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No último post relacionado as entrevistas realizadas durante o FIQ!2009, trazemos a conversa realizada com Rafael Grampá, quadrinhista gaúcho que no ano passado lançou Mesmo Delivery, que o colocou em definitivo no patamar de grandes nomes dos quadrinhos nacionais, garantindo-lhe esse ano dois prêmios do troféu HQMIX nas categorias melhor desenhista nacional e melhor edição especial nacional.

Mas Grampá não conseguiu apenas destaque aqui no Brasil, o seu álbum já se esgotou nos Estados Unidos e agora a Dark Horse lançou uma versão especial com alguns extras e já tem programado o próximo álbum do brasileiro chamado Furry Water.

A entrevista foi realizada com a colaboração de Isabela Gaglianone, editora da Multi Editores, que publica O Terceiro Testamento.

Durante a conversa Grampá fala sobre o seu processo criativo, suas técnicas de colorização para a Mesmo Delivery, suas referências, projetos com o cinema, sobre o seu novo projeto pela Dark Horse e revela sobre os contatos de grandes empresas como Marvel, DC e Vertigo, personagens que já ofereceram para ele desenhar e muito mais.

Não deixe de conferir os links para as galerias de imagens do FIQ!2009 no fim do post!

Acompanhem a entrevista:

IHQ: Como foi o processo da escolha da paleta de cores da Mesmo Delivery?
Rafael Grampá:
Eu gosto muito de preto, branco e vermelho, gosto muito dessa combinação. A primeira versão da paleta era mais monocromática ainda, era bem preto, vermelho e branco, só que ai comecei a fazer os estudos e vi que não ia conseguir imprimir só com duas cores, teria que ser com quatro.

Quando decidi mesmo que seria com quatro cores, então eu poderia fazer com quantas cores eu quisesse e abri mais a paleta e fiz umas dez páginas e passei isso para o Marcos Pena que fez as cores baseadas com o que mandei pra ele. O Marcos mandou muito bem, o cara é genial, a aplicação daquelas texturas de manchas de tintas que tem na HQ é meio chato de fazer.

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IHQ: Como foi a colorização das manchas, é tinta na mão ou foi no computador?
R.G.:
Fiz umas manchas em aguada no papel canson e ai escanei as manchas em 1200 dpis, elas ficaram gigantes, e depois o Marcos Pena pegava essa mancha para compor os desenhos para fazer os meios tons. Eu fiz as dez primeiras e ele seguiu até o final.

IHQ: Você já tinha trabalhado com ele?
R.G.:
Nunca tinha trabalhado com ele, eu tinha visto algumas páginas que ele tinha feito para o ilustrador Caco, então liguei pra ele e pedi a indicação de alguém que conseguisse fazer exatamente o que estou fazendo e que seja to crítico como eu e que prima pela qualidade. A princípio eu iria colorir sozinho a HQ, mas não ia dar tempo para lançar na Comicon e eu já não tinha lançado em 2007, por conta do teaser do projeto da adaptação do Dobro de Cinco do Laurenço Mutarelli, e fiquei nove meses nisso e eu não queria mais  esperar para fazer essa HQ então chamei o Marcos.

IHQ: Percebe-se na Mesmo Delivery a influência musical que dá um tom a publicação. Como é que funciona a música no se trabalho?
R.G.:
Eu ouço muita música e tenho que escolher um estilo para o projeto, eu gosto disso para entrar no clima. E esse personagem a princípio ia ser aficionado pelo Johnny Cash, mas ele não é muito performático, então ia ser difícil desenhar e eu já sabia que eu queria desenhar as páginas de ação com uma trilha sonora, então decidi que o personagem ia ser aficionado pelo Elvis, que é mais clichê, mas tudo bem se você faz diferente não fica chato.

E é isso eu gosto de trabalhar com o design e eu ainda sou um pouco designer, então aproveitei o lettering para fazer a composição, porque eu tenho uma certa obsessão de tentar fazer cada página parecer um pôster.

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Capa de Mesmo Delivery

IHQ: Como é o processo de criação desde a concepção psicológica até o biótipo? Durante quanto tempo você estuda os personagens?
R.G.:
Sempre desenhei personagens que estou a fim de desenhar, o que é normal, acho que ninguém desenha o que não gosta. Desenho pouco os meus personagens, o Rufo e o Sangrecco desenhei bastante, mas os outros personagens da HQ eu resolvi na página mesmo. Fiz alguns Sketches dos personagens principais apenas, não gosto muito de ficar fazendo sketches, não tenho esses cadernos, não sento enquanto espero o avião e fico fazendo.

