mf_abertura

Gonçalo Júnior, Anita Costa Prado e Henrique Magalhães

Quem enfrentou o frio de São Paulo no último sábado, dia 13 de junho, pode presenciar um fato raro: O lançamento de diversas edições da Marca de Fantasia: Vida Traçada: um perfil de Flavio Colin, do jornalista Gonçalo Junior; Macambira e sua Gente, de Henrique Magalhães, que também lançava o zine Top! Top! nº25; a segunda edição do álbum Katita – Tiras sem Preconceito, de Anita Costa Prado e Ronaldo Mendes; Artlectos e Pós-Humanos nº3, de Edgar Franco e Os Marginais, de Elmano Silva.

Raro, porque a editora é independente, sediada em João Pessoa/PB e suas obras são adquiridas somente via correios.

Infelizmente, nem todos os autores puderam estar presentes, mas o Impulso HQ conversou com Anita, Henrique Magalhães (editor da Marca de Fantasia) e Gonçalo Júnior, numa entrevista que ocorreu quase que simultaneamente com os três:

ANITA COSTA PRADO

Impulso HQ: Você poderia comentar um pouco do seu trabalho?
Anita Costa Prado:
Sou roteirista de quadrinhos; criei alguns personagens na linha social, política e religiosa, mas sou mais conhecida como a criadora da personagem Katita, lésbica assumida e que trata de assuntos polêmicos de forma bem humorada.

IHQ: E quando você criou a personagem?
A.C.P.:
Em Abril de 1995, mas eu só consegui editá-la em livro pela Marca de Fantasia em 2006. Agora esse material é reeditado com algumas alterações: o texto da contracapa está diferente e, além das 82 tiras iniciais, foram acrescentadas 24 tiras.

IHQ: Antes a Katita saia em fanzines?
A.C.P.:
Fanzines e jornais de circulação restrita para a comunidade LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e trangêneros). Por editora, foi só em 2006.

IHQ: E a repercussão do trabalho?
A.C.P.:
Muito grande e muita polêmica. Mas, além de um público variado, conseguimos dois prêmios de “Melhor roteirista” e “Melhor lançamento de 2006” no Angelo Agostini. No ano seguinte fui indicada para o HQMIX na categoria “Roteirista revelação”.

IHQ: Fale um pouco da sua produção além da Katita.
A.C.P.:
Eu venho da literatura. Entrei em contato com alguns desenhistas para que eles ilustrassem meus contos e poesias. Sempre achei muito interessante as poesias e os textos ilustrados ganharem vida, daí pros roteiros de HQ foi um pulo. Então comecei a me aproximar dos desenhistas e fazer roteiros, mas inicialmente não tinha intenção de fazer HQ.

IHQ: Você vê muita diferença no público que lê seus contos e o que lê suas HQ?
A.C.P.:
No público que lê, nem tanto. Eu noto diferença nos profissionais: os quadrinistas são mais tímidos, fechados, e o povo da literatura, principalmente da poesia, é mais aberto, expansivo, mais solto, o pessoal de quadrinhos é mais contido.

IHQ: O Ronaldo foi o primeiro desenhista da personagem?
A.C.P.:
Não. Muitas pessoas já desenharam a Katita. Para registro de personagem foi o Laudo – na época eu usava cabelo chanel e ele quis fazer parecido. Daí vieram muitos outros desenhistas como Tarcílio Dias, Leonardo Braz Muniz e agora o Ronaldo Mendes.

mf_01

Anita Costa Prado

IHQ: Você e o Ronaldo se conheciam antes?
A.C.P.:
O Ronaldo eu não conheço pessoalmente. Ele é lá do Ceará, eu nunca o vi. A maioria dos meus desenhistas eu não conheço pessoalmente.

IHQ: Como foi o contato com a editora Marca de Fantasia?
A.C.P.:
Um amigo, Edu Manzano, que também desenha, sugeriu que eu mandasse meu material para a editora. Já tinha feito contato com várias outras, mas, algumas editoras queriam publicar a Katita desde que fosse algo ligado mais à sensualidade – que foge da essência da personagem.

