Um legítimo inglês. A primeira vista não tem como não vir esse pensamento ao ver Jamie Delano andando na 19º Fest Comix com o seu casaco, camisa e com óculos quadrados com cantos arredondados, dando um ar austero ao roteirista que é mais conhecido pelas suas histórias em Hellblazer e Visões de 2020, e agora no Brasil com “Nação Fora da Lei: sangue entre irmãos”, recentemente lançado pela Gal Editora.

Mas essa impressão logo se desfez. Na verdade, Delano estava bem descontraído e bem humorado na coletiva de imprensa para falar de Nação Fora da Lei que nos Estados Unidos foi publicado pela linha Vertigo da DC Comics. A conversa foi mediada por Maurício Muniz, editor da Gal Editora, com tradução de Eliane Gallucci. Antes de começar a coletiva, o roteirista britânico agradeceu por todo o tratamento carinhoso que recebeu desde que chegou ao Brasil.

Logo de início Delano falou sobre a “invasão inglesa” e qual era o ambiente dos autores ingleses na época em que os profissionais britânicos dos quadrinhos começaram a publicar nos Estados Unidos. “Não tínhamos nenhum plano ou estratégia, as coisas simplesmente aconteceram. Nós, os autores britânicos, nos conhecemos e nos tornamos amigos, mas trabalhávamos sozinhos em nossos projetos”, disse o roteirista, deixando claro que não havia na época nenhum coletivo de autores.

Uma pergunta que não deixou de ser questionada é sobre a relação de Delano com os quadrinhos conhecidos como “mainstream”, ou seja, os de super-heróis. O autor respondeu que nunca teve um grande interesse por esse gênero e que sempre preferiu trabalhar com a linha Vertigo porque era um estilo de HQ independente. “Se não fosse a Vertigo a minha carreira seria bem curta”, disse Delano que afirmou ainda que escreveu somente uma história do Batman ao longo de sua carreira, e na verdade era para ser sobre o personagem Man-bat.

Delano ainda revelou que o Batman só aparece na HQ porque o desenhista John Bolt insistiu em desenhar o Cavaleiro das Trevas. No Brasil essa história foi publicada pela Mythos editora em uma minissérie em três edições chamada o Morcego Humano. “Não cresci com esse tipo de quadrinho. Não tenho a necessidade de escrever sobre super-heróis”, finalizou Delano sobre esse assunto.

Já falando de Nação Fora da Lei, o roteirista disse que não se lembra da origem da ideia, mas que tudo começou após um convite para fazer uma série regular na Vertigo, junto com dois artistas croatas escolhidos pelo DC Comics. A maior parte do processo de comunicação foi via telefone, e ele afirmou que funcionou muito bem porque é assim que ele gosta de trabalhar, com os quadrinhos “aparecendo acidentalmente” nas páginas.

Um fato curioso é que Delano não procura saber sobre a repercussão do seu trabalho. Isso ficou claro quando lhe foi perguntado se ele sentia que o seu trabalho era subestimado em relação aos outros autores ingleses e ele afirmou que não. Na verdade ele ficou muito surpreso com os comentários da quarta capa da edição nacional, dizendo que ele nunca havia lido antes as considerações sobre Nação Fora da Lei. “Não escrevo para ter reconhecimento, ser adulado ou para agradar, e sim para mim mesmo e na esperança que o meu trabalho encontre pessoas com opiniões compartilhadas. Nunca perdi o meu sono por isso”, completou Delano.

Sobre os direitos autorais de Nação Fora da Lei, ficou claro que o contrato deixava a obra como pertencente a Delano e ao primeiro desenhista da série. Quando a Vertigo cancelou o projeto, o material voltou para os autores que tinham a total liberdade para negociá-la para qualquer empresa que se interessasse. Vale lembrar que a Nação Fora da Lei, lá fora, ganhou uma edição especial em volume único de 500 páginas. No Brasil a Gal publicará a história em dois volumes. Delano chegou até a afirmar que o Brasil seria o primeiro país a publicar a série fora dos Estados Unidos, mas lembrou que a história ganhou uma edição na Croácia.

Delano agora parte para outras mídias e acaba de escrever o seu primeiro livro, “Book Thirteen”, também de forma independente. O romance de humor negro foi escrito, diagramado e produzido por Delano, que agora vende a obra diretamente em seu site. O autor disse que sempre teve vontade de escrever algo que não tivesse desenhos e revelou que para o romance ele usa um pseudônimo porque acredita que esse projeto não tem nada a ver com a sua produção nas HQs, e que pretende alcançar um publico diferente.

“Meu romance é uma tentativa de fazer um suicídio econômico, mas ele saiu do jeito que eu queria. No fim foi quase um hobby”, afirmou o autor que ainda completou dizendo que a sua maior motivação no projeto foi que ele desejava saber se ele conseguiria fazer um romance. E outros romances estão por vir, só que eles serão mais próximos das HQs que Delano tanto gosta de escrever.

