“Os monstros que assombram e perseguem a humanidade pelo traço de alguns dos maiores nomes das histórias em quadrinhos.”

Em 2012 a editora Devir trouxe para o mercado brasileiro o primeiro volume de Creepy – Contos Clássicos de Terror, que foi publicado originalmente pela Dark Horse em 2009 e vencedor do prêmio Eisner Awards. A editora continuou a coleção em 2014 publicando o segundo volume e o terceiro chegou ao mercado em 2015.

No ano passado a Devir relançou a primeira edição e em 2018, retomou a publicação deste material clássico com a reimpressão do volume dois e o aguardado lançamento do volume quatro. Por ser um material clássico, é importante uma contextualização para que o leitor que não conhece o título entenda a sua importância.

EC Comics e o Comics Code Authority

Durante a década de 60 os quadrinhos norte-americanos viveram a fase conhecida como a Era de Prata. A Marvel Comics veio com força total com o Quarteto Fantástico, Homem-Aranha, Capitão América e todos os seus outros grandes personagens, enquanto a DC Comics retomava o sucesso dos seus super-heróis dentro e fora dos quadrinhos.

Mas antes disso, nas décadas de 40 e 50, os super-heróis dividiam a atenção dos leitores com uma concorrência muito forte, os quadrinhos de terror, fantasia e ficção científica, que tinham um apelo muito forte e ainda contavam com o sucesso dos filmes de monstros nos cinemas da época.

A EC Comics, editora conhecida por títulos que se tornaram clássicos dos quadrinhos como a Tales from the Crypt, The Vault of Horror, Weird Science, Weird Fantasy, MAD e muitas outras, era uma gigante do mercado na época e contava com grandes artistas. Alguns dos maiores nomes dos quadrinhos participaram das suas publicações, como Harvey Kurtzman, Jack Davis, Frank Frazetta, Joe Orlando e Wally Wood, que tinham liberdade para contar suas histórias.

O declínio da EC veio na metade da década de 1950, quando os quadrinhos começaram a ser vistos como uma forma de influenciar negativamente a juventude e contribuir para o aumento da delinquência juvenil. Na época, o psiquiatra Fredric Wertham publicou seu livro Seduction of the Innocent, que trouxe ainda mais força para a “luta anti-quadrinhos” e levou a criação do famoso Comics Code Authority.

O código minou grande parte da produção da EC, que até chegou a publicar títulos adaptados ao que era aprovado na época, mas acabou cancelando a maioria deles e migrou a MAD para o formato Magazine, que não precisava do selo de aprovação. Com isso a publicação de títulos de terror e ficção sofreram uma queda muito grande.

Warren Publishing e a retomada do Terror

No final da década de 1950, início de 1960, James Warren fundou a Warren Publishing e começou uma retomada dos quadrinhos de terror. Ele manteve as características das publicações EC e também adaptou suas edições para o formato magazine. Entre os títulos da Warren, a Creepy e a Eerie se destacaram e alcançaram grande popularidade.

Warren trouxe alguns gigantes dos quadrinhos que haviam trabalhado com a EC Comics e ainda contou com a colaboração de muitos outros grandes artistas como Steve Ditko, Neal Adams, Rocco Mastroserio e Gene Colan.

Uma das características marcantes, tanto da Creepy quanto da sua “irmã” Eerie, é a presença de um anfitrião que fala com o leitor e faz a ponte entre os contos da edição, o Titio Creepy e o Primo Eerie.

No Brasil, os contos das duas revistas da Warren eram publicados na revista Kripta, da falecia editora RGE. Ao todo foram 60 edições da publicação, que durou de 1976 a 1981 e ainda contou com edições especiais e compilações ao longo desse período.

Hoje, os conteúdos das revistas Creepy e Eerie são publicados em coleções separadas. A Creepy pela Devir e a Eerie pela Mythos, na coleção Cripta – Os Clássicos de Horror da revista Eerie.

Creepy Volume 4

O quarto volume da coleção continua seguindo a ordem de publicação das revistas originais, encadernando as edições 16 a 20. Cada edição tem entre 5 e 8 contos com artistas e roteiristas diferentes, além dos demais conteúdos que saíram nas edições originalmente.

É claro que as histórias são o foco da publicação, mas confesso que parei para ler cada uma das propagandas que aparecem entre um conto e outro. É muito divertido conhecer todo tipo de produto que era anunciado na revista, desde camisetas e máscaras de monstros, passando por livros clássicos de terror, discos com contos narrados por grandes personalidades, até miniaturas de canhões e fazendas de formigas!

