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Iramir Araújo

Para esse post de entrevista realizadas durante o FIQ!2009 (Festival internacional de quadrinhos), separamos duas obras que se baseiam em eventos militares que ocorreram no nosso país, trata-se de Balaiada de Iramir Araújo e Ato 5 de José de Aguiar.

Em agosto Iramir Araújo lançou a HQ toda baseada em pesquisas históricas da Guerra do Maranhão que ficou conhecida como Balaiada, movimento popular que mobilizou homens livres e escravos contra a chamada Lei dos Prefeitos em 1838, e durante a entrevista ele fala como foi esse processo de transformar fatos históricos em narrativa para os quadrinhos e qual é o seu próximo projeto que também será baseado em pesquisas históricas.

Já José Aguiar lançou especialmente para o FIQ!2009 o álbum Ato 5, que se passa na época da ditadura militar e acompanha jovens artistas de um grupo de teatro, ele fala sobre a publicação, seus próximos projetos e como foi o seu encontro com Eddie Berganza, editor da DC, durante o FIQ!.

Não deixe de conferir os links para as galerias de imagens do FIQ!2009 no fim do post!

Acompanhem as entrevistas:

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Iramir Araújo – Balaiada

IHQ: O álbum é totalmente baseado em pesquisas histórias, como foi o processo de transformar os fatos reais em narrativa para as HQs?
Iramir Araújo:
Fiz uma pesquisa bibliográfica, historiográfica e iconográfica para conhecer todos os aspectos da guerra, e ao contrario de alguns outros autores que optam em fazer uma narrativa a partir de um personagem fictício, eu resolvi usar os fatos e o encadeamento, e a linha de tempo, tendo como base não só a descrição da guerra por vários historiadores, como também as cartas entre os revoltosos, os balaios, e Caxias e os seus superiores da corte, e converti essas correspondências em diálogos, para que a história fluísse sem que parecesse superficial ou esquisita, então ela não é “didática”. Ela é uma história lida a partir da narração dos fatos.

IHQ: Por que escolher em fazer uma história de guerra no Brasil?
Iramir Araújo:
Porque eu sempre defendi desde que comecei a ler quadrinhos, e eu gosto muito de ler super-heróis e tudo mais, mas por que nós brasileiros temos que ficar contando histórias de outros? Temos personagens, cenários, histórias, temas, temos aqui uma infinidade de motivos para escrever histórias do Brasil, do passado, presente e por que não do futuro, a ficção científica por exemplo.

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Capa do álbum Balaiada

IHQ: Fora o Balaiada, existe outro projeto baseado em pesquisa históricas em desenvolvimento?
Iramir Araújo:
Estou desenvolvendo uma nova pesquisa que fala da invasão dos franceses no Maranhão, que deverá resultar em um álbum a ser publicado em setembro de 2012, que coincide com o aniversário de São Luís que faz 400 anos. Fora isso eu também produzo histórias para uma série minha que se chama Corpo de Delito, que são histórias policiais que se baseiam na crônica policial da cidade.

IHQ: Para você a pesquisa histórica é um novo jeito de fazer quadrinhos?
Iramir Araújo:
São opções que cada autor escolhe. Como disse antes não tenho nada contra super-heróis, e tem muita gente que faz esse tipo de quadrinho, muita gente faz cartum e histórias infantis. Na minha opinião, o tipo de quadrinho que faço é mais uma forma de conquistar leitores e nesse caso especifico, tentar que os novos leitores também gostem da história do Brasil.

IHQ: Então o seu objetivo é fomentar a cultura brasileira?
Iramir Araújo:
A idéia é basicamente essa. Eu trabalho nessa linha, quero mostrar o Brasil, os cenários, as histórias e os personagens. A nossa história rende milhares de boas HQs.
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José Aguiar – Ato 5

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José Aguiar

IHQ: O que os leitores irão encontrar nessa nova versão de Ato 5?
José Aguiar:
O lançamento foi feito especialmente para o FIQ!, é uma história antiga que André Diniz e eu fizemos em 2003, mas agora ela ganhou uma versão repaginada, digamos que é versão do diretor revista e ampliada. Nós aumentamos o número das páginas, o André reviu o texto, eu alterei algumas artes que não estavam me agradando, por ser um material mais antigo.

Também adicionei tons de cinza para deixar o visual mais elaborado do que era a proposta original, porque esse material foi publicado anteriormente no site da Nona Arte quando eu disponibilizava arquivos para download. Só que o André parou de trabalhar dessa forma e a história saiu da Internet e muita gente não viu.

E agora ela ganha uma sobrevida no meio impresso que foi o que sempre a gente quis fazer, e essa era uma frustração pequena que nós dois tínhamos, porque é uma história que ficou muito tempo guardada e nós dois temos muito carinho por ela.

IHQ: Por que fazer uma HQ que fala sobre o Ato 5?
José Aguiar:
O André tinha um projeto chamado Subversivos e essa história fazia parte originalmente desse projeto, que era para contar em quadrinhos como foram os anos de chumbo, porque ele sempre se interessou pela história do Brasil, tanto que estamos trabalhando agora em um álbum que fala sobre a Revolta de Canudos.

