Antes do Comics Code Authority entrar em vigor nos EUA, os leitores podiam acompanhar aventuras que o levariam para os pontos mais remotos da galáxia ou ainda trazer os mais terríveis monstros para a nossa dimensão!

Em julho de 2017, a editora Mino iniciou uma coleção que faz um resgate histórico da Era de Ouro dos quadrinhos norte-americanos, a Coleção Incendiária. O primeiro volume é Os Morcegos-Cérebro de Vênus e Outras Histórias, que conta com a arte de grandes nomes dos quadrinhos como Alex Toth, Jack Kirby, Joe Kubert, Joe Shuster, Steve Ditko, Wally Wood e muito outros.

O foco desta edição são as histórias de ficção científica do período pré Comics Code Authority, o famoso código de autocensura que foi instaurado nos Estados Unidos na metade da década de 1950.

O encadernado conta com 31 histórias do período entre 1939 e 1954 e mostra o trabalho do início da carreira de artistas que se tornaram gigantes do mercado e outros grandes que não são tão reconhecidos atualmente.

São poucos os roteiristas creditados, já que na época não era comum que os escritores assinassem as histórias, com exceção de artistas que também fazem o roteiro, como Bob Powell, Fletcher Hanks e Jack Kirby (com o pseudônimo Michael Griffith). Uma exceção no encadernado é a história “O Anjo da Morte”, escrita por Joe Simon e desenhada por Kirby, a dupla criadora do icônico Capitão América.

O Projeto

A ideia para o projeto começou com Carlos Junqueira, coeditor do material, que é fã dos quadrinhos da Era de Ouro. Ele conta no texto de introdução da publicação que a ideia surgiu graças a sua insatisfação com a qualidade da arte das publicações que encontrou do período, que pareciam ter sido impressas direto dos scans. Com isso, ele decidiu buscar materiais da época e desenvolver um processo de restauração das antigas revistas para poder publicá-las com a melhor qualidade possível.

Após selecionar muitas histórias e começar o processo de restauração, ele apresentou o projeto ao amigo e editor Lauro Larsen, que abraçou a ideia na hora. Eles levaram o projeto até a editora-chefe da Mino, Janaína de Luna, que topou lançar o livro pela editora.

As histórias presentes no encadernado estão em domínio público, então os editores tiveram um grande trabalho na hora de selecionar o material para a edição, que é exclusiva do mercado brasileiro, diferente de títulos como Creepy – Contos Clássicos do Terror (Devir) e Cripta – Os Clássicos de Horror da Revista Eerie (Mythos) que são publicações específicas das revistas feitas pela editora Dark Horse nos EUA.

Ainda no texto que abre a publicação, Carlos Junqueira revela que a ficção científica é só um dos gêneros que começou a pesquisar e fazer o processo de restauração. Western, crimes, guerra, super-heróis, romance e principalmente terror são os outros gêneros que encontrou e podem aparecer em próximas edições da coleção. Terror, aliás, é o tema do segundo volume: O que Havia na Caixa de Sam Dora? E Outras Histórias, lançado em novembro de 2017.

Ficção Científica

O gênero ficção científica era um dos mais populares no período marcado como a Era de Ouro. Com o final da Segunda Guerra Mundial, o gênero dos super-heróis sofreu uma queda no interesse dos leitores, por diversos motivos como o amadurecimento dos mesmos ou pelas experiências do conflito.

O medo de uma guerra nuclear, de possíveis invasões e de onde a ciência poderia levar a humanidade foram muito utilizado dentro da ficção científica, tanto na literatura quanto nos quadrinhos. Em Os Morcegos-Cérebro de Vênus e Outras Histórias, acompanhamos cientistas, exploradores do espaço, invasores alienígenas e todo tipo de figura em histórias de cinco a oito páginas das mais inventivas aventuras. Os autores da época pareciam buscar sempre surpreender e chocar os leitores, o que torna as histórias ainda mais interessantes, pois em muitos casos, os últimos quadros revelam um final incrível e inesperado.

