“Yeshuah não foi feito para chocar. Não é pra ser pop também”, diz Laudo Ferreira

Quem acompanha o Impulso HQ deve ter percebido que o outubro foi praticamente o mês de Yeshuah aqui no site. Tivemos resenhas, ela foi comentada na coluna HQ que Acontece, por Guilherme Kroll e ainda tivemos a promoção em parceria com a editora Devir Livraria, em que o leitor DS ganhou os dois primeiros volumes de Yeshuah autografados por Laudo Ferreira e Omar Viñole.

Aproveitando a oportunidade que a equipe do Impulso HQ teve em conhecer o estúdio onde Yeshuah foi desenvolvido, este post é um resumo da conversa animada com os autores, que falaram sobre quando começou a parceria entre os dois, mercado de quadrinhos, novas publicações e é claro sobre Yeshuah e a sua exposição na mídia, alcançando destaques em jornais e revistas, como por exemplo a Revista Publish, onde a ilustração de Yeshuah será a capa. E para finalizar algumas informações sobre a terceira e última parte de Yeshuah.

Os dois quadrinhistas que em parceria desenvolvem atualmente o terceiro volume de Yeshuah, também estão em projetos paralelos. Omar Viñole está colorindo Orixás, que sairá pela editora Nobel com 60 páginas em dezembro. Os desenhos são de Caio Majado e o roteiro Alex Mir. A obra é uma das selecionadas pelo PROAC.

Laudo autográfa para o vencedor da promoção Yeshuah e Impulso HQ

Laudo está produzindo o Auto da Barca do Inferno, também junto com Omar, que deve sair no começo de 2011, e Clube da Esquina, contemplado também pelo PROAC.

E foi justamente sobre essa situação de um projeto atrás do outro que o bate papo começou a se desenrolar. “O mercado está melhor. Hoje em dia é possível produzir um quadrinho atrás do outro, mas depende muito do quadrinhista. È um momento impar”, disse Laudo. “Acredito que com a Internet o pessoal começou a se divulgar mais. Antes os lançamentos ficam muito centrados aonde eram lançados. Os quadrinhos estão mais em evidencia. Os filmes fizeram os quadrinhos ficarem em alta”, completa Omar.

Segundo Laudo, esse momento tende a diminuir. Agora é hora de quem for bom aparecer e garantir um lugar, e Omar também fez outra observação: “Se você analisar as editoras não tem dinheiro pra bancar quadrinhos. Eles pagam se vender, mas não pagam para você produzir. Você tem que chegar com o projeto pronto. Ou tentar fazer quadrinhos institucionais. Que não deixa de ser quadrinhos. Fazemos quadrinhos desse tipo também”.

Omar autográfa para o vencedor da promoção Yeshuah e Impulso HQ

Laudo falou deu mais informações sobre esse quadrinho institucional: “Fizemos uma HQ que originalmente era pra ser 8 páginas e no fim virou 16. Tinha que juntar a informação que a empresa queria passar para os funcionários e ainda ter o entretenimento dos quadrinhos. Só de informação já encheriam as 8 páginas. Liguei para a responsável e falei que iria fazer o layout primeiro e que depois mandava. No final, acabou ficando com o dobro de páginas que eles pediram, mas o interessante é que vendo a proposta a empresa topou fazer com 16 páginas”.

E finalizando o assunto sobre o mercado editorial de quadrinhos eles finalizam: “Tem muita gente querendo virar estrela. De querer ficar na mídia e esquece que tem que continuar produzindo. Sou de uma época que o desenhista ia ficando bom. Tem gente boa aparecendo, mas já é elevada ao status de gênio. Por exemplo, eu acho que de uns tempos pra cá que eu aprendi a fazer histórias em quadrinhos. Até hoje eu vejo que tenho que aprender e sempre estar evoluindo”, disse Laudo. “Hoje o cara quer lançar um quadrinho e aparecer no Fantástico!”, completou Omar.

“Nos conhecemos no século passado”, brinca Laudo a respeito do início da parceria com o Omar, que começou em 1990 por intermédio de Dark Marcos, uma amigo em comum entre os dois. “Fiz Zé do Caixão e precisar de um arte-finalista e me indicaram o Omar”, disse Laudo.

