os outros fazem e pensam ou saber ouvir – já seriam suficientes.

É exatamente isso que Subaru faz, ele ouve as pessoas (fantasmas) e no desabafar, por ouvirem a si mesmos, esses espíritos percebem que, no final das contas, tiraram suas vidas – e de outros – muitas vezes por mesquinhez, por não cederem um pouco, por egoísmo, por uma pedrinha que num determinado ponto de vista virou uma montanha intransponível.

Na minha humilde opinião considero Subaru Sumeragi o maior super herói da história dos quadrinhos. Ele tem uma atitude verdadeiramente heróica (no mundo dos negócios eles dão a isso o nome de liderança) que é fácil de ser seguida e por isso mesmo é mais fácil se deixar motivar por ela.

A leitura dessa HQ, no final das contas uma história de sacrifício e amor ao próximo, me fez ver as pequenas coisas como as únicas coisas que temos realmente e me fez querer ser uma pessoa melhor, mais simpático, mais amigo, mais divertido e mais atencioso.

Não sei se eu consegui isso, mas é algo que eu passei a pensar e a me importar somente depois de ler Tokyo Babylon, por isso a recomendo para todos os meus amigos – eu mesmo só li porque um amigo encheu muito meu saco para ler, mas hoje sou muito grato a ele.

Claro que tudo isso são divagações extremamente subjetivas, ninguém precisa ter a mesma opinião, e é justamente por significar algo diferente para pessoas diferentes que a arte é tão fascinante.

Também não acho que toda HQ, ou qualquer outra forma de entretenimento, tenha necessariamente que despertar alguma visão de mundo ou sentimento nas pessoas. Mas é muito bacana quando isso acontece.

No meu caso, foi tão forte que me motivou a escrever esse texto. Obrigado por ter lido.

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Agora eu quero saber: E você, amigo leitor, qual HQ te marcou profundamente no ano passado e por quê?

Alexandre ManoelnotíciasCLAMP,mangá,Tokyo BabylonNo meu último post falando sobre as duas HQs que mudaram a minah vida em 2010, eu terminei falando sobre a mania do homem de se achar especial e como isso acaba com o seu relacionamento com os seus semelhantes, quando me referia a Watchmen de Alan Moore e...IMPULSO HQ é um site que se propõe a discutir histórias em quadrinhos e assuntos derivados como cinema, games e cultura pop em geral.