Obras como Frankenstein ou O Prometeu Moderno, Guerra dos Mundos e outros clássicos da literatura aparecem como influências enquanto os fãs do gênero podem identificar muitas semelhanças de algumas histórias com filmes e livros que vieram depois do período da publicação destes quadrinhos.

A última aventura do encadernado, por exemplo, tem um final muito parecido com o do filme Planeta dos Macacos, de 1968 (que adapta o livro publicado em 1963). Além disso, o clima do seriado clássico Além da Imaginação (The Twilight Zone, a série original foi produzida de 1959 a 1964) parece muito presente em vários contos.

Mesmo depois do código entrar em vigor, a influência da ficção científica nas HQs norte-americanas continuou forte. Muitos super-heróis tiveram suas origens baseadas em fenômenos ou acidentes científicos, além da aparição de muitos alienígenas nas aventuras dos heróis da Era de Prata.

A Edição

O livro tem um belo acabamento em capa dura, com papel fosco de boa gramatura nas páginas do miolo. O trabalho de restauração das artes originais é primoroso. É provável que estas histórias nunca tenham sido publicadas com um acabamento tão bom, já que na época o papel utilizado para este tipo de material fosse mais simples e de qualidade inferior.

Um ponto que levanta certa polêmica é a ausência das cores originais das edições. A maioria das histórias do encadernado eram impressas com cores berrantes, que marcam as publicações do gênero na época. Cada leitor terá uma opinião diferente nesse caso, há quem não goste, há quem goste. Particularmente, entendo a opção por publicar o material em PB, principalmente pelo trabalho hercúleo de restauração do material, mas também porque o preto e branco permite que o leitor possa admirar mais o traço dos artistas, tanto os gigantes como Alex Toth, Jack Kirby e Wally Wood, quanto o dos menos conhecidos.

Ainda sobre a arte, o leitor vai encontrar uma variedade grande de estilos. Desde os que se aproximam mais da linha de super-heróis, passando pelo traço mais próximo ao que aparecia nas revistas de terror e alguns que se assemelham muito ao de grandes nomes do quadrinho underground americano como Charles Burns e Robert Crumb.

Outro ponto extremamente positivo da edição é o trabalho de adaptação das fontes dos títulos de cada conto e do letreiramento. Cada uma das aberturas das histórias teve seu título recriado fielmente, o que enriquece muito o material.

O ponto negativo da edição é a revisão. São muitos os erros ortográficos ao longo do encadernado. Já no índice encontramos alguns erros como nos títulos das revistas originais “Talves of Horror” e “Weird Mistries”.

O texto de introdução dos editores está formatado de maneira estranha, desalinhados e com as caixas de texto com largura diferente. Os textos, que estão lado a lado, estão com o espaço entre as linhas visivelmente diferentes, além do segundo estar com as fontes muito condensadas e sem nenhum parágrafo.

No texto sobre os artistas algumas informações parecem confusas e o texto sobre o Wally Wood ainda tem um trecho duplicado. Nas histórias existem alguns erros de digitação e repetições, além de alguns erros ortográficos.

Uma pena, ainda mais por ser uma proposta editorial muito boa e que poderá ser usada para pesquisas acadêmicas e referência por conta de seu conteúdo e do período de publicação original. Fica a torcida para que em futuras reimpressões esses erros possam ser corrigidos.

Mesmo assim, o “saldo” na leitura de Os Morcegos-Cérebro de Vênus e Outras Histórias é positivo, com histórias muito divertidas e surpreendentes, além do resgate histórico de um período tão rico da produção de quadrinhos norte-americana.

Os Morcegos-Cérebro de Vênus e Outras Histórias
Editora Mino
Autores: Alex Toth, Basil Wolverton, Bob Powell, Charles Stern, Don Perlin, Ernest Schroeder, Fletcher Hanks, Jack Katz, Jack Kirby, Jack Sparling, Joe Certa, Joe Kubert, Joe Shuster, John Giunta, Manny Stallman, Mo Marcus, Rudy Pallas, Sid Cheek, Steve Ditko, Vince Fedora, Wally Wood e Warren Kremer.
Capa: Dura
Miolo Preto e Branco
208 páginas
28,4 x 18,8 cm
R$ 79,90

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