Outro assunto levantado foi se com a volta da popularidade da série Doctor Who ele não teria vontade de roteirizar algum episódio do personagem com o qual ele já trabalhou nos anos 1990. Delano admitiu que não tem interesse algum em roteirizar para TV porque dá muita dor de cabeça escrever sobre um personagem conhecido, e que a experiência que ele teve gerou mais confusão do que prazer. Por outro lado, o roteirista não escondeu o fato de que ele pode ser comprado. Tudo vai depender da oferta.

O escritor britânico afirmou que fez tudo o que gostaria de ter feito nos quadrinhos, e que o personagem que ele sente mais apego é John Constantine (Delano frisou a pronuncia correta) e que ele ficou muito feliz em escrever a série Pandemonium do personagem que comemorou vinte e cinco anos da sua primeira publicação.

Falando em Constantine, Delano deu a sua opinião sobre a adaptação cinematográfica do personagem produzida em 2005 e estrelada por Keanu Reeves no papel principal. “Não gosto do filme, mas também não odeio. Tenho ciência de que aquele não é o personagem que eu ajudei a criar. É outro personagem feito nos padrões de Hollywood. Não acho que é um filme todo ruim. Na verdade, o pior de tudo foi o que fizeram com o Chas no filme. Vendo aquilo tive vontade de arrancar os meus olhos”, disse.

Delano completou dizendo que o filme que ele acha que chegou o mais perto de ter uma adaptação do personagem Constantine é o filme Angel Heart (1987), no Brasil conhecido como Coração Satânico, que tem o personagem principal interpretado por Mickey Rourke.
E parece que Delano prefere mesmo é trabalhar sozinho. O autor declarou que já tentou escrever para o cinema e já teve alguns roteiros aprovados, mas que nunca foram produzidos, e que no final do processo ele não gostou da experiência, “tem muita gente envolvida, prefiro fazer um livro do meu jeito e vender 500 cópias”, concluiu ele.

E o roteirista britânico deixou claro que no quesito misticismo ele não tem nada parecido com o seu compatriota Alan Moore, quando explicou as suas inspirações para escrever as histórias de John Constantine em Hellblazer. “Não sou ocultista e não pratico magia, toda essa parte do personagem eu pesquisei em livros, o resto foi tudo inventado”, e ainda acrescentou que o cinismo de John é baseado em seu próprio jeito de ser.

Falando mais sobre o seu método de escrita, Delano disse que o mais difícil em ser roteirista é começar a criar do nada, e que ele tem um perfil de não ser um roteirista estrategista que programa quantas edições tem que ter e aonde o personagem tem que ir, e que simplesmente deixa a história fluir. Tudo começa com o personagem e o clima que ele vive, e a partir daí ele pensa como seria as ações e as falas. O autor revelou que em muitas ocasiões ele se pegou relendo as suas próprias histórias quando acabou de escrever, porque só no final ele entendia o que estava sendo contado.

Delano apontou o seu método como um dos principais motivos de não gostar de trabalhar com super-heróis, “os editores ditam para onde a história tem que ir e quando vai acontecer. Esse não é o meu estilo. Não sei para aonde a coisa toda vai parar, prefiro que o meu trabalho me surpreenda”, frisou o roteirista.

O roteirista disse a sua opinião sobre o “fim do mundo”, e como essa temática pode influenciar as narrativas, mas que também é um sinal de como a sociedade está retrocedendo e ficando cada vez mais violenta e bárbara. Frisando que era uma resposta baseada em suas convicções, Delano apontou que os roteiros refletem o clima da sociedade, e que ele observa que muitas dessas histórias são produzidas no mercado americano, e que ele fica surpreendido com a quantidade de gente que acredita em anjos e demônios.

Sobre seus futuros projetos, Delano revelou que está sem planos para escrever alguma HQ em 2013, e que nos últimos anos a sua produção foi escassa nessa área. Até agora ele não recebeu nenhum convite, mas se surgir a oportunidade ele teria interesse. No atual momento ele prefere se dedicar a uma série de romances curtos de ficção policial que se passa no futuro, e esse projeto também será uma produção independente. “Escrevi muitas histórias para HQs nos últimos 25 anos e chega uma hora que cansa você sempre ouvir a sua voz”, disse o roteirista que afirmou estar em um novo capítulo de sua carreira, e brincou dizendo que o Poker na internet ocupa muito o tempo.

Para finalizar foi perguntado se assim como outros roteiristas ingleses, Jamie Delano já havia visto alguns de seus personagens no mundo real. O autor comentou que apenas em uma ocasião, quando ele estava no British Museum, teve a sensação de reconhecer uma silhueta e quando ele viu de canto de olho a sombra lhe pareceu ser John Constantine virando uma esquina. Delano tomou a decisão de não ir atrás da sombra, “deu certo medo”, concluiu.

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