Em um café de Paraty, o gerente reclamou de uma suposta “descaracterização” da Flip ao trazer convidados que não eram escritores, digamos, à maneira como o moço conhecia. “Trouxeram esse tal de Neil Gaiman. Esse cara é mais estrela de rock!”.

A barba, os cabelos desgrenhados, o figurino totalmente preto e fãs em efervescência – mesmo em uma entrevista coletiva – poderiam dar razão ao sujeito. Mas o britânico é um dos nomes que ajudaram a pulverizar a armada que considera os quadrinhos uma “arte menor”.

Atração da festa deste sábado, quando dividirá uma mesa com o romancista Richard Pryce, ele pavimentou ao lado de outras figuras um caminho ao reconhecimento das HQs por meios tradicionais e conceituados, com títulos como “Sandman”, até ganhar um prestígio que chegou a outras áreas.

Gaiman faz também prosa ficcional, é roteirista de cinema (“Beowulf”) e vai dirigir um filme com produção-executiva de Guillermo Del Toro (a adaptação de sua graphic novel “Death: the high cost of living”). Ele chegou todo simpatia à sala de entrevista e provocou frisson em alguns fãs (e jornalistas-fãs) que acompanhavam o papo.

Justamente uma das questões foi sobre a legitimidade dos quadrinhos como uma arte que é simplesmente arte e ponto final. “Uma das coisas curiosas quando venho ao Brasil é que faço uma volta histórica, porque sou questionado a respeito disso”, declarou em tom suave.

“O fato é que há pessoas como Art Spiegelman que já ganharam um Pulitzer [que premia jornalistas e escritores] e já figuraram em listas da revista ‘Time’ junto a obras literárias. E estava lá porque é boa literatura. É apenas diferente de outros meios”.

Como pessoa que transita por outros meios e também retrabalha obras alheias, Gaiman diz que não sofre de preocupação quando vê suas criações na mão dos outros. “Hoje em dia eu estou mais confortável com isso. Só tenho dúvidas sobre a versão de ‘Anansi boys’, cujos direitos a Warner Bros comprou.

A BBC Filmes adaptou uma vez e fiquei muito insatisfeito com o resultado”, conta. Conformado, ele diz que sempre algo é perdido em uma adaptação. “Mas em geral eu não vejo problemas. E uma coisa que eu aprendi fazendo filmes é que você sempre se surpreende com o resultado.”

Uma pergunta curiosa foi sobre as crenças – de modo geral – de Gaiman. “Minha resposta depende do que eu estou escrevendo. Se eu estou escrevendo sobre fantasmas, eu acredito em fantasmas. Minha relação com Deus é a mesma coisa. Eu adoro acreditar em Deus – e em deuses”, disse, em referência a “American gods”.

Publicado originalmente em 2001 (e lançado no Brasil pela editora Conrad), o romance transporta personagens da mitologia nórdica para um cenário contemporâneo, numa trama de mistério, humor e referências aos novos meios tecnológicos.

Gaiman também discorreu sobre sua relação com desenhistas e artistas. O escritor disse que não acredita em tensão criativa na parceria para parir uma nova obra. “Eu faço uma espécie de carta para o artista, com 10 mil palavras e isso vai resultar em 24 páginas. Antes de começar um trabalho eu pergunto o que ele não gosta de desenhar. Um deles não gostava de carros e, bom, havia uma cena sobre uma viagem na estrada. Tive que fazer uma adaptação, mas não vi problema nisso”.

De volta a questão rock ‘n roll, o britânico comentou a influência que o punk teve em sua vida. “Era a crença de que você não precisa de um porco inflável [referência ao Pink Floyd e Roger Waters] para entrar em uma banda de rock. Mas isso valia para muitas coisas.”

Por fim, Gaiman recordou a experiência de assinar dedicatórias para mais de mil pessoas em uma única noite e falou da impressão que tem do fã brasileiro. “Estava já há um bom tempo nisso e o gerente resolveu que até a pessoa 700 a fila acabaria. Havia mais 500 esperando. Os que iriam ficar sem autógrafos simplesmente disseram que iriam destruir a livraria se saíssem sem autógrafo. Então eu fiquei até a madrugada assinando livros e perdi completamente a minha voz. Cheguei a Argentina completamente afônico.”

“Mas não foi uma experiência ruim não. Isso tem a ver com o entusiasmo do fã brasileiro. Aqui foi a única vez em que invadiram o palco ao fim de uma leitura e um segurança teve que me tirar do meio”, relata. “E o Brasil foi o primeiro país do mundo a fazer uma edição de ‘Sandman’ depois dos Estados Unidos. Eu me recordo de quando recebi pela primeira vez as revistas pelo correio e disse ‘uau, isso é legal demais’.

A edição brasileira estava melhor do que a americana. Coloquei até no banheiro um pôster do Dave Mckean da versão brasileira.”

Pergunto se ele aqui se sente um rock star. “Não, talvez nas Filipinas. Aqui eu me sinto um jogador de futebol.”

Visto no G1 – por Shin Oliva Suzuki

Renato LebeauquadrinhosFlip,Neil Gaiman,SandmanEm um café de Paraty, o gerente reclamou de uma suposta “descaracterização” da Flip ao trazer convidados que não eram escritores, digamos, à maneira como o moço conhecia. “Trouxeram esse tal de Neil Gaiman. Esse cara é mais estrela de rock!”. A barba, os cabelos desgrenhados, o figurino totalmente preto...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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