Monstros terríveis, bruxas macabras e espíritos do mal se encontram no segundo volume da Coleção Incendiária, da Editora Mino.

Dando continuidade a sua coleção de clássicos dos quadrinhos norte-americanos da Era de Ouro, a editora Mino lançou em outubro de 2017 “O que havia na caixa de Sam Dora? E outras histórias”, compilação de quadrinhos com o Terror como temática, escrito e ilustrado por alguns dos maiores nomes da indústria.

Com histórias publicadas em revistas das décadas de 1940 e início de 1950, o leitor pode apreciar o trabalho de nomes como Joe Shuster, Jack Kirby, Joe Kubert, Alex Toth, Steve Ditko, Wally Wood, Basil Wolverton e tantos outros que colaboraram em um dos períodos mais criativos e inovadores das HQs.

O terror foi um dos campos mais férteis para o desenvolvimento narrativo e para a ousadia gráfica de artistas e roteiristas que buscavam formas cada vez mais ousadas de entreter e surpreender o leitor.

Neste volume são apresentadas 28 histórias, que passaram pelo mesmo processo de restauração do volume um (que você pode conferir a resenha aqui no Impulso HQ), publicadas originalmente antes da criação do Comics Code Authority.

Comics Code Authority

O polêmico Comics Code Authority foi uma forma de auto regulamentação dos quadrinhos norte americanos que entrou em vigor na primeira metade dos anos 1950. A criação do código veio como uma resposta às acusações que os quadrinhos recebiam de influenciar de forma negativa a juventude da época.

Desde a década de 1940, editores e profissionais do mercado conviviam com acusações de que o conteúdo das HQs traziam maus exemplos e contribuíam para o aumento da delinquência juvenil e outros comportamentos considerados inadequados para a sociedade da época.

Os quadrinhos vinham de sua Era de Ouro (considerada de 1938 até 1955), período em que os super-heróis ganharam popularidade e foram usados inclusive como propaganda na Segunda Guerra Mundial. Durante a década de 1940, no período pós-guerra, o gênero dos super-heróis teve uma queda de interesse do público e temas como o terror, a ficção científica e o gênero policial ganharam popularidade.

Fatores como a perseguição ao comunismo, a defesa dos “valores tradicionais”, a condição econômica de muitas famílias no pós-guerra e a grande quantidade de órfãos que o conflito gerou eram problemas presentes na sociedade norte-americana.

Na década de 1950, o psiquiatra Fredric Wertham foi um dos maiores nomes da luta “anti-quadrinhos” da época. Seu livro Seduction of the Innocent trazia relatos de como os quadrinhos afetavam de forma negativa a juventude. Em sua clínica, Wertham trabalhava principalmente com jovens delinquentes e viu nos quadrinhos um ponto comum no interesse destes jovens. O problema da sua teoria, e que foi contestado muitas vezes ao longo dos anos por pesquisadores, é que o psiquiatra ignorou muitos outros fatores e exagerou alguns casos.

Mas na década de 1950, com a pressão da sociedade por medidas, o senado dos Estados Unidos começou uma série de audiências que levaram à criação do código de autorregulamentação pelas editoras da época, que passariam a seguir um conjunto de regras de “boas práticas” em seus títulos.

Com isso muitas editoras foram prejudicadas, especialmente as que tinham muitos títulos de terror como a Marvel e a EC Comics.

A EC era uma das maiores editoras da época e seus títulos de terror como Tales from the Crypt, The Vault of Horror e The Haunt of Fear foram afetados diretamente quando o código entrou em vigor, tanto pela temática das histórias quanto por termos que não poderiam mais aparecer nas capas das edições, como as palavras Terror e Horror.

As editoras que não trouxessem o selo Approved by the Comics Code Authority acabavam não sendo aceitas pelos distribuidores e pelos pontos de venda, o que gerou o cancelamento de muitos títulos de várias editoras, mesmo com as tentativas de modificar seus quadrinhos e evitar temas e cenas que não seriam aprovados.

A EC Comics buscou se adequar às novas regras, mas não teve o mesmo êxito e pouco tempo depois cancelou os novos títulos. A revista Mad passou para o formato Magazine e com isso saiu da alçada do código, tendo maior liberdade criativa.

O gênero só voltou a ganhar espaço anos mais tarde com títulos como a revista Creepy e Eerie, mas sem o mesmo volume de vendas do período anterior.

A Edição

O acabamento e cuidado gráfico com a coleção continua primoroso. Uma capa dura, com papel fosco de boa gramatura nas páginas do miolo, um trabalho excelente de restauração da arte e recriação das fontes originais.

A arte ainda é em preto e branco, o que gerou certa polêmica no primeiro volume, mas acho que ela permite apreciar ainda melhor o traço dos grandes artistas que estão presentes na edição.

Em “O que havia na caixa de Sam Dora? E outras histórias”, temos a oportunidade de conferir trabalhos como o de Wally Wood adaptando nada menos do que O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, na história “Dr. Jekyll e Mr. Hide”. Também estão presentes gigantes dos quadrinhos como Jack Kirby em “Homenzinho Nojento!”, Basil Wolverton com um traço espetacular em “A fera do pântano” (cuja cena de abertura ilustra as guardas da HQ), além de Alex Toth, Abe Simon, Steve Ditko… Resumindo: a arte é um ponto forte em praticamente todas as histórias.

Assim como no primeiro volume, o roteiro oscila de um conto para o outro mas, mesmo assim, é incrível acompanhar a criatividade narrativa e a busca por surpreender o leitor dos artistas e roteiristas nos seus quadrinhos.

Um ótimo texto da editora da Mino, Janaína de Luna, abre a edição contando a sua relação recente com os quadrinhos do período que compõem o volume e traçando um paralelo do período em que o Comics Code Authority entrou em vigor e o momento atual do Brasil.

Para contextualizar ainda melhor o leitor sobre o conteúdo e o período em que as histórias foram publicadas, o jornalista Gonçalo Junior escreveu para a edição o excelente texto “Quando só os mocinhos não liam gibis”.

Um ponto negativo ainda é a revisão. No índice algumas vírgulas não foram colocadas e nos textos de introdução passaram alguns erros. Nos balões a leitura corre bem e o trabalho de letreiramento e adaptação continua muito bom.

A coleção incendiária é uma das propostas editoriais mais bacanas dos últimos anos e torço para que continue firme e forte, apresentando materiais de um período pouco publicado no Brasil atualmente.

O que havia na caixa de Sam Dora? E outras histórias
Editora Mino
Autores: Steve Ditko, Joe Kubert, Jack Kirby, Wally Wood, entre outros.
Capa dura
Preto e branco
Miolo papel offset 90g
208 páginas
18,5 x 28 cm
R$79,90

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2018/06/O-que-havia-na-caixa-de-Sam-Dora-editora-mino-7.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2018/06/O-que-havia-na-caixa-de-Sam-Dora-editora-mino-7-150x150.jpgPedro FariaNas bancas / Nas livrariasquadrinhosresenhasAlex Toth,Basil Wolverton,Coleção Incendiária,Comics Code Authority,Jack Kirby,Joe Kubert,Joe Shuster,Mino,O que havia na caixa de Sam Dora?,Steve Ditko,Wally WoodFacebook Twitter Instagram Youtube Monstros terríveis, bruxas macabras e espíritos do mal se encontram no segundo volume da Coleção Incendiária, da Editora Mino. Dando continuidade a sua coleção de clássicos dos quadrinhos norte-americanos da Era de Ouro, a editora Mino lançou em outubro de 2017...O Impulso HQ é um site e canal no YouTube dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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