Uma face de aventura histórica nos quadrinhos Bonelli

Em 2016 a editora Panini retomou a publicação do quadrinho Face Oculta, publicado originalmente na Itália pela Sergio Bonelli Editore. Inicialmente a Comix, de São Paulo, teve a distribuição exclusiva do título, mas a partir do meio do ano de 2017 a HQ chegou às demais lojas. Mas antes, mais precisamente em 2012, a própria Panini já havia lançado os dois primeiros capítulos do fumetti e, devido às baixas vendas, cancelado o título.

A principal diferença entre as edições de 2012 e a lançada em 2016 é que enquanto em 2012 foram lançados dois capítulos em edições separadas, a versão mais recente compila as quatro primeiras edições da série, o que não agradou alguns leitores que já haviam comprado as primeiras edições e tiveram que pagar por elas novamente para poder ter acesso aos capítulos três e quatro, até então inéditos.

História e aventura por Gianfranco Manfredi

O autor da série é Gianfranco Manfredi, já conhecido pelos leitores brasileiros com a série Mágico Vento, que teve suas 131 edições publicadas no Brasil pela Mythos Editora e que atualmente está sendo republicada em formato de luxo.

Em Face Oculta, Manfredi se afasta do famoso faroeste Bonelliano para contar uma história que se passa no período da expansão italiana na Etiópia. O fundo histórico é apresentado por personagens criados pelo autor e que representam diferentes “tipos” da sociedade italiana da época, como a nobreza, os comerciantes, os militares e as camadas populares, tanto do campo quanto de Roma.

A história começa no ano de 1889 quando Ugo Pastore acompanha seu pai, Enea Pastore, à Etiópia como representante de uma sociedade de comerciantes com interesse em fechar negócios no país. Por estarem sempre viajando e em contato com diferentes culturas, Ugo e seu pai são homens cultos, especialistas em negociações e que conhecem diferentes idiomas. Por isso o governador italiano da região pede para que os dois acompanhem um conde chamado Antonelli, que estava firmando um tratado com o imperador etíope Menelik II, pois ele acreditava que a pressa do conde para firmar o acordo poderia prejudicar os interesses italianos.

O tratado em questão era o Tratado de Wuchale, que seria redigido em duas versões, uma em italiano e outra em amárico (o idioma local). Este foi um dos estopins para a Primeira Guerra Ítalo-Etíope, pois enquanto a versão italiana foi redigida dizendo que a Etiópia deveria tratar seus assuntos de política exterior e relações com outras nações através das autoridades italianas, o que a transformaria em um tipo protetorado italiano, na versão em amárico se recomendava apenas consultar o governo italiano nos assuntos que envolviam as outras nações europeias.

No quadrinho, Ugo percebe que as versões estão diferentes, mas por ser apenas um jovem filho de comerciante, sua opinião acaba sendo ignorada pelo conde.

Os personagens e o enigmático Face Oculta

Depois de colocar o leitor dentro desse contexto histórico, Manfredi começa a desenvolver seus personagens. Ugo é retratado desde o início como um jovem culto, astuto e um excelente atirador, que acaba se envolvendo em algumas situações, ora engraçadas ora complicadas, por conta de um problema em seu olho esquerdo, que é mais fechado que o direito. Como diz um personagem no início do quadrinho, é “como se estivesse sempre mirando em algo”.

Diferente da maioria de seus compatriotas, Ugo apresenta uma visão mais humanista e se preocupa com a população local, ficando indignado com a pobreza e as condições de vida do povo enquanto os militares italianos promovem festas e banquetes.

O personagem que dá título a história também é apresentado no primeiro capítulo. Face Oculta é considerado um homem santo por seus seguidores, ele é uma figura capaz de juntar sob seu comando homens de diferentes tribos e religiões. Sua figura lembra muito a do rei leproso Balduíno IV de Jerusalém, no filme Cruzada, um homem que veste um tipo de túnica branca e uma máscara metálica.

