2017 foi um ano cheio de excelentes lançamentos e relançamentos para os fãs de quadrinhos. Falando só em mangás é impossível não destacar títulos como Akira, Pluto, Fragmentos do Horror e séries como Lobo Solitário, Dr. Slump e muitas outras. Entre todos esses grandes lançamentos e republicações, “O Homem que Passeia”, de Jiro Taniguchi, se destaca.

A obra de Taniguchi foi lançada aqui no Brasil pela editora Devir no ano passado e iniciou a coleção Tsuru, voltada para a publicação de mangás.

O mangaká Jiro Taniguchi não é tão conhecido no País, já que poucas de suas obras foram publicadas por aqui, mas é um dos grandes mangakás japoneses, vencedor de inúmeros prêmios no Japão, incluindo o Prêmio Cultural Osamu Tezuka, e ao redor do mundo.

Com o tempo, Taniguchi começou a ser publicado na Europa e foi muito influenciado pelos quadrinhos europeus, se distanciando do padrão de mangás japoneses. Ele teve muito sucesso no mercado franco-belga ganhando vários prêmios, incluindo o tradicional Festival de Angoulême.

Ele chegou a trabalhar com outro gigante dos quadrinhos, Moebius com quem publicou a HQ “Ícaro”. Sua importância na França foi tão grande que ele foi condecorado com a insígnia de Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras.

Entre os fãs do mangaká está Guilhermo del Toro, recém vencedor do Oscar com “A Forma da Água”, que considerava Taniguchi um poeta dos mangás, além de um “sereno e profundo observador do mundo”.

Jiro Taniguchi faleceu em fevereiro do ano passado, aos 69 anos.

Mas afinal, do que fala o mangá?

Se você está acostumado com mangás e outros quadrinhos de ação, é preciso contextualizar “O Homem que Passeia”. Na obra, acompanhamos um homem que faz exatamente o que o título sugere: passeia. A princípio pode parecer algo extremamente simples e até banal, o que não é nenhuma mentira, mas a beleza da HQ está justamente nessa simplicidade. Caminhando com o personagem principal começamos a observar o ambiente e aprender a valorizar a beleza do cotidiano.

Ao longo de 18 capítulos que compõem o “ciclo” do homem que passeia vamos acompanhar um homem comum, que vive em uma casa simples com sua esposa e seu cachorro.

Pouca coisa, além disso, é revelada sobre sua vida ao longo da HQ, mas entre as suas caminhadas podemos ter algumas pistas, como no primeiro capítulo, em que ele e a esposa parecem ter acabado de se mudar para uma nova casa. Em outro vemos que ele está lendo um livro sobre arquitetura, o que pode indicar sua profissão. Tudo o que sabemos sobre ele é revelado dessa forma, com pequenos detalhes.

A cada novo capítulo, o homem sai sem um objetivo claro, pois como o próprio autor revela em uma entrevista no fim da publicação, a caminhada é uma das ações cotidianas mais naturais da humanidade.

Ao longo dos passeios temos contato com uma nova forma de observar o mundo a nossa volta. O protagonista se coloca em situações comuns para qualquer pessoa, seja no Japão, no Brasil ou na França e, em alguns momentos, se permite fazer pequenas “loucuras”, como invadir uma piscina pública em uma noite quente para nadar sozinho.

Ele passa por lojas, observa as pessoas e os produtos, passa por bosques e aprende a observar a natureza, ajuda as crianças a recuperar seu avião de papel no alto de uma árvore e nem mesmo a chuva e a forma como ela afeta seu bairro o impedem de sair.

Além de ver o mundo pelos olhos do protagonista, Taniguchi nos mostra a beleza e os pequenos prazeres cotidianos de diferentes pontos de vista: um homem que ensina a observar os pássaros do bosque perto de sua casa, um senhor que pesca em um rio, não com o objetivo final de pegar um peixe, mas pelo simples prazer do ato de pescar, uma mulher que vem se deitar sobre as folhas que caem de uma árvore, como fazia na infância. Cada um tem os seus pequenos momentos de alegria simples.

A França foi um país que inspirou Taniguchi e que também abraçou suas obras. O conceito desse passeio como forma de observar o mundo ao seu redor pode ser visto como uma forma de Flânerie, termo francês associado ao ato de observar e caminhar, muito utilizado na literatura do século XIX.

Em “O Homem que Passeia”, mais do que uma história em quadrinhos, acompanhamos uma narrativa que muitas vezes assume tons de poesia. Uma concha encontrada no quintal é o pretexto para uma viagem ao litoral, um passeio pelo mercado termina com um presente simples que leva a esposa de volta à infância, atos pequenos ganham uma beleza e significado que enchem os olhos do leitor.

Por ser um quadrinho que explora o ambiente por onde seu protagonista está passando, a narrativa gráfica de Taniguchi alterna planos abertos que mostram a cidade com closes e enquadramentos bem detalhados daquilo que o personagem está vendo, conseguimos entrar no “mundinho” e fazer o passeio junto com o homem.

A arte da HQ parece uma mistura do que há de melhor no estilo japonês e europeu. O autor aplica a linha clara em técnicas muito utilizadas nos mangás resultando em uma arte belíssima.

A edição da Devir é graficamente muito bonita. A capa cartonada da edição vem com uma sobrecapa e o conteúdo é completo com alguns extras, como outros três contos que compartilham a mesma temática dos passeios pela cidade, que Taniguchi produziu com roteiros de Masayuki Kusumi, seu parceiro também em “Gourmet” publicado no Brasil pela Conrad em 2009. Também estão na publicação uma galeria com ilustrações, uma entrevista com Taniguchi feita por Jean-Philippe Toussaint e uma biografia do autor.

O ponto negativo fica na nota que abre a publicação, escrita em 2011 por Hermano Vianna para o jornal O Globo. O texto começa com uma introdução sobre Taniguchi e fala sobre “O Homem que Passeia”, que em Portugal foi publicada como “O Homem que Caminha”. Depois o autor cita o quadrinho “Le promeneur”, que pode ser traduzida como “O passeador” ou também como “O Homem que Passeia”. A partir daí o texto passa a falar desta segunda HQ, que tem nome e temática semelhante, mas não é a que vamos ler. Uma confusão que você pode entender melhor no texto do pessoal do site Biblioteca Brasileira de Mangás. Mas não é algo que tire o brilho da obra.

Tire um tempo para conferir “O Homem que Passeia”. Leia com a calma e a serenidade que o protagonista dedica às suas caminhadas, com certeza você vai mudar o seu olhar sobre as idas e vindas do dia a dia.

O Homem que Passeia
Editora Devir
Autor: Jiro Taniguchi
Tradução: Arnaldo Oka
Acabamento Brochura
Preto e Branco
244 páginas
17 x 24 cm
R$ 55,00

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2018/03/O-Homem-que-Passeia-devir-4.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2018/03/O-Homem-que-Passeia-devir-4-150x150.jpgPedro FariaNas bancas / Nas livrariasquadrinhosresenhasArnaldo Oka,Devir,Jiro Taniguchi,O Homem que passeiaFacebook Twitter Instagram Youtube 2017 foi um ano cheio de excelentes lançamentos e relançamentos para os fãs de quadrinhos. Falando só em mangás é impossível não destacar títulos como Akira, Pluto, Fragmentos do Horror e séries como Lobo Solitário, Dr. Slump e muitas outras. Entre todos esses grandes lançamentos...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
Compartilhe