A profundidade dela não está nesse sentido e sim na questão de combater o preconceito com humor, mas sem usar termos apelativos, palavras pesadas… Então o Edu me sugeriu mandar o material para o Henrique (editor da Marca de Fantasia), porque ele dá muito apoio para os independentes.

IHQ: Quais são os seus planos futuros?
A.C.P.:
Agora pretendo lançar o gibi “Preconceito é um dragão”, que aborda o preconceito como uma coisa a ser combatida. Estou esperando resposta de uma editora. A Marca de Fantasia, apesar de ser muito boa, não tem pontos de vendas, de distribuição. Esse lançamento é uma oportunidade única de adquirir esses títulos.

Há muitos anos o Henrique não vinha para São Paulo, e trazendo essa quantidade de livros, acho que é a primeira vez. Na literatura estou participando de alguns concursos. E as cartilhas educacionais que eu gosto de fazer estão sempre esperando aprovação, são coisas mais difíceis que não depende só de desenhistas e roteiristas.

IHQ: Considerações finais?
A.C.P.:
Convido as pessoas a acessaram o site da Marca de Fantasia, porque é interessante. Tem vários títulos muito importantes, quadrinhos, ensaios e uma série de coisas. É uma editora que além de quadrinhos dá espaço para se falar sobre quadrinhos.

HENRIQUE MAGALHÃES

IHQ: Como começou a Marca de Fantasia?
H.M.:
Começou como fanzine quando eu morava aqui em São Paulo, em 1985/86. Saíram 6 edições até 1990. Foi um momento excepcional de movimento, de publicações independentes.

Me inspirei na revista Linus, da Itália, mas com uma abordagem brasileira. Foi a forma como entrei no mundo dos fanzines, dialogar com os autores e estudar, porque, a partir disso eu fiz minha dissertação de mestrado. Foi a partir do nome do zine que eu criei a editora, que só se estruturou com um projeto editorial em 1995.

mf_02

IHQ: Filiada à UFPB?
H.M.:
Não, independente. Claro que eu sempre associava meu trabalho à universidade [nota: Henrique Magalhães é jornalista e professor no curso de jornalismo na UFPB], como um trabalho de extensão, mas nunca tive financiamento nenhum da universidade. Sempre foi independente e continua sendo.

IHQ: Qual é a linha editorial da Marca de Fantasia?
H.M.:
Valorizar os quadrinhos nacionais, dando ênfase aos quadrinhos de humor e experimentais. Tenho o fanzine Top! Top! que é um trabalho de reportagem que eu faço, com entrevistas, resenhas. Têm uma série de livros de tiras, várias revistas e várias séries de livros teóricos com ensaios sobre diversos aspectos dos quadrinhos e da cultura pop.


IHQ: E publica material internacional também?
H.M.:
Também; os autores internacionais que eu admiro, que tenho acesso e que topam publicar. Pra mim é uma grande honra. Publiquei a Claire Bretécher, uma francesa renomada, publiquei Sério Más, argentino e Nuno Nisa, português. No primeiro número do Top! Top! tem uma entrevista com o Garrincha, autor cubano.

IHQ: Você participa de muitos eventos na América Latina. Como você avalia a cena de quadrinhos nessa região?
H.M.:
Tem muita coisa sendo produzida, muitas editoras independentes. Tem uma na Argentina, La Productora, que tem um trabalho excepcional. Eles têm contato com toda a América Latina, é uma ponte para fazer contato e é fundamental ter essa relação com editores de outros países que fazem um trabalho muito semelhante ao que a gente faz aqui.

IHQ: E as dificuldades são as mesmas?
H.M.:
São. Independentemente da onde seja o lugar.

IHQ: E como você vê a cena independente hoje e o trabalho da Marca de Fantasia dentro dela?
H.M.: Eu que venho dos fanzines vejo uma grande evolução gráfica e editorial, a perspectiva de se criar um mercado. Existem as livrarias especializadas por todo o país, coisa que antes não tinha. Vejo que há perspectivas, algo que se caminha para um mercado paralelo.

