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Figura 01

Para quem não pode comparecer na semana passada nas palestras de Patrícia M. Borges, que ministrou Mangá: cultura nipônico-brasileira junto com Selma Meireles e O universo feminino nas HQs,  que integraram a semana temática “O Universo Multicultural das HQs” no Centro Cultura Ruth Cardoso, o Impulso HQ tem o grande prazer em trazer o resumo do conteúdo das palestras com o texto da própria Patrícia M. Borges.

Para quem não sabe Patrícia M. Borges é a autora do livro “Traços Ideogramáticos na linguagem dos Animes”, que tem o lançamento datado para o mês de Março (saiba mais aqui), é doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC/SP e mestre em Educação Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

O seu livro é um lançamento é da editora Via Lettera e conta com o apoio da Fundação Japão.

Serão 3 post com os textos referentes às palestras, e o Impulso HQ só tem a agradecer tamanha colaboração e dedicação de Patrícia M. Borges.

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Figura 02

Figuras 01 e 02: As imagens servem para exemplificar a ocidentalização do Japão pelos EUA, pois vemos um carro da marca Audi (alemã) e a Chihiro em meio a sacolas produzidas em países ocidentais e orientais.

Mangá: Cultura Nipônico-Brasileira

Texto de: Patrícia M. Borges  PhD.

Esta pesquisa foi feita a partir da compreensão do desenvolvimento da linguagem dos mangás como resultante de uma relação histórica entre questões sociais, econômicas e produções culturais de massa – esforçou-se em apurar os aspectos de interesse constante do público brasileiro por essa cultura tipicamente japonesa e sua influência sobre nós.

O Estilo de vida “Made in Japan” do povo brasileiro

Muito além dos quadrinhos e desenhos animados, uma pluralidade de produtos e artefatos japoneses expandiu-se pelo mundo afora, conquistando cada vez mais legiões de fãs de diversas idades e nacionalidades.

Acrescenta-se ainda o fato de muitos jovens e pessoas demonstrarem interesses comportamentais, desejos e apegos voltados para a questão da identificação com as personagens de animês e mangás e com o estilo de vida “Made in Japan”.

Por esta razão é comum ver jovens desfilando pelas ruas do bairro da Liberdade, em São Paulo, com maquiagem no rosto, cabelos coloridos, penteados extravagantes e vestidos com a mesma caracterização de suas personagens prediletas ou inspirados por algum ídolo de uma banda de rock.

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As figuras 03 e 04 são referências ao desenho de Disney da Branca de Neve – o cavalo branco, a manga da blusa da Safiri é semelhante a manga do vestido da Branca de Neve.

Outra constatação do fenômeno da presença da cultura pop japonesa na realidade brasileira se dá com o crescente número de eventos, convenções e festivais a cada ano, chegando a reunir mais de 70.000 mil pessoas.

Foi na década de 1990, com a popularização das séries de TV, que os animês passaram a ser um produto conhecido em vários países, ajudando a divulgar e despertar uma enorme admiração em relação aos quadrinhos japoneses, como também impulsionaram a criação de um mercado nacional bastante próspero, estruturado e amplo – uma poderosa indústria de entretenimento liderada principalmente pelos animês e pelos mangás.

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Figura 05: a imagem assemelha-se ao personagem dos quadrinhos Mancha Negra

Aqui no Brasil, a cultura pop japonesa passou a fazer parte do nosso cotidiano através da extrema popularidade alcançada pelas séries Dragon Ball, Dragon Ball Z e, principalmente, Os Cavaleiros do Zodíaco, que se tornou uma verdadeira “febre nacional” entre jovens e crianças.

Mas, somente a partir do ano de 2001 com a produção quadrinizada dessas séries é que houve o grande “boom” dos mangás no Brasil; e, partir de então, a quantidade de publicação dos títulos japoneses atualmente lidera nas bancas de jornal.

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Figura 06: exemplo da mistura de ficção e realidade presente nas histórias de mangás

São muitos os fatores convidativos que fizeram com que o estilo de narrativa japonês prevalecesse, tornando-se mais interessante em relação aos quadrinhos ocidentais. Razão pela qual, muitos elementos herdados dos quadrinhos e das animações japonesas estão influenciando algumas produções dentro e fora do Brasil, como é o caso das personagens da “Turma da Mônica”, de Maurício de Souza, que cresceram e se tornaram jovens, assim como também as meninas superpoderosas, “Powerpuff Girls”, de Genndy Tartakovsky tornaram-se adolescentes. Esta estratégia de segmentar as produções de mangás e animês para públicos específicos já é uma marca registrada dos japoneses para atender o maior número de leitores possíveis.

