Inicio de ano é uma época de renovação, época em que analisamos e mensuramos nossas ações do ano anterior, comemoramos as conquistas e buscamos aprender com os erros passados. Também é época das tradicionais promessas de Ano Novo – aquelas ações que planejamos na esperança de mudar para melhor nossas vidas.

E é natural que o ser humano esteja sempre em busca de algo que mude sua vida; de fatos marcantes e, de preferência, enriquecedores que as tornem pessoas melhores, seja no aspecto financeiro, amoroso, social, cultural, familiar ou em qualquer outra área.

E esses acontecimentos podem ser de qualquer natureza – desde conhecer alguém a ser promovido no emprego. Também podem se manifestar em situações aparentemente insignificantes como ver as crianças brincando na rua ou ler um livro. Alan Moore disse certa vez, numa entrevista à extinta revista Kaos!, que “tudo é mágico, é apenas uma questão de estar acordado o suficiente para perceber isso”.

Alan Moore

Ano passado eu vivenciei diversas experiências enriquecedoras – nem todas agradáveis ou boas, mas ainda assim enriquecedoras. E dois desses momentos, que eu divido agora com todos, ocorreram com a leitura de duas HQs. Curiosamente, uma de Moore e outra falarei daqui a pouco.

O primeiro desses momentos ocorreu enquanto eu lia Watchmen (escrita por Alan Moore, ilustrada por Dave Gibbons e publicada originalmente entre os anos de 1986 e 1987).

É um trabalho bem famoso, principalmente depois de ser adaptado para o cinema em 2009, e geralmente lembrado por sua narrativa ímpar e por abordar a questão do impacto que a sociedade sofreria se realmente existissem seres encapuzados que lutassem por justiça.

Claro que esses são pontos interessantes e que fazem a HQ ser um título obrigatório para quem aprecia a linguagem e a história dos quadrinhos, mas não foi isso que mais me marcou na leitura da obra (que eu admito ter sido um relaxo meu esperar 26 anos para ler) e sim a visão que o Dr. Manhattan tem do mundo.

Para quem ainda não leu (não vão esperar tanto tempo quanto eu, hein!), Dr. Manhattan era um cientista chamado Jonathan Osterman que foi completamente desintegrado após sofrer um acidente em seu laboratório.Com o tempo, e muita força e vontade, ele conseguiu unir seus átomos novamente, reconstituindo assim um corpo. Mas ele não é mais o mesmo: desenvolve o poder de controlar a matéria e perceber simultaneamente espaços e tempos distintos.

O que poderia virar um entediante clichê nas mãos de um roteirista mediano, com Moore torna-se um dos personagens mais interessantes dos quadrinhos: apático aos assuntos humanos, indiferente, ou até mesmo entediado, aos acontecimentos do mundo e interessado unicamente nas relações subatômicas da matéria. Natural, afinal, que graça teria o mundo para uma pessoa que consegue ter o que quiser à sua frente e visitar o seu próprio passado, presente e futuro ao mesmo tempo?

Mas, o que mais me marcou foi a visão desse personagem em relação à vida, particularmente na passagem em que ele se encontra em Marte com a personagem Espectral e tenta amenizá-la de sua angústia em relação ao futuro do planeta (à beira de uma guerra nuclear): por que se importar muito e levar as coisas tão a sério se tudo não passa de uma junção casual de moléculas?

A própria inteligência, que nós humanos estimamos tanto em ter (mas não em usar), ao que parece, não passa de moléculas organizadas ao acaso num determinado modo e num determinado tempo.

Numa interpretação livre e subjetiva, essa passagem me fez pensar em Deus e na vida. Tive um insight e concebi Deus como um jardineiro, uma entidade que, sem muita coisa para fazer (nenhuma crítica aqui), resolve investir seu tempo cultivando algumas plantas.

