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Texto: Dedo Zuka / Fotos: Gazy Andraus

PICHA é uma mostra internacional de quadrinhos africanos e afrodescendentes e estará em exposição no Museu Afro Brasil, dentro do Parque do Ibirapuera.

Como explica o cartaz da exposição: “Picha na língua swahili, ou suali, quer dizer ‘desenho’ e é uma corruptela da palavra inglesa ‘picture’, imagem. Picha também é o título desta exposição de histórias em quadrinhos apresentando uma imagem colorida e rica da diversidade do continente africano.”

É a primeira vez que a exposição se apresenta fora do circuito Europa-Africa. Quando a proposta chegou ao Brasil, a curadora, Sonia M. Bibe Luyten fez questão de acrescentar mais dois artistas à exposição, o brasileiro Maurício Pestana e o estadunidense David Brown, tornando a exposição não apenas de quadrinhos africanos, mas também de afrodescendentes.

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Os outros artistas que participam com seus trabalhos são: Farid Boudjell da Argélia, Hector Sonon de Benin, Didier Kassai da República Central Africana, Bob Kansa de Congo, Barly Baruti e Pat Masioni da República Democrática do Congo, Ramón Esono Ebalé da Guiné Equatorial, Pahé de Gabão, Marghuerite Abouet da Costa do Marfim, Frank Odoi da Quênia, Dwa de Madagascar, Mohammed Nadrani de Marrocos, Kola Fayemi e Tayo Fatunla da Nigéria, Jean-Claude Ngumire da Ruanda, T.T. Fons de Senegal, Adjim Danngar de Chade, Karlien de Villers e Themba Siwela da África do Sul.

Na apresentação estavam os curadores da exposição, a Sonia e o Maurício e representantes da Picha e do consulado americano. Eles falaram da intenção da exposição em mostrar várias facetas da África além da imagen da fome, guerras, etc.

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A seguir, formou-se uma mesa de discussão entrando David Brown, quadrinista dos EUA, Nobu Chinen, pesquisador brasileiro de quadrinhos e David Brooks, cônsul dos EUA no Brasil.

David Brown disse que aquela exposição era muito importante pois mesmo nos EUA é difícil ser um quadrinista afrodescendente. Citou que na associação de cartunistas a qual é filiado, há centenas de membros, mas só uns 12 afrodescendentes e desses, apenas 3 aparecem semanalmente nos jornais. Ele falou que por isso mesmo foi importantíssima a eleição de Obama para presidência e crê que isso ajudará os afrodescendentes a se enxergarem com melhor auto-estima.

Maurício Pestana contou ter começado sua carreira no jornal Pasquim, como assistente de Henfil. Pestana pensava em ir para área de ilustrações publicitárias, mas Henfil disse ser uma tristeza ter poucos cartunistas negros no Brasil e o convenceu a tentar essa área de cartuns políticos.

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Após a abertura democrática, muitos cartunistas abandonaram os temas políticos, o que fez Pestana se sentir ainda mais só, por ser negro e denunciar a pressão que os negros sofriam na sociedade (fora ele, Henfil foi um dos poucos que abordaram o tema).

Quando viajou para Washington, achou que finalmente ia se ver no meio de muitos cartunistas negros falando da opressão, mas constatou que existiam poucos cartunistas negros, e dos quais, apenas uns 3 faziam essa linha política, e assim ficou amigo de David Brown.

Nobu Chinen mostrou sua pesquisa sobre a imagem do negro nas HQs. Disse que no Brasil, os quadrinhos passaram a ser conhecidos como “gibis”. “Gibi” se referia a menino negro, e na publicação chamada “Gibi”, ao lado do título aparecia o mascote da revista que era um menino negro. Mas, apesar disso, o personagem “gibi” nunca apareceu como personagem nessa revista.

