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Da esquerda para direita: Túlio Vilela, Angela Rama, Fernando Mafra, Waldomiro Vergueiro, Agda Baeta e Paulo Ramos

Uma mesa composta por grandes nomes para o lançamento de uma grande e importante publicação, é assim que pode ser definida a noite de sábado do dia 26 de setembro, para quem esteve na HQMix Livraria.

Muito Além dos Quadrinhos é uma publicação teórica sobre os quadrinhos que reúne artigos de nove pesquisadores, está sendo lançada pela Editora Devir e vem para preencher uma lacuna que gradativamente deixa de estar vazia: a teorização sobre histórias em quadrinhos.

A publicação conta com os nomes: Agda Dias Baeta, Alexandre Barbosa, Angela Rama, Eloar Guazzelli, Fernando Mafra, Gêisa Fernandes D´Oliveira, Paulo Ramos,Túlio Vilela e Waldomiro Vergueiro, todos escreveram um texto diferente sobre uma área dos quadrinhos.

Claro que não poderíamos deixar de falar com os autores sobre a obra, e para tornar esse post mais completo o Impulso HQ entrou em contato com eles para cada uma falar sobre o seu artigo e o que o leitor encontrará em cada texto e é claro a pergunta que não poderia deixar de faltar a importância da obra como um todo!

Porém para não atrapalhar o processo de autógrafos que estava ocorrendo quase que como uma linha de produção, o Impulso HQ preferiu fazer esse contato via e-mail para não ser um incomodo, logo esse post será atualizado sempre que os autores nos mandarem as respostas. Fiquem ligados!

Durante a noite o Impulso HQ conversou com alguns dos presentes que foram prestigiar o lançamento entre eles Douglas Quintas Reis, diretor editorial da Devir, que fala sobre a publicação e a posição da editora sobre livros teóricos e ainda de quebra fala sobre os próximos lançamentos como Anatomia Expressiva, de Will Eisner e o álbum nacional sobre a história de Jesus Cristo, Yeshuah 1º Volume de 3, de Laudo Ferreira Jr.

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Impulso HQ: Por que a Devir está publicando um livro teórico sobre quadrinhos? É uma nova direção publicações teóricas sobre HQs?
Douglas Quintas Reis:
Na verdade não é uma novidade publicar livros teóricos para devir. Nós já publicamos dois klivros teroricos sobre RPG, o analise do Primeiro Simpório de RPG e Educação e o livro da Andréa Pavão, já publicamos dois livros teóricos sobre Tolkien, que são duas teses, e tem uma antologia de arquivos que a Rose Ana Rios organizou e são todos livros teóricos, então faltavam os quadrinhos.

Até quando o Waldomiro conversou com a Silvana, minha esposa, que é bibliotecária e trabalhou com ele uma época, quando eles levaram o livro para gente eu disse que se não publicássemos eu apanhava, porque ela tinha sido diretora da Gibiteca e reclamava que faltava material teórico em português.

É uma tendência natural nossa publicar material teórico, nós publicamos o livro do Will Eisner que ensina a desenhar o Narrativas Gráficas, e agora vai publicar o outro que se chama Anatomia Expressiva, que é inédito, ou seja, é um caminho que está relacionado.

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IHQ: A Devir sempre publica quadrinhos e agora esse lançamento teórico sobre o tema, se outros autores apresentarem outros idéias sobre teorização de HQs seria algo a ser considerado ou primeiro será analisado o resultado de Muito além de quadrinhos?
Douglas Quintas Reis:
A gente vai analisar a idéia independente do resultado desse. É claro que como entidade jurídica nós temos que sobreviver e isso depende de vender, mas não é porque um livro de um gênero deu certo ou errado é que a gente condenada ou modifica o gênero. Iremos analisar se o livro é bom ou não, depois iremos pensar se ele é bom não pensaremos se iremos fazer ou não independente do resultado iremos pensar no quando. Procuraremos o melhor momento dependendo da situação econômica.

