1968-2008… N’Effacez Pas Nos Traces! Não Apaguem Nossos Vestígios!: Quadrinhos acompanhados por canções.

Como é intenção da equipe do Impulso HQ, sexta-feira é dia de trazer ao leitor textos interessantes sobre histórias em quadrinhos que abordem temas como produção, relação com outro meio de linguagem e até história, o que é o caso do texto de hoje.

Que a maioria já ouviu falar em revoluções na França isso não é novidade, mas o mais interessante é que sempre surgem manifestações que relembram esses conflitos civis, sejam por uma questão de não deixar cair no esquecimento a luta dos trabalhadores, ou pelo fato de se manter a história registrada, e é claro que as histórias em quadrinhos não iam ficar fora dessas formas de reviver os fatos acontecidos.

Não esqueçam que qualuqer pessoa pode enviar o seu texto para o Impulso Hq para ser divulgado.

Acompanhem o texto a seguir:

Visto no Universo Fantástico.

Maio de 68 em quadrinhos e canções

Na França, em maio de 1968, manifestações e greves estudantis e de trabalhadores quase levaram a uma revolução e à queda do governo de Charles De Gaulle.

Ao mesmo tempo, o mundo todo foi varrido por protestos, greves, manifestações: Chile, Brasil, Argentina, México, Itália, Bélgica, Polônia, Estados Unidos, Tchecoslováquia.

Hoje, após quarenta anos, tudo está semi-esquecido e enterrado pela globalização e pelo novo capitalismo que domina nosso tempo, mas aqui e ali surgem obras para reviver, recriar e rememorar aquele tempo, tão distante que parece fazer parte de um outro mundo.

Os quadrinhos também quiseram participar deste aniversário, e vêm da França duas obras que nos dão uma versão artística daquelas manifestações.

O primeiro é o belo livro de Jacques Tardi, que é acompanhado de (ou acompanha?) um CD com canções Dominique Grange. Esse pequeno livro de capa dura, 1968-2008… N’Effacez Pas Nos Traces! / Não Apaguem Nossos Vestígios! (que pode ser traduzido também como Cicatrizes), traz pequenas histórias em quadrinhos ou seqüências de painéis que pontuam cada canção, sempre destacando algumas frases da letra da música.

Dominique Grange, dentro da tradição da canção de protesto dos anos 1960/1970, aborda não só Maio de 68, mas também o assassinato do militante maoísta Pierre Overney em 1972, a comuna de Paris de 1871, a ditadura militar no Chile, o colonialismo francês, os exilados políticos, a situação dos prisioneiros do grupo de esquerda de luta armada Action Directe e a extradição de militantes italianos após estarem 20 anos refugiados na França.

Compostas também ao longo desses 40 anos, há desde músicas que eram cantadas nas ruas e portões de fábricas pela compositora em 1968, até a faixa-título que encerra o disco, de 2007, e que é uma resposta a uma frase dita em discurso de campanha e também atesta a postura de governo de Sarkozy: “Nesta eleição, a questão é saber se a herança de Maio de 68 deve ser perpetuada ou se deve ser liquidada de uma vez por todas. Eu quero virar a página de Maio de 68…”

A parceria com o quadrinhista francês não é por acaso, eles são casados e tem três filhos adotados no Chile. Tardi mais uma vez demonstra seu grande talento, seja desenhando passeatas em Paris, favelas no Chile, fábricas ocupadas ou ativistas em prisões francesas.

Em várias histórias ele recorre a alegorias, como a da ditadura chilena, representada por macacos com capacetes e focinhos de porcos, empoleirados em crucifixos e fazendo a saudação nazista, tendo ao fundo os Andes. Uma imagem poderosa que fica gravada em nossos olhos.

Para quem não viveu naquela década talvez seja difícil imaginar este mundo de protestos e canções engajadas, mas com a ajuda desse livro essa memória é resgatada.
Também esta é a intenção da edição especial da revista Pilote, que de 1959 a 1989 foi um laboratório e vitrine do que de melhor se produzia nas HQs francesas.

Teve altos e baixos, contou com René Goscinny (o criador de Asterix, junto com o desenhista Uderzo) como editor, tornou famosos Jean Giraud (Blueberry), Druillet (Lone Sloane), Morris (Lucky Luke) e o próprio Tardi.

Durante certa época a política francesa era tema constante da revista, e agora ela está de volta à Pilote, com um tom satírico, reunindo grandes nomes da época com a nova geração de quadrinhistas, que talvez cresceram como leitores da publicação.

De um lado os veteranos Mézières, Cabu, Giraud, Pétillon, Cestac, Lauzier, Mandryka, Muñoz, Druillet, Vuillemin, Mattotti, Fred. Do outro: Ferri, Sattouf, Larcenet, Blain, Menu, Riss, Achdé e outros.

Destaque para a divertida HQ de Sattouf “O que eles faziam em 68?” que mostra Bill Gates criando um jogo-da-velha para computador, Osama Bin Laden tentando decorar o Alcorão, Spielberg fazendo seu primeiro curta-metragem e Bush desmaiando em um treinamento em um avião militar.

Nessas duas obras um pouco do espírito de Maio de 68, que mesmo tendo fracassado como movimento político, causou um grande impacto na sociedade ocidental e que merece não só ser lembrado como também ser uma referência em contraponto aos valores de hoje.

Terra Magazine – por Claudio Martini

Visto no Universo Fantástico

Renato LebeauCharles De Gaulle,Dominique Grange,Jacques Tardi,Pierre Overney,René Goscinny1968-2008... N'Effacez Pas Nos Traces! Não Apaguem Nossos Vestígios!: Quadrinhos acompanhados por canções. Como é intenção da equipe do Impulso HQ, sexta-feira é dia de trazer ao leitor textos interessantes sobre histórias em quadrinhos que abordem temas como produção, relação com outro meio de linguagem e até história, o que...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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