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Visto no Jornal do Brasil – por Pedro de Luna

Quem não conhece o Mauricio? Pioneiro, visionário, foi um dos primeiros quadrinistas do Brasil a conquistar espaços em jornais, editoras e bancas de jornal. De tiras e gibis, ele transformou a Turma da Mônica numa verdadeira indústria, com mais de 3.000 produtos licenciados.

Ao completar 50 anos de carreira, ele continua sonhando alto. Este ano, o artista lançará gibis em inglês e espanhol, novos desenhos animados e lançará os livros na China. E mais: acredita na possibilidade de transformar o personagem Pelézinho, criado em 1976, em símbolo da Copa do Mundo de 2014.

Confira a entrevista que ele concedeu ao JB por telefone direto de seu escritório em São Paulo.
Quando o senhor começou, me parece que tudo era possível com trabalho duro. Não era tão somente na base de indicações, parentescos e conchavos como hoje. Você concorda que hoje é tudo mais difícil?
Absolutamente não. Nos meus velhos tempos, também precisávamos de indicações, colocar gravata, engraxar o sapato, “camelar” para achar um espaço. Não havia cinema, TV e, principalmente, a internet. Hoje é diferente, inclusive por que a gente abriu este caminho. Não havia histórico de material brasileiro. Hoje o artista depende da sua capacidade criativa e oportunidade, como sempre.

Grande parte do seu sucesso veio da publicação de tiras em jornais e, posteriormente, dos gibis. O que se vê hoje é um espaço menor nos jornais diários – vide o próprio JB, que desde o final de 2008 não tem mais a seção de tiras – e a migração do quadrinho para a livraria, em formato de livro. Se o senhor estivesse começando HOJE a sua carreira, como faria?
Entraria na internet. O negócio é comunicar. Não dá pra fazer em papel, usa fumaça de avião, conta suas histórias em hospitais, nas praças públicas. Não existe limite para contar história e o ser humano adora histórias, onde ele se identifica com o personagem. E as plataformas, hoje, são muito mais variadas. Eu sou como o besouro. Ele voa sem saber que não pode voar.

Quando o senhor criou o Pelézinho, talvez estivesse antecipando uma tendência de transformar celebridades do esporte e da TV em personagens de HQ. Logo depois vieram Os Trapalhões, Xuxa, Senninha, Ronaldinho Gaúcho, Jade Barbosa, etc. Se por um lado, comercialmente, é um bom negócio, por outro a HQ estaria perdendo o romantismo, a fantasia, em prol de um oportunismo de mídia?
História em quadrinhos é uma coisa, a vida real da pessoa é outra. Você tem que transformar o personagem em quadrinhos. Eu já combinei com o Ronaldinho Gaúcho que, mesmo quando ele pendurar as chuteiras, a revistinha continuará a existir.

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O Pelézinho deve voltar e eu queria aproveitar essa matéria para lançar a idéia dele como símbolo da Copa do Mundo de 2014. Seria o primeiro símbolo. De qual personagem de Copa você lembra?
Ah, do Laranjito, na Copa da Espanha, em 1982…
Mas quando acaba o evento, ninguém mais lembra dele. O Pelezinho é vivo, ele vai continuar representando o Brasil no mundo todo, mesmo não entrando em campo. Claro que precisamos da aprovação da CBF, por exemplo. Mas já tem muita gente interessada.

E recentemente você fez o personagem do Ronaldo “Fenômeno” e entregou o desenho pra ele (veja o post em março). Vai sair gibi também?
Quando o Ronaldo jogava no Real Madrid, a gente teve a idéia de também lançar suas histórias em gibi, mas o contrato com o clube espanhol impedia a realização do projeto. Se ele ou uma empresa se interessarem em fazer alguma coisa, nos interessa. Mas ainda não tenho um projeto disso.

É verdade que os seus quadrinhos são vendidos em quase 50 países, no entanto quase 70% do faturamento da empresa provêm do licenciamento de produtos?
É isso mesmo. Quando a HQ se paga é muito bom, mas sem o licenciamento não seria possível o crescimento. É a mola mestra, principalmente em termos de independência criativa.

Num momento em que se discute direitos autorais e propriedade intelectual pelo MinC, gostaria de saber o que o senhor pensa sobre formas de flexibilização de direitos como o Creative Commons. Para os iniciantes é uma boa opção?

Não concordo, mesmo para novos autores. O pessoal que está sugerindo isso não está levando em conta que o artista se sente pai da criança. E largar o filho no mundo sem cuidar, sem orientar, eu não concordo. Devemos discutir mais o assunto. Pode haver criações coletivas, uma cooperativa. Aí sim.

O senhor vem de uma família espírita, que fala de valores como desapego material, vaidade, caridade. Como é ser uma pessoa tão famosa, bem sucedida e ao mesmo tempo se manter humilde?
Minha família era ecumênica (risos). Os psicólogos dizem que as pessoas se formam até os 5, 6 anos. Pra minha sorte, os meus pais me deram tudo de melhor até os 7, na fase da inocência. Morei em rua de terra, brincava na rua, em cada casa morava uma família de raça diferente, não havia preconceitos.