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Gêisa Fernandes D´Oliveira

IHQ: Sobre os lançamentos da Devir, você pode adiantar algo sobre o Yeshuah, com a arte do Laudo Ferreira Jr., se irá sair esse ano?
Douglas Quintas Reis:
Iremos tentar. O problema é o seguinte, nós temos uma programação, que vamos montando a medida que o tempo vai passando, depois só vamos ajustando, e nós temos oito livros para outubro e oito livros para novembro então para ser esse ano ter que ser em dezembro, e ai parece que foi de propósito lançar um livro sobre Jesus no Natal, mas se a gente conseguir vai ser no inicio de dezembro, é o momento mais próximo que consigo visualizar. Mas tem grandes chances, ele já de entregou praticamente todo o material e agora falta paginar, mas acho que vai dar sim.
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Angela Rama responde sobre o seu artigo: Heróis no Brazil: uma (des)caracterização do espaço geográfico brasileiro.

IHQ: O seu artigo fala de descaracterização do espaço geográfico, mas essa deformidade pode se estender a nossa cultura também de acordo com as suas pesquisas?
Angela Rama:
Quando me refiro ao espaço geográfico, necessariamente refiro-me também aos aspectos que caracterizam a sociedade como um todo, não só às características da paisagem (ambientação), mas também (e não menos importante) as relações entre os personagens, dos personagens com o lugar; as construções; os nomes; a língua, enfim aspectos que fazem parte da nossa cultura no sentido mais amplo.

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Fernando Mafra e Angela Rama

IHQ: O que o leitor encontrará no seu artigo?
Angela Rama:
Encontrará uma análise da visão que grande parte dos estadunidenses (e outros estrangeiros, de um modo geral) têm a respeito de nosso país: uma visão pautada em estereótipos e generalizações.

Utilizando as palavras de Paulo Ramos e Waldomiro Verguiro sobre  meu texto: “a visão do Brasil levada aos leitores norte-americanos (e também do resto do mundo) é uma mescla de cartão postal redigido às pressas e um manual de viagem porcamente produzido”.

IHQ: Qual é a importância da obra como um todo na sua visão?
Angela Rama:
Creio que a importância do meu texto vai além da análise em si (especificamente  “as representações do Brasil no imaginário dos estrangeiros”), sendo relevante à medida em que indica idéias e recortes para outros trabalhos,  contribuindo para a ainda incipiente pesquisa acadêmica sobre quadrinhos.

Diga-se de passagem, o trabalho dos professores Waldomiro Vergueiro e Paulo Ramos vem sendo determinante para a aceitação dos quadrinhos como objeto de estudo científico.
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Fernando Mafra

O Impulso HQ também conversou com Gualberto Costa, nome já conhecido dos quadrinhos nacionais, e representante da HQMix Livraria, sobre o mercado editorial para esse tipo de publicação teórica.

IHQ: A HQMix Livraria sempre foi palco de grandes lançamentos, seja independente ou por editoras, e agora recebe um lançamento teórico sobre quadrinhos. Como você esse tipo de publicação no mercado?
Gualberto Costa:
Esse tipo de publicação é conseqüência de algo que já é real. Já tem mais de 30 teses, dissertações e trabalhos de graduação, então é obvio que toda essa pesquisa tem que acabar em um livro, e acho profundamente necessário esse tipo de material já que existe pouco.

IHQ: Esse é o segundo ou terceiro lançamento teórico sobre quadrinhos. Há espaço para outros lançamento teóricos sobre HQs?
Gualberto Costa:
Acho que há mais que espaço. Há uma necessidade. Tem que existir essa discussão teórica, e acho que é ela que acaba dando a entender e até tornar o quadrinho brasileiro viável. Acho que todas as discussões teóricas melhoram a produção e fazem você entender melhor o processo e fazer o nosso quadrinho brasileiro vingar de vez.
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Paulo Ramos

Paulo Ramos responde sobre o seu artigo: O uso da gíria nas histórias em quadrinhos.