E que jardineiro, em meio a seus afazeres cotidianos, se importaria com o surgimento de uma formiga (para usar um exemplo semelhante ao do Dr. Manhattan que, em certa passagem, compara a humanidade com cupins)? Ainda que seja uma vida, é um ser muito insignificante perante a grandeza do todo, o jardim cheio de vida e beleza em toda sua extensão e aspectos.

Por que o destino da formiga seria mais importante que o destino da aranha, da samambaia, da terra ou de qualquer outro elemento do jardim? E se, de repente, essa formiga se organizasse numa sociedade extremamente produtiva que enchesse o jardim com casas, prédios ou foguetes que as levassem até a uma árvore pouco acima do solo?

Toda essa criação seria bela, de fato, mas ainda assim não mais especial do que todos os outros aspectos. Até o ato mais grandioso do homem mais grandioso é insignificante perante o tamanho do universo.

Até então, e devido a uma criação católica, eu acreditava em destino, que quando nascemos somos predestinados a seguir um caminho e que, não importa o quanto tentássemos negá-lo, ou seguir outro rumo, jamais escaparíamos a nossa sina.

Mas a visão de casualidade que o Dr. Manhattan apresenta na HQ me libertou desse pensamento. Acho que o acaso faz mais sentido, não mais penso que Deus tenha planejado o destino de cada formiga, pedra, planta, humano, minério ou gás do universo – não penso que ele tinha tal pretensão, se ele realmente existir.

Encarar a vida como uma casualidade também tira um grande peso das costas, afinal não mais precisamos cumprir nada, nem destino, nem carma, nada. Até as características da sociedade: se ela é divida em regimes, seja ele de castas, ideológicos, financeiros ou o que for, não é Deu que quer assim e sim os próprios órgãos que regem a sociedade – afinal um jardineiro não se preocuparia com que tipo de hierarquia as formigas convivem.

Nem mesmo as tragédias ou conquistas são frutos da bondade ou vingança de Deus – um jardineiro não interferiria no crescimento de um formigueiro, que por mais gigante que seja ainda é pequeno perante todo o jardim, assim como não interferiria se um tamanduá aparecesse e devorasse tudo o que as formigas laboriosamente criaram; tudo segue a ordem natural das coisas.

Seguir a ordem natural das coisas, acho que no fundo é isso, o ser humano acaba se achando tão especial que não consegue reconhecer o admirável universo cotidiano a seu redor (aspecto que o Dr. Manhathan comenta em determinada passagem da HQ), a magia impregnada nas coisas, como a citação de Alan Moore acima avisa; não consegue interagir com a beleza dos outros elementos.

E, se não há nenhum caminho pré estipulado, nenhum sentido extra-formigueiro naquilo que você faz, nenhuma vida após a morte (haverá um jardim depois desse jardim? Numa dimensão paralela? Talvez a Terra 3 da DC?), resta-nos aproveitar a beleza inerente das coisas que todo dia se mostram pra gente e aproveitar o melhor dessa nossa vida puramente casual: as relações interpessoais com a família, os amigos e as pessoas próximas que erroneamente nunca damos atenção. Por que no final é só o que a gente tem – enquanto tem.

E, infelizmente, a mania do homem de se achar especial acaba minando o seu relacionamento com os seus semelhantes, se apegando demais ao seu eu, a seus problemas, qualidades, conquistas sem reparar os demais.

No próximo post falarei sobre a outra HQ que mudou a minha vida ano passado! Aguardem!

Alexandre ManoelnotíciasAlan Moore,Dave Gibbons,WatchenInicio de ano é uma época de renovação, época em que analisamos e mensuramos nossas ações do ano anterior, comemoramos as conquistas e buscamos aprender com os erros passados. Também é época das tradicionais promessas de Ano Novo – aquelas ações que planejamos na esperança de mudar para melhor...IMPULSO HQ é um site que se propõe a discutir histórias em quadrinhos e assuntos derivados como cinema, games e cultura pop em geral.
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