retalhos

Visto no Universo Fantástico

Definitivamente, os quadrinhos “cresceram”. Ou, ao menos, parte deles. E não estamos falando dos quadrinhos “adultos”, fantasias de erotismo surrealista ou existencial. Mas de uma nova vertente que vem crescendo a cada ano: a dos quadrinhos-romances.

Em comum, essas HQs literárias têm o traço simples, despojado, bem distante dos arroubos gráficos e efeitos especiais que ilustram as aventuras de super-heróis.

Dispensam também as cores, buscando na essência do preto-e-branco uma representação mais sincera, confessional, sem artifícios.

Pois esta é a principal característica de livros como “Retalhos”, de Craig Thompson, “Umbigo Sem Fundo”, de Dash Shaw, e também “Fun Home”, de Alison Bechdel, e “Epilético”, de David B.

As obras, que hoje dividem as prateleiras das livrarias com romances “escritos”, são autobiográficas e expõem os conflitos mais íntimos de seus narradores/autores com realismo e uma certa coragem.

“Retalhos”

Não há, literalmente, “meias-tintas”. O traço é firme, o contraste é forte. E, no entanto, o desenrolar da história é delicado, toca em temas sensíveis, descortina verdades escondidas. Nas quase 600 páginas de “Retalhos”, por exemplo, Thompson vai fundo em sua difícil formação de homem, tal como nos antigos romances, mas com mais liberdade.

Sabemos que foi violentado, que dormia com o irmão na mesma cama, que se entregava fervorosamente aos ensinamentos da Bíblia ao mesmo tempo que se debatia com os rigores da família, formada por cristãos fundamentalistas, e que se intimidava com os brutamontes da escola, sendo por eles maltratado.

Mas, principalmente, acompanhamos sua primeira incursão no amor, quando conhece a doce Raina num acampamento para jovens cristãos. A partir daí, tudo muda. Craig ganha inspiração e coragem, investe com mais determinação nos seus desenhos, começa a enfrentar a autoridade dos pais e a duvidar da existência de Deus. Aos poucos, com delicadeza tocante, os dois jovens se aproximam fisicamente e têm sua primeira experiência sexual.

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“Umbigo Sem Fundo”

O trabalho de Dash Shaw não é muito diferente, embora o traço seja mais deliberadamente primário e o anti-herói/narrador tenha cara de sapo. Na sua evolução para “príncipe”, o jovem Dash encontra a família em sua casa de praia. Os pais anunciam que vão se divorciar, depois de 40 anos juntos.

O irmão mais velho reage emocionalmente, buscando lembranças no porão da casa, tentando ligar os pontos e entender como foram parar ali. A irmã, ela mesma divorciada, vê-se às voltas com a filha adolescente e espirituosa, que sofre por achar-se feia e com cara de homem.

Aos 25, Dash (na história ele é “Peter”) é tímido, apagado, o típico nerd, meio loser, mas talentoso, inteligente. Entre um baseado e outro, uma masturbação e outra, conhece na praia a bela Kat, garota moderna, liberada, atlética. Apaixonam-se e passam a dormir juntos, de um jeito meio adulto, meio infantil, próprio de primeiras explorações (ainda que, nesse caso, não sejam “primeiras”).

Na obra de Shaw, chama a atenção o enquadramento mais cinematográfico, inventivo, com curiosas soluções gráficas.

Ambos os “romances” têm muito a ver com os anteriores “Fun Home” e “Epilético”. A influência desses livros é, inclusive, assumida por Thompson e Shaw. No primeiro, conhecemos uma típica família americana disfuncional, em que a origem das crises, no entanto, não é assim tão comum. O pai é um homossexual enrustido, que aos poucos vai assumindo sua condição, com tudo o que isso traz de traumático para a mulher e os filhos. Sua filha/autora também assume, adolescente, o lesbianismo.

Há muito do que Cristóvão Tezza chamou recentemente de herança do puritanismo no realismo americano, uma necessidade de relatar a verdade nua e cruamente, algo que fica entre a confissão e o desabafo, a catarse – não sem alguma autoironia.

“Epilético”, sendo obra de um francês, é um pouco menos direto, no sentido moral, e mais exuberante no desenho – mas o assunto é um tanto diferente. Trata das múltiplas tentativas de curar a epilepsia do irmão mais velho do autor.

No longo percurso, que vai das ciências médicas às esotéricas, a imaginação do autor floresce e sua franqueza quase cruel, mas acompanhada de amor fraterno genuíno, conquista o leitor.

“RETALHOS”
Autor: Craig Thompson
Tradução: Érico Assis
Editora: Quadrinhos na Cia.
Número de páginas: 592
Preço sugerido: R$ 49

“UMBIGO SEM FUNDO”
Autor: Dash Shaw
Tradução: Érico Assis
Editora: Quadrinhos na Cia.
Número de páginas: 720
Preço sugerido: R$ 59

Visto no Universo Fantástico

Renato LebeauquadrinhosAlison Bechdel,Craig Thompson,Dash Shaw,David B,Epilético,Fun Home,HQs,literatura,quadrinhos,Quadrinhos na Cia,Retalhos,romance,UMBIGO SEM FUNDOVisto no Universo Fantástico Definitivamente, os quadrinhos “cresceram”. Ou, ao menos, parte deles. E não estamos falando dos quadrinhos “adultos”, fantasias de erotismo surrealista ou existencial. Mas de uma nova vertente que vem crescendo a cada ano: a dos quadrinhos-romances. Em comum, essas HQs literárias têm o traço simples, despojado, bem...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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