IHQ: Gíria e quadrinhos é uma combinação que resulta em uma visão impopular?
Paulo Ramos:
Houve uma época em que o casamento de gírias não só com quadrinhos, mas também em outras formas de comunicação de massa era algo visto de forma pejorativa. Hoje não. O uso de gírias é uma das formas de tornar mais coloquial a fala dos personagens em textos narrativos, como as histórias em quadrinhos.

IHQ: O que o leitor encontrará no seu artigo?
Paulo Ramos:
Faço no artigo uma comparação entre três versões de uma mesma história do Homem-Aranha traduzidas aqui no Brasil em datas diferentes: 1970, 1976 e 1997. Cataloguei o uso de gírias em cada uma delas. A conclusão é que ocorreu uma gradativa utilização de vocabulário coloquial entre a primeira e a última. Pode-se deduzir que as gírias, hoje, tornaram-se um dos recursos de caracterização da fala dos personagens.

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IHQ: Qual é a importância da obra como um todo na sua visão?
Paulo Ramos:
No meu entender, obras como essa ajudam a entender de maneira mais crítica a área dos quadrinhos. Só se compreende bem um objeto, seja ele qual for, mediante estudos sérios a respeito dele. Já passou da hora de os quadrinhos serem analisados cientificamente no Brasil e entendidos como campo de análise válido nas universidades brasileiras.
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Waldomiro Vergueiro

Waldomiro Vergueiro responde sobre o seu artigo: Quadrinhos e educação popular no Brasil: considerações à luz de algumas produções nacionais.

IHQ: Quadrinhos e educação popular podem algum dia andar lado a lado ou isso já é uma realidade?
Waldomiro Vergueiro:
Como menciono no capítulo, esta é uma área que se desenvolveu muito quantitativamente nos últimos anos, com muitas empresas, instituições públicas, ONGs, sindicatos, etc. utilizando a linguagem dos quadrinhos como forma privilegiada para a transmissão de mensagens.

Recentemente, organizamos um evento relacionando histórias em quadrinhos e nanotecnologia, que tratava exatamente disso, ou seja, da maneira como os quadrinhos podem ser utilizados para aumentar o conhecimento sobre nanotecnologia, propiciando esclarecimento sobre os pontos positivos e negativos dessa área tecnológica, onde grassa a desinformação e a falta de atenção a possíveis consequencias de seu uso indiscriminado.

Também trabalhos acadêmicos têm se dedicado ao estudo do que se costuma chamar como “cartilhas quadrinizadas”, tentando conhecer melhor suas características e identificar elementos de sua composição.

Aa utilização de quadrinhos em todas as áreas do que eu chamei educação popular – não necessariamente ligada a sistemas formais de ensino – é uma realidade no Brasil e merece ser objeto de atenção de toda a sociedade.

Aos quadrinhistas, cabe buscar a melhor utilização possível dos recursos da linguagem, elaborando materiais que atendam aos objetivos educativos e proporcionando uma leitura agradável que ajude a ampliar positivamente a visão que se tem sobre os quadrinhos.

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IHQ: O que o leitor encontrará em seu artigo?
Waldomiro Vergueiro:
Tento no capítulo fazer um retrospecto da utilização da linguagem dos quadrinhos em educação popular e também levantar alguns parâmetros para sua utilização. Nesse último aspecto, utilizo uma pequena amostra de materiais, identificando pontos fortes e fracos da utilização dos quadrinhos.

IHQ: Qual é a importância da obra como um todo na sua visão?
Waldomiro Vergueiro: Penso que a importância da obra está na diversidade de temas e de enfoques que ela apresenta. Trata-se de um conjunto de ensaios sobre quadrinhos, que levanta aspectos importantes sobre seu conteúdo, mensagens que apresentam, destacando aspectos ideológicos, sociológico e linguísticos.

Ele evidencia as muitas possibilidades de estudo dos quadrinhos e como eles trazem mensagens que à primeira vista podem não ser vislumbradas. Além disso, evidenciam que as histórias em quadrinhos não são absolutamente inocentes, todas elas têm em si uma visão de mundo que pretendem disseminar.

Cabe aos leitores se capacitarem na leitura dos quadrinhos, de forma a compreender essas mensagens e obter delas aquilo que lhes interessa ou que considerarem válido.