Outro conteúdo que mostra a popularidade da revista é a sessão dedicada ao “Fã Clube da Creepy”. Nela o leitor ficava sabendo das novidades, conhecia um pouco mais sobre os artistas que participavam da publicação e ainda podiam enviar seus contos e desenhos para ser publicados nas próximas edições. Na edição 17 do material original foi divulgada nesta seção a saída do famoso editor Archie Goodwin, com uma despedida que mostra o quanto ele era querido na Warren.

A edição da Devir começa com uma entrevista com o próprio Archie Goodwin realizada em 1982 por Steve Ringgenberg. Nela podemos conhecer mais sobre a trajetória de Goodwin e como foi seu trabalho no período em que esteve na Warren. O editor revela como chegou até a Creepy e como era seu método de trabalho.

Contos Clássicos de Terror

Os contos deste volume seguem a linha das edições passadas, alguns possuem roteiros muito bons e finais surpreendentes, enquanto outros pendem para uma narrativa mais simples e que utiliza alguns clichês, mas mesmo assim, todos são muito divertidos.

A arte varia bastante entre uma história e outra, mas sempre em um nível acima da média. Como já dito anteriormente, os artistas por trás das histórias arrepiantes e monstros terríveis são alguns dos maiores que passaram pelas histórias em quadrinhos.

Cada volume começa com a página de “Conhecimentos Torpes”, uma sessão que conta em quadrinhos curiosidades sobre monstros e assombrações. O artista da edição 16, que abre o encadernado, é ninguém menos que Gil Kane. Já na edição 17 é Frank Frazetta que ilustra a sessão dedicada a figura dos lobisomens.

A arte é um dos pontos mais fortes do encadernado, que além de exibir o belo trabalho de desenhistas renomados, ainda traz a luz grandes artistas que não são tão reconhecidos atualmente. Conhecer o trabalho de nomes como Rocco Mastroserio, que ilustrou duas das minhas histórias favoritas neste volume, e tantos outros artistas faz a leitura ainda mais prazerosa.

Cada conto tem entre seis e oito páginas, o que torna o encadernado de 248 páginas uma leitura ágil, com histórias dinâmicas e um domínio narrativo muito bom.

Entre minhas histórias preferidas da edição estão: “A Tradição de Frankenstein”, que faz uma ponte entre o clássico literário com “Jack, O Estripador”. O conto “As Areias que Mudam” é outro que gosto muito e conta com a arte de Steve Ditko (sim ele mesmo, um dos criadores do Homem-Aranha). “A Mão da Múmia” presta uma bela homenagem ao filme clássico da Universal, com Boris Karloff interpretando a múmia. “Castelo Mal-Assombrado!”, escrito por Archie Goodwin, tem um dos finais mais surpreendentes da edição.

Na época, o lema da editora era: “Não somos grandes, somos bons”, um fato que você confirma ao longo do volume.

A edição

Os três primeiros volumes de Creepy foram disponibilizados em duas versões: uma em capa dura e outra em brochura, mas o volume quatro terá apenas a versão em brochura. Isso incomodou alguns dos colecionadores que já estavam acompanhando a série no formato mais luxuoso.

Em termos gráficos a edição segue o padrão da coleção em brochura, com orelhas, papel fosco de boa gramatura e uma galeria com as capas originais coloridas.

A revisão poderia ter sido um pouco melhor. Nos contos não é nada que prejudique ou atrapalhe a leitura, mas logo no texto da orelha existe um erro que deveria ter sido visto. O texto em questão é uma introdução do Titio Creepy, que dá as boas vindas ao leitor para o tomo que reúne os números “6 a 10” da Creepy, e não para os números 16 a 20 que compõem a edição.

Outra informação que fica confusa é na entrevista com Archie Goodwin, realizada em 1982. Em determinado momento da conversa, são referenciadas edições que teriam sido publicadas em 1994, o que gera dúvida sobre qual das datas está correta. São alguns pontos que podem ser corrigidos para uma reimpressão e que não tiram a beleza do material.

Essa é uma coleção que continua valendo o investimento pelo lado histórico e, principalmente, pela qualidade dos criadores envolvidos.

Creepy – Contos Clássicos do Terror Vol. 4
Editora Devir
Autores: Archie Goodwin, Neal Adams, Gene Colan, Alex Toth, Wallace Wood e outros
Capa Brochura
Miolo Preto e Branco + Galeria de Capas Coloridas
248 páginas
20,5 x 27,5 cm
R$ 74,00

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