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Citou também que para o psicanalista Freud, o humor não é usado apenas para descontrção, mas também para agressão. De forma que pessoas poderiam usar o humor para agredir outras. A imagem do negro nos quadrinhos, até a década de 1950 era muito estereotipada até mesmo dentro de quadrinhos que não eram de humor.

Após esse período surgiram personagens negros não-estereopipados, alguns dos quais eram heróis de histórias de ação.

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Na Turma da Mônica, o Jeremias nunca teve muito destaque, aparecendo como amigo do Franjinha, que já é um personagem secundário em relação à Mônica. Mas recentemente teve uma história em que no clube dos meninos o Jeremias se tornou o novo presidente numa situação que lembrava a eleição do Obama, e ele faz um discurso que remete à Martin Luther King (“eu tenho um sonho…”).

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A apresentação de David Brooks, Cônsul dos EUA no Brasil, foi uma surpresa, pois ele se disse um apaixonado de quadrinhos e mostrou uma pequena apresentação que tinha preparado. Disse que quando criança era um “nerd” e tinha uma coleção de quadrinhos, que tinha um “inimigo”: sua mãe.

Ele lia histórias de Superman, que no final das contas, era um imigrante, pois nasceu em Krypton e veio aos EUA. Disse que numa outra apresentação perguntaram a ele se Superman entrou nos EUA com ou sem visto…

Mas o sobrenome do Superman (Kant) veio da Inglaterra, assim como de Batman (Wayne). Os super-heróis tinham alguma coisa na origem que remetia à Europa, eram ricos e eram brancos. Eles representavam certas idéias da época (mostrou imagens de super-heróis socando Hitler) e apareciam vilões de origem africana ou asiática que eram canibais, que usavam artes marciais para o mal, etc.

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Depois, surgiram heróis negros também. Era interessante ler os X-men não só pela diversidade racial, mas também porque falavam da opressão da raça mutante. Mostrou uma imagem em que um branco e um negro formam um só rosto humano, e nessa história em que o branco é racista, mas é salvo por um negro, mostra-se que o racismo é pequeno perto das questões da humanidade.

Disse que essas idéias culturais, influenciaram toda uma geração, apesar das mães não verem os quadrinhos com bons olhos. O próprio Barack Obama gosta de quadrinhos, sendo fá de Homem-Aranha e Conan. E por fim, mostrou a foto de sua família: Brooks é casado com uma costa-riquenha e disse que isso foi possível por causa das influências culturais que aceitaram a miscigenação. A filha dele inclusive estava lá.

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Após a apresentação, houve um coquetel de confraternização.

A exposição Picha ficará em cartaz até 14 de novembro.

Museu Afro Brasil
Rua Pedro Álvares Cabral, s/nº
Pavilhão Manoel da Nóbrega
Parque do Ibirapuera
O Museu fica próximo ao portão 10 do parque Ibirapuera, em frente Assembléia Legislativa.
04094-050 – São Paulo, SP

Renato LebeauquadrinhosAdjim Danngar de Chade,Barly Baruti e Pat Masioni da República Democrática do Congo,Bob Kansa de Congo,Didier Kassai da República Central Africana,Dwa de Madagascar,Farid Boudjell da Argélia,Frank Odoi da Quênia,Hector Sonon de Benin,Jean-Claude Ngumire da Ruanda,Karlien de Villers,Kola Fayemi e Tayo Fatunla da Nigéria,Marghuerite Abouet da Costa do Marfim,Mohammed Nadrani de Marrocos,Museu Afro Brasil,Pahé de Gabão,Parque do Ibirapuera,Picha,Ramón Esono Ebalé da Guiné Equatorial,T.T. Fons de Senegal,Themba SiwelaTexto: Dedo Zuka / Fotos: Gazy Andraus PICHA é uma mostra internacional de quadrinhos africanos e afrodescendentes e estará em exposição no Museu Afro Brasil, dentro do Parque do Ibirapuera. Como explica o cartaz da exposição: 'Picha na língua swahili, ou suali, quer dizer 'desenho' e é uma corruptela da palavra...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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