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Gêisa Fernandes responde sobre o seu artigo: O caipira de todos nós: a construção do sentido de um tipo brasileiro nos quadrinhos.

IQH: Qual é o tipo brasileiro nos quadrinhos? É possível definir um?
Gêisa Fernandes:
Creio que é possível se falar em tendências na composição de um tipo brasileiro nos quadrinhos, mas não em um único perfil, definitivo. Não se trata de uma incapacidade do meio em expressar uma determinada identidade nacional, mas sim do caráter transitório do próprio conceito. Identidade é processo, movimento e por isso as representações do brasileiro nos quadrinhos variam tanto.

Da visão “de fora” que dá origem a um Zé Carioca na década de 1940, por exemplo, passando pelos anti-heróis da revista Crás (1974-1975), até os trabalhos mais recentes de autores nacionais, percebe-se uma grande variedade de elementos que compõem um painel da brasilidade.

É importante ressaltar que a relação entre a linguagem dos quadrinhos e o seu exterior se dá na forma de um diálogo. Não é difícil perceber a influência do externo, do contexto social, político e cultural na composição dos personagens, ou seja, o que está do lado de fora interfere diretamente na representação.

Em contrapartida, representa-se somente a identidade que nos interessa, aquela que conseguimos decodificar, destacando pontos para os quais desejamos chamar atenção, seja na forma de reafirmação de traços (no caso específico da brasilidade pode-se citar o humor e o otimismo como características recorrentes) ou de crítica. É para esta dinâmica que busco chamar atenção no meu artigo.

IHQ: O que o leitor encontrará no seu artigo?
Gêisa Fernandes:
O artigo trata da construção histórica de um tipo específico de brasilidade nos quadrinhos: o caipira. A ênfase recai na interface com outras linguagens (pintura, música literatura e cinema) e na maneira como os quadrinhos se apropriaram destas interpretações, reformulando-as dentro da linguagem, de modo a construir uma versão própria do caipira, exemplificada por meio do personagem Chico Bento, de Mauricio de Sousa.

IHQ: Qual é a importância da obra como um todo na sua visão?
Gêisa Fernandes:
A obra contribui, sobretudo, para a formação de material teórico sobre as histórias em quadrinhos. Pela maneira como está organizada, com diferentes abordagens e visões sobre o assunto, torna-se um valioso referencial bibliográfico para pesquisadores e apreciadores em geral.

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Tratando-se de uma publicação teórica, o Impulso HQ conversou com Nobu Chinen, pesquisador e teórico de HQs, que esteve presente na HQMix Livraria, e claro sabe das dificuldades de se encontrar material em português desse gênero.

IHQ: Como pesquisador de HQs, e freqüentador do Observatório de Quadrinhos, como você enxerga esse tipo de publicação teórica?
Nobu Chinen:
Particularmente acho muito importante, porque justamente é uma literatura a mais que podemos recorrer, eu que sou pesquisador, estudioso e que gosto desse assunto teórico.

Afinal é muito escassa essa leitura no Brasil, se bem que isso nos últimos anos tem aumentado o número, mas isso ainda é muito tímido, então é uma contribuição muito importante.

Todos os autores são relevantes o que dá um peso maior para a publicação e o enfoque dela também é interessante. Ela é bem diversificada, não é aquela coisa de pegar só um tema e seguir com ele até o final. Pelo que eu vi me parece que essa diversidade é que é super interessante porque contribui em vários aspectos dos quadrinhos.

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Eloar Guazzelli

IHQ: Esse é o segundo ou o terceiro livro teórico de HQ do ano. Como pesquisador você acha que isso é decorrente a quê?
Nobu Chinen:
Existe uma receptividade maior da academia para esse tipo de trabalho, de estudo de quadrinhos. Nos últimos anos, segundo um levantamento de Waldomiro Vergueiro e Roberto Elíseos dos Santos, cresceu bastante o número de trabalhos tanto como dissertação, mestrado, doutorado, com temas sobre quadrinhos. Eu acredito que o mercado como um todo começa a ficar mais maduro para aceitar esse tipo de publicação e se interessar por ele.

