Um cenário distópico, onde emerge um Recife pós-apocalíptico é a tela onde o roteirista pernambucano Erick Volgo conta a história de Pindorama. A HQ é a primeira obra do estilo que Erick assina e debate através do universo fictício temas como desigualdade social, corrupção e barreiras do gênero através de uma nova ideia de herói.

Erick materializou o roteiro de Pindorama a partir de um sonho. “Após a previsão da erupção de um vulcão que voltou à atividade no meio do oceano Atlântico, a cidade, assim como outras da costa atlântica, teve anos para tomar medidas e se proteger de um tsunami que resultou num aumento significativo do nível do mar, construindo um muro e diques em sua orla”, adianta.

Depois de um tsunami, metade de Recife resiste protegida por um muro contra a outra metade submersa. O topo dos arranha-céus virou capital do crime, do tráfico e de experimentos macabros, onde as vítimas são jogadas aos tubarões. O chefe do tráfico, conhecido como Coronel, domina a cidade e é rivalizado apenas pela gangue de travestis liderada pela criminosa Maria Bonita. Vítima de experimentos científicos, Samuel desenvolve misteriosos poderes e decide tornar-se um super-herói, o Calango.

As ilustrações são criações do designer Lehi Henri. Tomado pelo cruzamento de referências como Goro Fujita, um designer de origem japonesa e integrante do grupo Dreamworks, e Pascal Campion, um ilustrador franco-americano com atuação em São Francisco, na Califórnia, além de estéticas de anime e do mundo da moda, Lehi traduziu a imagem dos personagens bebendo em fontes distintas e diversas.

A partir daí, o cruzamento com a narrativa cheia de referências do cotidiano e da própria cultura do Estado de Pernambuco e do Recife, fez nascer a identidade visual de todo o quadrinho.

A HQ é a materialização da narrativa criada por Volgo alinhada com a interpretação sensível de Henri. “Em Pindorama, utilizei muitas referências e experimentações. Para colorir, por exemplo, testei várias técnicas, mas a leitura ideal nasceu com a simulação de pintura a óleo com cartoon. Há cenas que são pintadas inteiramente como telas”, explica.

Pindorama diz respeito a palavra tupi que remonta o local mítico dos povos tupi-guarani, significa terra das palmeiras, e seria uma terra livre dos males. Essa associação simbólica a um pré-Brasil idealizado pelos índios, não educado ou catequizado, e uma busca por uma ideologia que denota no próprio significado de seu nome, a possiblidade de sua impossibilidade. Remonta também a ideia do Brasil tropicalista e do movimento antropofágico, de “devoração cultural das técnicas importadas para reelaborá-las com autonomia, convertendo-as em produto de exportação”, mas através de um multiculturalismo crítico, e não apenas de inclusão numa sociedade de consumo.

A narrativa obedece ao clássico dos quadrinhos, feita por um protagonista, em discurso indireto e livre com recortes de passagens próprias de um livro de ficção. Recife aparece como ambiente para uma trama clássica de história de super-herói que discute desdobramentos e dificuldades do gênero, o lugar e ideia de heroísmo, tudo contextualizado com o arcabouço semântico da cultura local com sotaques, gírias e traquejos urbanos que formam a híbrida cultura recifense.

O autor pontua sobre a escolha da cidade para Pindorama acontecer:

“Recife apresenta-se como um cenário perfeito para essa trama, por ser uma metrópole que atende a padrões globais, e é percebida nacionalmente como um polo de grande relevância na região nordeste, onde discussões por uma política afirmativa da diversidade cultural na resistência ao nivelamento hegemônico do mundo globalizado tem ocorrido durante anos”.

Pautado na reformulação de valores, Erick buscou na figura do homem branco o locus para desenvolver seu protagonista, homônimo ao título do quadrinho, Pindorama. “Nosso herói, um homem, branco, hétero, se inaugura segundo os modelos clássicos dominantes, apenas para perceber o homem (e se perceber), como figura opressora. Apesar de homem, ele cresceu inserido num contexto feminino, criado por mãe solteira. Ele percebe que o discurso tradicional dos bons costumes não expõe a realidade e serve para legitimar e exercer a manutenção dos poderes”.

O rompimento do padrão de roteiro para a estrutura narrativa dos HQs também foi ponto chave para a concepção do projeto, que foi financiado pelo edital do Funcultura em 2016.

A história tem até agora, dois capítulos, com mais de cinquenta páginas, onde entre falas e desenhos, os personagens trazem o embate moral entre o certo e errado, dentro de um universo distópico e sistema falido, quando os valores existentes já não funcionam. O super-herói é o próprio agente dessa busca pela renovação dos valores morais, e responsável por estabelecer essa nova moral. Renovar os valores sociais, representar a esperança utópica do sistema e da vida em coletividade.

Pindorama será lançado dentro da primeira edição da Comic Com Experience no Recife, marcada para o dia 13 de abril dentro do Centro de Convenções.

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2017/03/pindorama-6.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2017/03/pindorama-6-150x150.jpgRenato LebeauquadrinhosErick Volgo,Lehi Henri,PindoramaUm cenário distópico, onde emerge um Recife pós-apocalíptico é a tela onde o roteirista pernambucano Erick Volgo conta a história de Pindorama. A HQ é a primeira obra do estilo que Erick assina e debate através do universo fictício temas como desigualdade social, corrupção e barreiras do gênero através...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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