Ele fez essas sete histórias com outros desenhistas, e ele desenhou também histórias dessa série, mas a que saiu mais diferente foi a da nossa parceria porque sempre ele trabalhava o lance da guerrilha e a luta dos estudantes, das pessoas que estavam engajadas conta à ditadura.

Nós acabamos pegando um tema diferente que foi trabalhar uma história de amor naquela época, pegamos um grupo de teatro fictício e a relação entre os principais artistas desse grupo que acaba gerando um triangulo amoroso e tem como pano de fundo a ditadura. O que é interessante na história é que a ditadura é importante, ela motiva muita coisa que acontece na história, mas ela não é o fator principal.

O principal é o desenvolvimento com os personagens e a relação deles com aquele momento histórico específico, tanto que a HQ é narrada em dois tempos, no presente, com os personagens já com mais idade, relembrando como foram àqueles eventos e como aquilo modificou a vida deles, sobre dois pontos de vista, um dos homens do triangulo e da mulher.

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José Aguiar

IHQ: Apesar de não ser propriamente sobre a ditadura em si, como é que foi desenhar um período tão pesado da nossa história? Isso refletiu no seu traço?
José Aguiar:
Refletiu sim, porque a necessidade era fazer um desenho que não fosse tão suave, até utilizei bico de pena para fazer a arte final, e com os tons de cinza consegui captar um pouco melhor a questão do clima, até na gráfica me perguntaram por quê não fiz em tons sépia que daria a impressão de ser algo mais antigo, mas não era essa a opção estética.

Foi interessante pra mim também pelo aspecto de voltar e ver fotos daquela época, até porque no período em que André e eu trabalhamos na história pela primeira vez, pelo menos eu não tinha tanto contato com os eventos que aconteceram, era uma coisa muito distante, hoje já tem um repertório maior sobre aquele período, então pra mim foi bastante elucidativo com relação a muitas coisas, o André me mandou muitas referências, eu assisti filmes sobre o assunto, então já estou mais informado, porque infelizmente a gente cresceu sem saber que aquilo estava acontecendo.

A minha geração e as posteriores não sabem o que foi o regime militar, não sabem o representou na vida das pessoas. Muita gente tem saudosismo daquela época, pessoas que não se engajaram e que não tomaram partidos, e que viveram a margem e que, por exemplo, se preocuparam mais com a Copa do Mundo, que é um momento interessante da HQ, quando os personagens estão assistindo a final da Copa de 70, e ficam no dilema de por que estou comemorando isso ou então dane-se vamos comemorar porque é o Brasil.

Sem falar que pra mim é interessante a questão do teatro, tenha uma proximidade muito grande com esse universo, então adequar isso para os quadrinhos é muito bacana.

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Capa da publicação Ato 5

IHQ: Quais são os seus próximos projetos?
José Aguiar:
Tenho um projeto relacionado ao teatro, que junto ao diretor de teatro Paulo Biscaia da companhia Vigor Mortis de Curitiba, dois álbuns, que estamos escrevendo juntos e que vou desenhar em parceria com o DW, outro artista da cidade. Estamos desenvolvendo o Vigor Mortis Comics, que é transpor o universo das peças do Paulo para o universo dos quadrinhos, porque o universo dele é meio indie, ele é meio HQ, ele sempre faz referências aos quadrinhos e a coisas pops.

Queremos expandir esse universo, mas de uma maneira que o leitor possa entender sem precisa ter assistido as peças, e quem viu com certeza vai se divertir mais. Vai ter bastante violência, humor negro, um pouco de escatologia, mas ainda assim um projeto não porra louca, mas um projeto de quadrinhos que tenha um visual bacana e com roteiros bem desenvolvidos, já que o universo já existe, acabamos trabalhando dessa forma para fazer uma HQ que não dependa das necessariamente das peças.

IHQ: Durante o FIQ! você mostrou os seus trabalhos para o Eddie Berganza, como foi a conversa?
José Aguiar:
O Eddie Berganza foi muito simpático comigo e muito receptivo, e uma coisa que eu gostei e não esperava é que eu tenho um traço muito pessoal, e ele apreciou isso, tanto que falou que vai entrar em contato comigo, a gente vai conversar e vamos ver o que pode acontecer no futuro.

Foi um primeiro contato pra gente ver o que é interessante, mostrei o meu material que já foi publicado no exterior, e ele falou que, por exemplo, algo como o universo do Batman seria algo interessante para a gente conversar. Tomara que aconteça. O futuro é cheio de possibilidades.

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Confira as galerias de imagens sobre o FIQ! 2009:

Galeria 1 | Galeria 2 | Galeria 3 | Galeria 4

Renato LebeauquadrinhosAndré Diniz,ato 5,Balaiada,Eddie Berganza,Iramir Araújo,José AguiarIramir Araújo Para esse post de entrevista realizadas durante o FIQ!2009 (Festival internacional de quadrinhos), separamos duas obras que se baseiam em eventos militares que ocorreram no nosso país, trata-se de Balaiada de Iramir Araújo e Ato 5 de José de Aguiar. Em agosto Iramir Araújo lançou a HQ toda...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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