As escolas de uma maneira em geral aceitam e acolhem os quadrinhos de maneira mais bem vindo do que era antigamente, e isso é uma coisa que demonstra que já estamos olhando os quadrinhos com menos preconceito. Embora aconteçam alguns episódios ainda, inclusive esse ano houve um caso especifico que foi desagradável, mas acho que até a própria postura das respostas do pessoal que estuda foi bastante positiva.

Então de alguma maneira, acho que tanto o mercado quanto o interesse acadêmico. Quanto às pessoas que descobriram que HQs é um objeto de estudo interessante, demonstra que há uma mudança de postura.
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Agda Dias Baeta

Agda Dias Baeta responde sobre o seu artigo: Margarida no Brasil: retrato de uma mulher pós-moderna.

Agda Dias Baeta: O foco do meu artigo é a personagem Margarida (Daisy Duck) da Disney. Analiso o contexto das histórias da personagem criadas no Brasil, na década de 1980/90, momento muito promissor da produção Disney nacional, já que havia um estúdio Disney na Ed. Abril.

Os artistas brasileiros atribuíram à pata uma personalidade caracterizada por atitudes tipicamente pós-modernas. Nas histórias criadas aqui, ela não é apenas a namorada do Pato Donald, coadjuvante e fútil (como normalmente retratada nas histórias americanas).

Ela é independente emocional e financeiramente, não aceita ser subjugada pelo namorado, nem pelo patrão (Tio Patinhas) e prova a todo o momento que é capaz de fazer tudo que os homens fazem.

Além disso, os temas tratados em suas histórias falam sobre a falta de tempo, a preocupação com a aparência, conquista do mercado de trabalho, diferença de salário entre homens e mulheres, adiamento da maternidade, entre outros dilemas femininos tipicamente pós-modernistas.

IHQ: Falar sobre mulher pós-moderna nos quadrinhos foi uma tarefa árdua, ainda mais que nas HQs elas são usadas como símbolo sexual?
Agda Dias Baeta:
Não foi uma tarefa árdua nesse sentido, pois o artigo é focado na personagem Margarida (Daisy Duck) da Disney. Se a abordagem fosse mais ampla e o objeto de estudo fosse as figuras femininas de um modo geral, com certeza, a questão do símbolo sexual estaria muito mais forte.

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IHQ: O que o leitor encontrará no seu artigo?
Agda Dias Baeta:
Os comportamentos femininos tipicamente pós-modernos incorporados nas atitudes da personagem. Mostro no artigo, que a personalidade atribuída à pata nas histórias brasileiras está relacionada ao momento da sociedade.

Pois nas décadas de 80/90, não só os gibis, mas programas de televisão, como Malu Mulher, tratavam dos mesmos temas. Isso porque, a queda do regime autoritário enfraqueceu a ideia de estado-nação brasileiro e consequentemente os demais valores da modernidade.

Com o afrouxamento da censura, assuntos considerados tabus entraram em cena nos meios de comunicação e o Brasil finalmente começou a sentir os efeitos da onda de mudanças da pós-modernidade.

Em especial, o discurso das histórias da Margarida reflete as mudanças comportamentais do gênero feminino e evidencia a chegada dos valores pós-modernos na sociedades latino-americanas que foram apropriadamente retratados pelos meios de comunicação de massa.

IHQ: Qual é a importância da obra como um todo na sua visão?
Agda Dias Baeta:
Evidenciar a relevância que as histórias em quadrinhos têm como instrumento de comunicação. Elas influenciam e são influenciadas pelo contexto social. Elas não só retratam o que a sociedade está vivendo, com também contribuem para a disseminação de conceitos e comportamentos.

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Marco Tulio Vilela responde sobre o seu artigo: Influências religiosas e sobrenaturais nos quadrinhos nacionais de terror.