E a parceria que dura até os dias de hoje não ficou apenas nos quadrinhos: “No começo trabalhávamos mais com publicidade e ilustrações do que com quadrinhos. O mercado era muito difícil, teve até uma vez que tivemos que desenhar 200 páginas direto no papel vegetal porque o contratante não queria pagar o fotolito. E ganhávamos pouco pra isso”, comentou Laudo.

Indo para o assunto Yeshuah, Laudo revelou que quem ia publicar seria a editora Júlia Barano, que prefaciou o primeiro volume, da editora Mercuryo, que na época não queria pegar apenas o público de quadrinhos. Depois de uma viagem a Frankfurt que estava tendo uma feira de quadrinhos, Júlia voltou animada para publicar, mas sócia ela da época não acreditava nos quadrinhos. A ideia acabou sendo adiada quando ela foi a uma grande livraria grande em São Paulo e percebeu que não tinha espaço para quadrinhos. Se publicada não teria onde colocar a HQ em uma megastore.

“As entrevista que dei até agora sempre falei que o Yeshauh começou em 2000 mas percebi que me enganei. Vendo uma apresentação de imagens que fiz para uma palestra vi que Yeshuah na verdade começou em 1998. No ano 2000 foi que começamos a produzir, junto com a pesquisa”, disse Laudo sobre o início da saga da publicação de Yeshuah.

Laudo ainda completou: “Ia fazer a obra toda em um traço mais realista, mas depois da HQ Subversivos acabei mudando o meu traço e decidi fazer do jeito que é hoje”. Infelizmente o quadrinhista se desfez dessa primeira página de Yeshuah, que inicialmente iria se chamar apenas ELE.

Uma pequena, mas bem pequena, amostra dos livros que Laudo utilizou como pesquisa

Laudo também falou sobre o seu processo de pesquisa: “Conversei com estudiosos, viajei para templos para saber mais, li muito sobre o assunto, e como é natural, quanto mais você descobre mais afundo você quer ir. Fiquei obcecado pelo tema. O primeiro volume de Yeshuah é esse período”.

O Impulso HQ quis saber se em algum momento Laudo sentiu algum medo em desenhar Jesus em sua obra com receio de ofender alguém: “Não tive medo. Acredito que a única cena que parei e analisei o que poderia repercutir foi no segundo volume na página que mostra Jesus sendo comido pelas pessoas famintas. Inicialmente tive receio de como as pessoas iriam interpretar, mas a cena tem uma representação maior. Quem lê o quadrinho entende e vê que não ofendo ninguém”.

Sobre possíveis repercussões negativas Laudo revela: “Já recebi um e-mail de uma senhora que se sentiu ofendida com a representação de Maria no primeiro volume. Eu respondi argumentando que ali nos quadrinhos estava uma interpretação de como eu acredito que Maria deu a luz a Jesus Cristo, ou seja, como qualquer outra mulher. Ela nunca mais me respondeu de volta”.

Laudo mostra com exclusividade para o Impulso HQ o seu estudo do personagem Diabo para a HQ que adapta o Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente

“Tem gente que se sente ofendida com qualquer coisa”, disse Omar, e completou “Falar de Jesus sempre pode ser uma ofensa se você defender uma religião e não uma outra”.

Laudo comentou que sentiu mais resistência dentro dos quadrinhistas: “Tem gente que torce o nariz por causa do assunto, ou só acha legal se tiver alguma referência vinda de fora, ou se for pra chocar. Falar sobre a vida de Jesus já tem bastantes opções desgastadas. Eu tentei sair disso. Escrever apenas a história de Jesus não sei se vale a pena. Isso já foi feito” e finalizou “Yeshuah não foi feito para chocar. Não é pra ser pop também”.

Sobre a exposição na mídia Laudo disse: “Acredito que toda a exposição da mídia que a obra vem ganhando é sim pelo assunto, mas também a forma de como é tratada. O meu Yeshuah é sério, o personagem é levado a sério. Não faço chacota, não estou questionando os princípios. Estou expondo uma história, mas com reflexões pessoais”.

