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Visto no Universo HQ – por Marcus Ramone

Ivan Saidenberg, um dos mais destacados nomes dos quadrinhos Disney do Brasil, faleceu ontem, perto de completar 69 anos, vítima de complicações causadas por diabetes e insuficiência arterial.

Prolífico escritor, cartunista, chargista e roteirista de quadrinhos desde 1960, Saidenberg iniciou a carreira na extinta Editora Outubro, na qual trabalhou até 1963 criando HQs de terror.

Ainda produzindo quadrinhos de horror, além dos gêneros faroeste, guerra e espionagem, ele passou pelas editoras Taika e Royal, chegando à Abril em 1971.

Saidenberg trabalhou na Abril até 1984, na qual viveu o período áureo de sua carreira, criando e desenvolvendo – sozinho ou em equipe – personagens Disney que se tornaram ícones dos fãs da turma de Patópolis no Brasil e conhecidos em outros países. Morcego Vermelho, Zorrinho, Vovô Metralha, Pena Kid, Pedrão, Afonsinho, Morcego Verde, Zé Galo, Biquinho e muitos outros estão nessa lista.

Depois de um tempo afastado, retornou à Abril em 1988, encerrando de vez suas atividades na editora em 1993. Nesse período, estava morando em Israel, trabalhando na área de segurança – voltou ao Brasil quase dez anos depois de se aposentar.

Foi nessa época que firmou com Renato Canini uma das mais celebradas parcerias dos quadrinhos brasileiros. As aventuras que a dupla criou para o malandro Zé Carioca estão no rol das melhores já produzidas pelo hoje desmantelado Estúdio Disney da Abril e resultaram na criação da Vila Xurupita, Anacozeca – a impagável Associação Nacional dos Cobradores do papagaio caloteiro, cuja coautoria é do roteirista Paulo Paiva – e o Vila Xurupita Futebol Clube, como também os primos Zé Pampeiro, Zé Queijinho e Zé Jandaia.

O talento de Saidenberg para fazer rir desfilou além das HQs Disney. Como chargista, ele colaborou no jornal Pasquim de 1977 a 1982 e participou de vários salões de humor, recebendo o Prêmio Júri Popular do Salão de Humor de Piracicaba, em 1979.

Receber premiações foi uma constante na vida de Saidenberg. Em 2000, ganhou o último de sua coleção (o Ângelo Agostini na categoria de mestre dos quadrinhos nacionais), que inclui ainda o Prêmio Abril em 1979, 1981 e 1983.

O legado artístico de Mestre Said – como era chamado por muitos que com ele trabalharam – consolará os fãs. Mas as boas lembranças que deixou para sua família também são confortadoras.

Há quatro anos, nos primeiros de muitos contatos entre o Universo HQ e Ivan Saidenberg para a publicação de uma matéria especial sobre o artista – que não chegou a sair -, sua filha Lucila (que informou ao UHQ sobre o falecimento) prestou um depoimento que permaneceu inédito durante todo esse tempo e encontra agora a oportunidade de se tornar público para expressar um pouco do que foi o artista, como profissional e pai dedicado.

“Minha infância como filha de um grande argumentista foi um barato que me traz boas lembranças até hoje. Acordávamos todos cedinho. Meu irmão e eu íamos para a escola e meus pais para os afazeres diários. Minha mãe dividia seu dia entre criação (de quadrinhos e outros textos) e trabalhos domésticos e meu pai tinha o ‘luxo’ de poder ser quadrinhista em tempo integral.

Na mesa do café, contávamos nossos sonhos uns para os outros, coisa que às vezes dava ideias para histórias muito engraçadas. Enquanto meu irmão e eu estávamos na escola (e a casa ficava quieta), meu pai escrevia. A mesa do almoço era também o ‘conselho editorial’ da família: ele lia para nós a história do dia e todos a comentavam, sugerindo melhorias e piadas.

Uma ideia que eu lembro que meu irmão e eu tivemos foi o ‘Biquinho Vermelho’, que seria o Biquinho tentando imitar seu herói, o Morcego, com uma fantasia improvisada em situações engraçadas. Não me lembro se isso foi pra frente… Nós chegamos até a fazer a fantasia do personagem e saímos pulando pela casa para o meu pai ver.

Muitas vezes, uma ideia para uma história acontecia assim, de uma brincadeira das crianças ou de uma piada, um sonho, uma associação de ideias de qualquer um de nós quatro, que meu pai então desenvolvia.

Eu tenho certeza de que esse processo criativo acontecia e acontece em todas as outras famílias de argumentistas.”

O corpo de Ivan Simões Saidenberg será velado nesta manhã no Cemitério Municipal da Vila Júlia, no Guarujá, São Paulo, a partir de 8h30min. O enterro acontecerá no local, às 16 horas.

Visto no Universo HQ – por Marcus Ramone

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