Minha família era cheia de artistas que pintavam, tocavam violão, faziam poesia, etc. Só passei por escolas públicas, as melhores. Eu sou feliz pela infância que eu tive. Meus filhos me perguntam se eu não preciso fazer terapia e eu pergunto por quê. Eu sou uma pessoa feliz.

O senhor gosta de música?
Gosto de som, de tudo. De arte seqüencial e de som seqüencial (risos).

Já pensou em criar uma editora ou lançar novos autores?
Eu estou convidando desenhistas de fora para ilustrar os meus contos e lançar em livros. Tem até dois aí do Rio, a Thalita Dol e o Anderson Pimentel Luiz. O lançamento será na Bienal do Livro. Também estou convidando outros desenhistas, tem um da Alemanha.

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Quando a Mauricio de Sousa Produções participa de projetos de governos, de campanhas de prevenções de acidentes, ou mesmo criando personagens deficientes físicos e autistas, como o senhor consegue equilibrar a oportunidade comercial do negócio com o desejo pessoal de fazer algo que vai ajudar as pessoas?
Pense num trem. A locomotiva é o merchandising. É ela quem puxa os outros vagões, que às vezes não têm ouro, mas estão carregados de boas intenções.

Ainda sobre relações com governo, o senhor foi da Associação de Desenhistas e defendeu a criação de mecanismos que garantissem uma cota de mercado para quadrinistas brasileiros, frente ao quadrinho estrangeiro. Como o senhor pensaria neste “apoio oficial” nos dias de hoje?
Olha, tem espaço pra todo mundo. Com a globalização, eu estou cada vez mais descrente de leis pontuais de incentivo. Sou mais da lei da oferta e da procura. Uma grande lei para você proteger uma classe pode ser um tiro pela culatra.

Com tantos compromissos, sobra tempo para desenhar?
Infelizmente não. Eu avalio todos os roteiros pela internet ou pelo meu Blackberry, mas parei um pouquinho de desenhar. Pretendo voltar a desenhar tiras de jornal. É uma coisa que eu gosto muito.

Com o advento do PC e das novas tecnologias, os traços estão ficando ainda mais vetoriais, menos pessoas desenham e pintam à mão. O senhor acha que o desenho se torna impessoal?
Sim. Impessoal e feio também. Mesmo no computador, não tem como a pessoa tenta imitar o velho traço fino, forte, o fio dentado… Eu vejo o computador como uma prolongação do desenho à mão.

Dizem que uma das tendências é o quadrinho no celular e cada vez menos em papel. O senhor concorda?
Não. Um não vai matar o outro.

Quando o senhor lançou a Turma da Mônica Jovem perguntei sobre as gírias paulistas nos diálogos, se o sudeste não estaria colonizando o resto do país, em detrimento das expressões locais (veja post em novembro). O senhor me respondeu que ainda não tinha pensado nisso e estavam testando o produto. O que pensa a respeito agora?
Eu não acho que estamos colonizando ninguém. A TV Globo, a Folha de São Paulo talvez colonizem com a moda paulista o resto do país. Eu tenho que ver as expressões mais utilizadas pelos jovens. Estamos usando muito o Orkut para fazer estas pesquisas, fazemos reuniões com os “orkuteiros”. O que nós escrevemos hoje não será como eles escreverão daqui a 1 ano. Então estamos constantemente acompanhando.

É verdade que, somados os três primeiros números, os mangás da Mônica já passaram de 1 milhão de exemplares?

Sim. Hoje é a revista mais vendida do mundo, e estamos caminhando para 500.000 exemplares por mês.

Sobre o projeto dos gibis em inglês e espanhol, quando chegarão às bancas brasileiras?
Ainda este ano, com a turminha tradicional, não a jovem. É para a garotada daqui estudar as línguas estrangeiras na escola. Mas a editora pretende trabalhar as revistas em toda a América Latina.

Minha tese de pós-graduação foi sobre As Tendências do Mercado de HQs no Brasil. Na opinião do senhor, quais são as tendências?
Olha, eu não sou futurista (risos), mas tenho certeza que o fenômeno da Turma da Mônica Jovem vai marcar, vai entrar pra história. Quem não lia quadrinhos, vai voltar a ler. O que vai valer hoje ou amanhã é a criatividade. O nosso estilo é o mangá brasileiro, é um grafismo tipicamente nosso. O futuro pode ser HQ em 3D ou levitação, mas o conteúdo continua sendo o mais importante.

Quais os outros planos para 2009?

Este ano teremos os desenhos animados do Astronauta e do Penadinho em TV aberta, nos moldes da Pixar. Também estamos dentro de um grande projeto educacional na China. Os primeiros contratos são para o lançamento de livros, depois gibis.

Por fim, que tipo de profissional o senhor contrata?
Aquele que desenha Mônica.

Visto no Jornal do Brasil – por Pedro de Luna

Renato LebeauquadrinhosMauricio de Sousa,Pelezinho,turma da MônicaVisto no Jornal do Brasil - por Pedro de Luna Quem não conhece o Mauricio? Pioneiro, visionário, foi um dos primeiros quadrinistas do Brasil a conquistar espaços em jornais, editoras e bancas de jornal. De tiras e gibis, ele transformou a Turma da Mônica numa verdadeira indústria, com mais de...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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