IHQ: E quanto aos trabalhos lançados esta noite?
H.M.:
Todos os trabalhos são muito bons, maravilhosos [risos]. Tem o Gonçalo, que é uma honra publicá-lo. Ele foi parceiro meu nos fanzines. [Gonçalo Júnior entra na entrevista].

mf_04

Anita e sua amiga Ethel com a camiseta do próximo lançamento de Katita

Gonçalo Júnior: A gente vem de uma geração em que o xerox foi tudo, houve uma revolução na imprensa alternativa nos anos 80 por causa da Xerox. Com isso, pipocou, no Brasil inteiro, a onde de fanzines, não só de quadrinhos como também de rock, neonazistas, guerrilheiros… de tudo.

Nunca deixamos de acompanhar, nesses 26 anos, o que acontece no mercado de quadrinhos desde os anos 80. A internet prometia tomar esse espaço dos fanzines, mas acabou não conseguindo. Acho que os blogs mataram a idéia de fanzines; nos blogs as coisas ficam muito mais autoral, é muito mais pessoal.

Nos fanzines, a gente divulgava todo mundo, fazia matérias, entrevistas…

Hoje em dia, é impressionante como a molecada está com qualidade; acho isso muito positivo porque os meninos estão percebendo que não basta ficar com essa choradeira de que os americanos dominam o mercado.

Eles sabem que pra ter uma banda de rock, tem que treinar 10 horas por dia – a não ser que você queira montar uma banda só pra pegar as menininhas – agora um cara que realmente quer fazer um trabalho legal ele tem que treinar, treinar, escrever, escrever. O fanzine, de certa forma, foi um começo disso.

IHQ: Você acha que os fanzines ajudaram a divulgar os quadrinhos ou os quadrinhos ajudaram a divulgar os fanzines?
G.J.:
Acho que os fanzines ajudaram os quadrinhos. O fanzine é a revista do fã. Só que no Brasil ele virou uma revista de divulgação e hoje, além da qualidade da molecada, tem a qualidade gráfica; naquela época era Xerox ou mimeógrafo. Mas principalmente se mudou a mentalidade, a molecada resolveu se profissionalizar, fazer uma coisa competitiva.

IHQ: E essas leis de cotas para quadrinhos nacionais, vocês acham que isso ajudaria?
H.M.:
Nos anos 1980 a gente já brigava por isso, já tinha movimento nos anos 60 por isso. Nunca funcionou. Eu acho mais produtivo que a gente se reúna, faça cooperativo e lance, do que ficar esperando que uma lei determine quanto deve ser publicado.

IHQ: Porque que a Marca de fantasia não tem pontos de distribuição?
H.M.:
São duas questões. Primeiro: eu tenho uma bronca com livrarias que só recebem nossa produção se for em consignação. Só que das editoras profissionais eles têm que comprar. Não acho isso correto, é uma questão ideológica mesmo.

Segundo: minha produção é artesanal, de pequena tiragem, e não posso investir numa tiragem de 200 exemplares para distribuir nas livrarias em consignação e não saber quanto receber das vendas. A minha opção é vender diretamente ao leitor, com preços reduzidos e atingir até o exterior, porque, desse modo, já vendi para a Bélgica, Portugal, Espanha.

A Internet hoje abre essa possibilidade e eu optei por trabalhar dessa forma do que investir nas livrarias e nas altas tiragens. Em vez de fazer 500 exemplares de um título eu faço vinte de cada vez. De acordo com a demanda eu vou fazendo. Dessa forma eu posso fazer de dez a quinze títulos por ano; se fosse investir numa edição [de alta tiragem] seria uma por ano.

[Gonçalo pergunta a Henrique Magalhães]. Quanto aos livros teóricos, as editoras resistem em publicá-los. Você acha que vale a pena, tem mercado para eles?
H.M.:
Totalmente! É o grande filão da Marca de Fantasia porque interessam aos estudantes de graduação, aos de pós-graduação, eles não encontram nenhuma informação desse tipo no mercado e têm que recorrer à Marca de Fantasia. Eu recebo diariamente pedidos de livros teóricos muito mais do que os de quadrinhos.

mf_03

GONÇALO JÚNIOR

IHQ: Como surgiu a idéia para o livro abordando a vida de Flávio Colin?
G.J.:
Esse livro foi feito para o Henrique. Eu sou um profundo admirador do Henrique, da sua luta, coerência e ética para fazer e defender os quadrinhos, para promover o universo dos fanzines.

