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Visto no Gibiteca – por Natania Nogueira

Seja afro-descendente ou não, qualquer brasileiro que goste de quadrinhos tem interesse em saber sobre as HQs africanas. Falar sobre os quadrinhos do continente negro como um todo seria impossível pela sua extensão geográfica e as culturas multifacetadas que existem. Mas é preciso começar por um ponto de partida.

Todos nós conhecemos as HQs que tem como cenário a África, mas não sabemos quase nada do que se publica por lá. O continente é composto por 52 países – de etnias, culturas e religiões diversas -, e na maioria das vezes, as informações e imagens dos quadrinhos nos chegam através do exótico, da informação estereotipada e preconceituosa, seja do ponto de vista europeu, americano, asiático e até mesmo brasileiro.

Nas histórias de aventuras de HQ, a África é mostrada como um lugar misterioso, sem fronteiras definidas, onírico, mítico, legendário, romântico, mas também paupérrimo, primitivo e sem cultura.

O uso de imagens sequenciais gravadas também está presente na antiguidade africana através do registro feito pelos caçadores que expunham os seus feitos nos muros de suas casas com desenhos de animais abatidos. Em algumas culturas negras, o trono dos reis, os templos e locais sagrados eram decorados com figuras e desenhos que contavam em imagens as sucessivas façanhas e histórias de sua gente.

Sem falar do Egito, com uma história de 3200 anos e a Tunísia, cuja antiga capital Cartago, foi fundada pelos fenícios em 814 a.C. Ambos o berço das imagens sequenciais.

Hoje a produção de HQ em muitos países é uma realidade, mas o caminho percorrido foi longo e esteve em função de iniciativas de muitas organizações, associações, exibições e festivais. Esta produção da África negra reflete a tradição oral e as HQs podem ser encaradas como um ponto de articulação entre a oralidade e a escrita, a tradição e a modernidade, e está calcada em três tipos de categorias: revistas ou álbuns de quadrinhos produzidos por europeus; coproduções entre europeus e africanos e, a terceira, de africanos propriamente ditos.

As HQs estão também nos jornais diários, que permitiram em primeira instância aos quadrinhos florescerem e se abrirem ao grande público. Em geral, entre os temas abordados estão à crítica social e política de forma bem aberta, revelando liberdade de pensamento de seus autores às duras custas dentro dos regimes totalitários e censura da imprensa.

Estas conquistas devem-se, principalmente, à atuação das associações de quadrinhos formadas em toda África. Desta forma, a África de Tarzan, do Fantasma e de tantos outros heróis que tinham o continente negro idealizado ou imaginado como cenário muitas vezes preconceituoso, parece bem distante neste novo contexto. Ela foi boa enquanto durou como aventura escapista, fosse pelos duros golpes sofridos na década de 1930 pela população mundial depois da quebra da Bolsa de Nova York ou por puro entretenimento.

A África de hoje, desenhada pelos próprios africanos que veremos na exposição PICHA *, no Museu Afro Brasil, em São Paulo, é que fará povoar nossa imaginação a partir da realidade de seu povo, além de ser um grande estímulo para os desenhistas brasileiros para uma conscientização e percepção comparativa para dentro e em volta de nossa realidade.

Produção em alta, custo baixo

Os quadrinhos africanos vão muito bem! Há desenhistas ativos em todo o continente, muitos Festivais de Histórias em Quadrinhos, revistas e álbuns sendo publicados
No Senegal, por exemplo, há um seriado de televisão muito popular baseado em um personagem de quadrinhos: Goorgoorlu; a vida de Nelson Mandela foi retratada em quadrinhos na África do Sul; muitas revistas estão usando as HQs para alertar os soldados sobre os perigos da AIDS na Etiópia. É surpreendente notar como a produção africana reflete a realidade (política) do continente.

Para se falar de coisas mais leves e alegres é preciso recorrer a subterfúgios. A famosa série Aya de Ypougon, de Marguerite Abouet, da Costa do Marfim, é uma novela gráfica, tendo como foco o amor, brigas e adultério. Mas este quadrinho tem como cenário os tranquilos anos 1970 do país, quando a guerra civil ainda estava muito longe de acontecer.

E na África, as HQs podem ser produzidas por um baixo custo, não é necessário ter diploma universitário e elas são facilmente acessíveis sob o ponto de vista de comunicação. Estes três fatores são favoráveis para um continente com uma infra-estrutura artística limitada.

Existe, no entanto, um problema: os quadrinhos precisam ser distribuídos para serem lidos e, muitas vezes, não existem canais para fazer essa distribuição de forma de forma correta e, mesmo com uma melhora nesse sentido, os quadrinhos – apesar de ser um produto barato – ainda pesa no bolso dos leitores africanos.

Fonte: Revista Raça Brasil

Visto no Gibiteca – por Natania Nogueira

Renato Lebeauquadrinhosafricana,Aya de Ypougon,áfrica,Costa do Marfim,egito,Goorgoorlu,HQs,Marguerite Abouet,Nelson Mandela,Picha,tarzan,tunísiaVisto no Gibiteca – por Natania Nogueira Seja afro-descendente ou não, qualquer brasileiro que goste de quadrinhos tem interesse em saber sobre as HQs africanas. Falar sobre os quadrinhos do continente negro como um todo seria impossível pela sua extensão geográfica e as culturas multifacetadas que existem. Mas é preciso...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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