Texto originalmente publicado no site Quadrinhos na Sarjeta, por Alexandre Linck.

Em toda Arte a imagem do gênio é uma benção e uma assombração. Uma benção porque eleva a arte a lugares que jamais se havia percebido, uma assombração porque estabelece um paradigma que os artistas (e o público) vindouros terão muita dificuldade de se livrar – o que dirá superar. Certa vez ouvi em algum lugar que Wagner se dizia musicalmente assombrado por Beethoven. Faz sentido.

A ideia de gênio até onde sei surge no romantismo. Hoje sabemos que o genial se trata de questões para além da visão romântica do espírito elevado. Entendemos que questões econômicas, políticas e principalmente culturais fabricam os gênios – nós, leitores, que elegemos alguém um gênio e não outro. Mas mesmo abrindo mão da concepção idealista de gênio, ainda sobra um gesto. O gesto de um autor com seu público.

Escrevo esse texto porque no último sábado, 10 de março, Jean “Moebius” Giraud faleceu em Paris, e sua benção e assombração mais do que nunca se tornam presentes. Com muita dificuldade será feito algo conjugando ficção científica e fantasia sem retomar Moebius.

O mesmo se aplica à aventura de Hergé, a narrativa de Will Eisner, a beleza de Alex Raymond ou Burne Hogarth, a ação de Jack Kirby, a composição de Guido Crepax, a margem de Robert Crumb ou Harvey Pekar, o mangá de Osamu Tesuka, a infância de Charles Schulz ou Quino, a densidade de Héctor Oesterheld ou Alan Moore – e tantos mais…

Poucos das gerações subsequentes conseguiram encontrar estratégias para além dos caminhos já traçados na arte de contar histórias em quadrinhos. Porém a benção e a assombração podem ser revertidas. Assim como pode ser assombrosa a perda de artistas que se encontravam ainda cheios de vida quadrinizada na hora de sua morte, também pode ser abençoada a morte dos velhos mestres para que nós, que aqui estamos, sigamos livres da tradição que nos legaram.

Não negando – de forma alguma! Mas rompendo, encontrando um espaço de ruptura (como um quadrinho que segue após outro, dividido pela sarjeta), onde outras histórias em quadrinhos nunca cessem em sua potência. Nesse gesto, de valorizar a força infinita da arte, algo que os velhos mestres também acreditavam na sua prática, nós os prestigiamos por tabela.

Mais do que o culto ao gênio, que fique o culto à saudade. Que pena, Moebius morreu sábado!

Renato LebeauquadrinhosMoebiusTexto originalmente publicado no site Quadrinhos na Sarjeta, por Alexandre Linck. Em toda Arte a imagem do gênio é uma benção e uma assombração. Uma benção porque eleva a arte a lugares que jamais se havia percebido, uma assombração porque estabelece um paradigma que os artistas (e o público) vindouros...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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