O trabalho dele é único no Brasil. Daquela geração que começou a construir o que a gente vê hoje, o Henrique é o que continua segurando a peteca. Eu que lhe ofereci o livro, ele nunca me procurou para publicar um livro. Toda vez que eu faço um livro, penso no trabalho do Henrique.

Escolhi o Colin porque o considero, talvez, o maior artista brasileiro de quadrinhos de todos os tempos, o mais completo, o mais sofisticado e o mais ousado. Ele tem uma luta histórica, era um sonhador.

Acho que a molecada que ler esse livro vai gostar da história e se sentir estimulada a seguir o caminho que Colin havia traçado.

IHQ: Você o conheceu pessoalmente?
G.J.:
Uma vez no Rio de Janeiro, na Bienal do livro, acho que em 1999.

IHQ: Foi difícil encontrar material para escrever o livro?
G.J.:
Não, porque, quando eu vou escrever um livro, passo muito tempo juntando material. Eu tive a oportunidade de organizar dois álbuns para a Ópera Graphica com trabalhos inéditos dele e sua viúva me cedeu tudo que ela tinha de entrevistas.

Fiz esse livro a partir de 22 entrevistas, aproximadamente, e conversas com seu casal de filhos e sua viúva para preencher lacunas de sua infância que foi bem trágica. Mas é um trabalho despretensioso. Eu queria fazer algo fácil de ler. Espero que alguém se sinta estimulado a fazer um livro mais rico sobre Colin.

IHQ: Você tem essa preocupação em seguir uma linha mais histórica em seus livros?
G.J.:
Sim, isso começou nos fanzines. Antes de fazer meu primeiro livro, eu editava fanzines. Nos anos 1980 eu editava o Quadrinhos Magazine, o Almanaque dos Quadrinhos, a Folha dos Quadrinhos, a Baloon etc. e entrevistava as pessoas. Tinha a preocupação de ouvir, de procurar resgatar a memória dos quadrinhos; em cima disso eu desenvolvi meu TCC e desde então, não parei de pesquisar.

IHQ: Quais são os seus planos futuros?
G.J.:
Estou com o “Guerra dos Gibis 2”, talvez saia este ano. E vou fazer mais um pro Henrique [Gonçalo não nos revelou o título].

IHQ: E o que você diria para essa turma que está começando?
G.J.:
Treinar bastante. Você não ganha uma maratona de 42 km, correndo 12 km por dia. Tem que correr 50 km por dia para deixar 8 km de sobra. Acho que quadrinhos são assim, tem que treinar bastante, ensaiar bastante, atingir um nível competitivo para tentar abrir mercado.

Eu acredito muito num dia em que não se precise mais fazer distinção entre quadrinhos nacionais e estrangeiros e sim entre quadrinhos de qualidade ou não. Acredito que a gente caminha para isso.

IHQ: Há algo que você queira dizer, que faça questão que as pessoas saibam para finalizar?
G.J.:
Acho que a gente vive talvez o melhor momento dos quadrinhos no Brasil. Eu e o Henrique temos uma experiência de 3 décadas acompanhando a produção e sempre que possível estimulando-a e acho que a gente vive um momento muito bom.

Acho que o mercado está começando a amadurecer, os grandes talentos não estão pensando mais em só desenhar os super-heróis da Marvel, acho que essa turma está querendo buscar um trabalho autoral.

_____________________

O Impulso HQ agradece à Anita Costa Prado, Henrique Magalhães e Gonçalo Júnior por, tão gentilmente, terem cedido essa entrevista a um aspirante à repórter.

Alexandre ManoelquadrinhosAnita Costa Prado,Edgar Franco,Elmano Silva,Flavio Colin,Gonçalo Junior,Henrique Magalhães,HQMix Livraria,Marca de Fantasia,Ronaldo MendesGonçalo Júnior, Anita Costa Prado e Henrique Magalhães Quem enfrentou o frio de São Paulo no último sábado, dia 13 de junho, pode presenciar um fato raro: O lançamento de diversas edições da Marca de Fantasia: Vida Traçada: um perfil de Flavio Colin, do jornalista Gonçalo Junior; Macambira e...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
Compartilhe