Em uma passagem da HQ, Face Oculta chega a uma vila e encontra um homem com lepra, ele se reúne com o homem a fim de lhe amparar e dar assistência, justificando que ajudar os necessitados era um dever sagrado, mas seria essa uma referência?

Sua origem na HQ é tratada de forma quase lendária e sua identidade é desconhecida. Ele é um guerreiro que luta contra o domínio e a expansão de países estrangeiros dentro da Etiópia. A máscara remete a tradição de vários países africanos, que as utilizavam para diferentes fins, ritualísticos, medicinais, entre outros.

O encontro entre Ugo e Face Oculta acontece já no primeiro capítulo e é um dos elementos que vai acompanhar o jovem italiano ao longo de toda a história.

Nos capítulos seguintes, Ugo está mais velho e de volta à Itália. Lá conhecemos Vittorio de Cesari, um nobre militar que atua em exibições da cavalaria montada mas sonha em viver grandes aventuras. Ele se torna um grande amigo de Ugo e com a aproximação da guerra, é ele quem faz a ponte entre Ugo e a Etiópia novamente, anos depois de sua primeira visita.

A outra personagem de destaque é Matilde Sereni, uma mulher jovem e parte da burguesia romana que promove festas e recepções para políticos e militares. Ela é apresentada como uma mulher fascinante e segura de si, que torna-se o interesse romântico de Ugo. A relação acaba se desenvolvendo em um triângulo amoroso entre o protagonista, Vittorio e Matilde.

Através da personagem, Manfredi mostra muito do papel da mulher na sociedade da época, ele conta em um dos textos introdutórios que se baseou em personagens da literatura do século 19 para moldar sua personalidade e criar situações para seu desenvolvimento.

Arte e edição

Cada um dos quatro capítulos é desenhado por um artista diferente, começando por Goran Parlov. Em uma entrevista ao Universo HQ, ao ser perguntado sobre qual artista havia captado melhor a essência de Mágico Vento em seu trabalho, Manfredi respondeu: “Cada um dos desenhistas agregou algo graças à sua sensibilidade. Não quero fazer classificações entre eles. Mas admito que Goran Parlov, para mim, foi o que mais soube dar ‘alma’ à Mágico Vento”.

O que justifica sua escolha para desenhar a primeira edição de Face Oculta. O trabalho de Parlov é muito bom, em uma arte realista ele desenha belas paisagens e cenários bem elaborados, tanto nas mansões dos militares italianos quanto no palácio do imperador Menelik. Massimo Rotundo, Alessandro Nespolino e Ersin Burak desenham os outros três capítulos da edição. O traço de Burak é o mais diferente entre os três, o que causa um estranhamento no começo da leitura, mas os três mantém um ótimo nível na arte.

A diagramação das páginas segue o padrão de outros títulos Bonelli, com um grid de 5 ou 6 quadros bem definidos por página, que variam seu formato apenas para mostrar situações que aconteceram no passado.

A edição da Panini tem 16 x 21 cm, um pouco maior que as edições tradicionais de títulos mensais Bonelli, como Tex, Zagor e Júlia Kendall de 13,5 x 17,6 cm da Mythos Editora. A capa possui orelhas e o papel é Offset.

Um dos aparatos mais bacanas da edição são os textos de Manfredi que iniciam cada capítulo. Neles o autor explica passagens históricas, fala sobre suas referências para compor os personagens e as situações do quadrinho e indica livros que consultou para saber mais sobre a história do período.

Na última CCXP a Panini anunciou que em 2018 serão lançados novos volumes, concluindo a história. Ao todo são 14 capítulos, quatro compilados nessa edição, e provavelmente teremos mais dois volumes com cinco capítulos cada.

Resta aguardar e torcer para que possamos conferir o fim da grande aventura histórica de Manfredi!

Face Oculta Vol. 1
Panini Comics
Roteiro: Gianfranco Manfredi
Arte: Goran Parlov, Massimo Rotundo, Alessandro Nespolino e Ersin Burak
Capa cartão, papel Offset
Preto e Branco
384 páginas
16 x 21 cm
R$39,90

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