IHQ: O seu artigo fala do sobre natural e terror nas HQs brasileiras, você encontrou muitas referencias no nosso folclore que se perdeu ou que é conhecido de maneira errada?
Tulio Vilela:
De modo geral, os nossos autores procuraram adaptar com certa fidelidade o folclore. Os norte-americanos incorporaram muitos elementos que surgiram no cinema e não no folclore.

Por exemplo, nas histórias brasileiras é comum encontrar histórias sobre o filho não batizado (ou o sétimo filho homem na versão original)que se transforma em lobizomem. Nos EUA, os quadrinhos acabaram incorporando aquela idéia do roteirista do filme “Lobizomem” (Wolfman) de 1941, estrelado pelo Lon Chaney Junior: a de que somente balas de prata poderiam matar um lobizomem. Essa idéia das balas de prata surgiu nesse filme, não fazia parte do folclore sobre lobizmens nem aqui e nem lá fora.

IHQ: O que o leitor encontrará no seu artigo?
Tulio Vilela:
O leitor encontrará uma série de comparações que chamam atenção para as diferenças entre como o sobrenatural foi mostrado em quadrinhos de terror produzidos nos EUA e os quadrinhos do mesmo gênero no Brasil.
Boa parte dessas diferenças eu atribuo à religiosidade de cada povo, na maneira em como cada religião ou cultura encara a idéia de vida após a morte: nos EUA, o protestantismo tende a ver o sobrenatural como algo sempre ligado ao Diabo, enquanto no Brasil o sincretismo religioso, oque inclui a presença das religiões afro-brasileiras e do espiritismo kardecista, acaba tolerando a idéia de que existem tanto bons quanto maus espíritos ou entidades.

O artigo também tenta responder porque apesar do Regime Militar, a censura aos quadrinhos de terror no Brasil foi relativamente branda se comparada ao que ocorre nos EUA. Outro aspecto que procuro tentar responder no artigo é porque o terror foi um dos poucos gêneros de quadrinhos que conseguiu criar raízes no Brasil, ganhar cara própria e alcançar certo sucesso comercial durante um certo período.

IHQ: Qual é a importância da obra como um toda na sua visão?
Tulio Vilela:
A obra procura preencher uma lacuna no mercado editorial brasileiro: a escassez de obras teóricas e atualizadas sobre histórias em quadrinhos. Creio que ao organizarem a obra, os professores Waldomiro Vergueiro e Paulo Ramos fizeram uma contribuição que tem significado semelhante ao que o livro “Shazam” do professor Álvaro de Moya teve na década de 1970.

A diversidade de temas, enfoques ou Ãngulos (histórico; sociológico; linguístico…) e dos próprios gêneros (terror; humor; super-heróis; infantil…) de quadrinhos analisados (pois o livro não se prende a nenhum gênero em particular) é outro diferencial da obra. Mais um atrativo.

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A noite se encerrou tranquila, após uma longa jornada de autógrafos que os autores tiveram que passar, pois quando se pensava que ia parar de chegar gente a mesa ficava sempre cercada de admiradores de quadrinhos e é claro da obra que veio para ser mais um reforço na pesquisa sobre HQ e é claro demonstra o  interesse da academia pelo assunto.

O Impulso HQ agradece a todos os autores que nos enviaram as respostas para deixar o post mais interessante para o leitor e é claro também aos entrevistados que cederam o seu tempo no sábado!

E até o próximo lançamento!

Renato LebeauquadrinhosAgda Dias Baeta,Alexandre Barbosa,Angela Rama,Devir,Douglas Quintas Reis,Eloar Guazzelli,Fernando Mafra,Gêisa Fernandes D´Oliveira,Gualberto Costa,hqmix,Muito Além dos Quadrinhos,Nobu Chinen,Paulo Ramos,Túlio Vilela,Waldomiro VergueiroDa esquerda para direita: Túlio Vilela, Angela Rama, Fernando Mafra, Waldomiro Vergueiro, Agda Baeta e Paulo Ramos Uma mesa composta por grandes nomes para o lançamento de uma grande e importante publicação, é assim que pode ser definida a noite de sábado do dia 26 de setembro, para quem esteve...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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