Omar mostra duas páginas finalizadas de Auto da Barca do Inferno

“Teve a comparação na época com o Gênesis do Crumb, que todo mundo esperava que ele iria chocar e não aconteceu. Ele simplesmente desenhou como está nos escritos. Não há uma visão pessoal. No Yeshuah é a mesma história, Jesus, Maria e etc., mas tem uma outra perspectiva”.

Para exemplificar essa afirmação Laudo deu o exemplo de que no primeiro volume de Yeshuah tem mais conceitos Xamânicos, e que ele tem que ter todo um entendimento para passar a ideia, como na passagem da conversa entre o anjo Gabriel com Maria, ele não fala que quem está chegando é o filho de Deus, e sim que é algo especial.

Sobre como será o terceiro volume, Laudo ironiza: “Jesus morre no final”. Laudo revelou que a terceira parte da história não será sobre o que ele acha que aconteceu com Jesus, ou vai seguir alguma teoria. Ele vai contar de acordo com o Novo Testamento, e revela que o foco não será a morte de Jesus, apesar de comentar que acha engraçado como todos sempre perguntam como será a morte de Jesus. “Todos querem ver a morte de Jesus. Se você vai ao cinema ver um filme bíblico o auge sempre é a morte”, disse Laudo. “A ultima parte é pra fechar mesmo a história. Não será baseada em alguma filosofia. Ela irá mostrar uma sucessão de fatos”, completou o quadrinhista.

Laudo e Omar mostram para os leitores do Impulso HQ uma pagina do terceiro volume de Yeshuah

O terceiro subtítulo não está definido ainda. O primeiro “assim embaixo assim em cima” e o segundo “o circulo interno e o circulo externo” são conceitos budistas e possivelmente o terceiro seguirá essa tendência.

Sobre a previsão de lançamento do terceiro volume os quadrinhistas informaram que será no segundo semestre de 2011: “estou fazendo um desenho mais rebuscado, demoro 2 dias em cada página”, disse Laudo.

Depois do lançamento de terceira parte de Yeshuah os autores revelaram o que pode ser o futuro de uma próxima publicação: “Vamos torcer por um encadernado com os três volumes com capa dura. Isso foi sugestão da própria Devir”, disse Omar, que completou brincando: “Tem estudo de Yeshuah colorido também, mas quem sabe isso fica para uma quarta impressão depois do encadernado”.

Omar Viñole e Laudo Ferreira

Sobre o reação da editora Devir Livraria sobre o sucesso de Yeshuah eles comentaram: “A Devir está super feliz. Yeshuah tem uma tiragem de 2000 exemplares, e segundo eles nos passaram o primeiro volume foi o livro que mais alcançou mídia na Devir”, disse Laudo.

E Laudo também comentou o fato de Yeshuah ter sido publicada pela Devir: “Yeshuah passou por várias editoras, e o fato de não ter saído com a HQM foi porque não conseguimos conciliar horário e manter um contato rápido, mas nada, além disso. Não houve brigas nem nada. Saiu pela Devir porque ela entrou em contato com a gente, e o processo de decisão foi super rápido. Ela acreditou no projeto”.

Para finalizar o Impulso HQ perguntou sobre o que eles irão produzir em conjunto depois de Yeshuah: “Não sabemos o que iremos, mas fazer com certeza nada tão grande e nem tão denso. Estamos pensando em um personagem chamado Sr. Caramelo, que envolve psicológico, terapêutico e espiritual, mas de forma leve”, disse Laudo. “Irei tirar férias no Tibet”, brinca Omar.

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O Impulso HQ finaliza este post por aqui agradecendo mais uma vez a grande colaboração e gentileza de Laudo Ferreira e Omar Vinõle.

Renato LebeauquadrinhosDevir,Laudo Ferreira,Omar Viñole,Yeshuah“Yeshuah não foi feito para chocar. Não é pra ser pop também”, diz Laudo Ferreira Quem acompanha o Impulso HQ deve ter percebido que o outubro foi praticamente o mês de Yeshuah aqui no site. Tivemos resenhas, ela foi comentada na coluna HQ que Acontece, por Guilherme Kroll e ainda...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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