Além das influências artísticas e culturais japonesas que influenciaram a estética do mangá, outros aspectos determinantes do seu sucesso partem do entendimento do estilo inovador desenvolvido por Osamu Tezuka. Foi durante o pós-Segunda Guerra, quando a ocidentalização do Japão pelos EUA trouxe uma série de transformações artísticas ao Japão, é que foram identificadas as referências mais significativas na criação do moderno mangá: o cinema americano e europeu, as animações de Disney e o estilo do teatro takarazuka.

Assim, conclui-se que a estética dos mangás de hoje como herança do passado, que em sua trajetória, incorporou originariamente aspectos importados de diferentes culturas. Talvez seja este o fator que garanta a aceitação de leitores extremamente diversificados, na medida em que podem estabelecer relações de identificação e cumplicidade com a temática das histórias, entre outros aspectos.

Para tanto, elegemos a história da série “Neon Gênesis Evangelion” que reflete as mesmas questões cotidianas presentes na realidade social das sociedades e que são vivenciadas pelo protagonista: Shinji Ikari.

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Figuras 7, 8 e 9: Neon Genesis Evangelion – demomstram este distanciamente entre pai e filho e a solidão vivida pelo garoto

Os dilemas psicológicos atuais vividos, principalmente, pelos adolescentes, quase sempre baseados na necessidade de serem reconhecidos pela família e pela sociedade. Dilemas que aparecem concretamente na personagem Shinji Ikari e que chama atenção, na medida em que se trata de um menino que está na fase da adolescência e, ao mesmo tempo, em processo de maturação.

Na sua história, encontramos um aparente abandono e solidão representado pela figura de um menino que cedo tem de viver sozinho para se preparar para a vida, o que estabelece uma luta entre pai e filho que é comum, por exemplo, na sociedade japonesa. Por outro lado, há também a ausência total da figura materna, que nem aparece na maioria dos enredos. Poderíamos afirmar que esta é a realidade dos jovens na sociedade globalizada.

Neste sentido, entendemos que os mangás constituem uma linguagem híbrida, na medida em que incorporam elementos culturais do mundo inteiro como resultado do processo de globalização.

Segundo Nagata Sama:

“Qualquer produto, qualquer animê, mangá, qualquer filme, mostra a realidade social. Isso significa quebra de relação familiar; como resultado, obra da sociedade. Eu posso dizer globalização de produto – animê – porque mesmo japonês tá criando história. Ocidental dá para entender. Não é bem típico oriental. Então cultura fica né, mesmo bem globalizada. Essas coisas acho que é universal” (depoimento).

Finalizando…

Nos identificamos também com as características dos heróis e das heroínas dos mangás e animês: um aspecto em comum com relação ao objetivo dos heróis das histórias de mangás reside na superação de desafios. Eles podem variar de uma partida de futebol ou uma luta de karatê, até mesmo, vencer um terrível monstro de três cabeças. Os desafios são colocados e o personagem tem que vencer e ser o melhor. Para o espectador, o personagem é um exemplo a ser seguido; deve-se ser como ele: vencer qualquer desafio.

Este modelo de comportamento também serve de recomendação e incentivo para todos que concluíram o desafio de ler este texto!

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Figuras 10 a 15: As imagens de Seiya e exposição do Sesc foram fotos tiradas quando da exposição no Sesc pompéia, em função do troféu HQ, em 1994 – época em q. os Cavaleiros do Zodíaco chegaram pra ficar aqui no Brasil, e consequentemente, temos os outros 3 desenhos que  foram feitos por alunos da 5a. série, em 1995, quando solicitei aos alunos um desenho espontâneo. Vejam como a influência não foi de brincadeira – olha o que eles desenharam!

Tem tbém este site sobre as comparações dos frames de Kimba e Rei Leão. mostra a relação entre os desenhos japones e americano:
http://www.kimbawlion.com/rant2.htm

Renato Lebeauanimes,Cultura,Fundação Japão,mangá,Nagata Sama,Neon Genesis Evangelion,Patrícia M. Borges,Traços Ideogramáticos na linguagem dos Animês,Via LetteraFigura 01 Para quem não pode comparecer na semana passada nas palestras de Patrícia M. Borges, que ministrou Mangá: cultura nipônico-brasileira junto com Selma Meireles e O universo feminino nas HQs,  que integraram a semana temática “O Universo Multicultural das HQs” no Centro Cultura Ruth Cardoso, o Impulso HQ tem...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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