Gosto de desenhar na página de quadrinho. Quando vou criar o personagem eu busco bastante referência sobre o universo desse personagem pode viver, fico imaginando o que ele escutou, viajou, trabalhou e etc.

IHQ: Você cria situações para os personagens do tipo o que ele faria se tal coisa acontecesse?
R.G.:
Não, mas é uma boa dica. Quando eu crio o personagem eu já tenho na cabeça um pouco a imagem dele, e respeito também o free style, quando eu começo a desenhar o personagem e às vezes dá um erro ou alguma coisa diferente eu respeito bastante porque é ai que o personagem ganha personalidade própria, foge um pouco do seu controle e você vira um cara a serviço dele, esses acidentes são bons e parece que foi o personagem que está se impondo.

IHQ: Como é a sua rotina de trabalho e o seu processo criativo cotidiano?
R.G.:
Trabalho bastante de madrugada e eu sou um cara meio dispersivo, então se o telefone toca, pagar conta e essas coisas, tudo isso é muito chato, então prefiro trabalhar a noite que estou totalmente sozinho. Mas ai existe o outro lado que você fica muito solitário, então às vezes eu acordo super cedo para trabalhar e tento manter a rotina, mas ai quando vejo já estou virando a noite de novo e indo dormir as seis da manha, é meio caótico assim.

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IHQ: Quais são as suas referências que não estão relacionadas aos quadrinhos?
R.G.:
O Takashi Murakami é um artista plástico japonês que eu gosto, que é super pop, outros como Basquiat, mas não sei se tenho muitas influências de artistas plásticos no meu trabalho, tenho mais de cineastas como Sergio Leone, Tarantino, Brian de Palma, Takashi Miike, Miyazaki entre outros.

IHQ: Hoje em dia você consegue sobreviver só com os quadrinhos? Você sente falta de algo?
R.G.:
Hoje em dia só com os quadrinhos. Sinto falta de fazer outras coisas sim, sinto falta de fazer algo que eu não tenha que botar tanto o coração, tanta alma em cada quadro em cada traço, sou muito pentelho e tem que estar tudo muito certo, não gosto de fazer nas coxas ou fazer por acabar. Se for difícil vamos lá, não tem problema, estou a serviço disso.

Sinto falta de trabalhar com animação às vezes, mas de dirigir, porque trabalhar com key frame não sinto falta. Tenho vontade de fazer cinema, algo que ainda vou fazer. Vai demorar uns cinco anos, mas vou fazer um curta metragem e depois quero fazer um longa.

Quero que seja em live action, quero dirigir atores. Tenho muita curiosidade e já fui convidado para fazer cinema pelo Heitor Dhália que montou uma produtora nova e infelizmente tive que dizer não.

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IHQ: Você tem vontade em transformar a Mesmo Delivery em animação?
R.G.:
Eu vendi os direitos da Mesmo para o cinema e a produtora que fiz acordo já fez uma parceria com uma outra produtora mega conhecida nos Estados Unidos, então eu acho que esse filme vai acontecer sim. Já começaram a fazer o argumento, mas não quer dizer que vai ser a partir disso porque o estúdio precisa de um pontapé inicial para começar a escolher o roteirista. Estou muito a fim de ver a Mesmo no cinema.

IHQ: Você vai participar na direção do filme?
R.G.:
Não. Isso já foge da minha alçada.

IHQ: Você não se incomoda com isso?
R.G.:
Não porque a minha HQ está pronta. Minha HQ que é o meu trabalho. Eu não tenho esse apego, sei que os personagens podem nem ser o Rufo e o Sangrecco, mas o projeto não vai ser meu vai ser do diretor, não me importo não.

IHQ: A Mesmo Delivery foi publicada nos Estados Unidos pela Dark Horse em uma versão especial com alguns extras como pin ups, estudos e sketches. Quais foram às participações especiais e se tem algum plano dessa edição vir para o Brasil?
R.G.:
Craig Thompson, Michael Reed do Madman, Eduardo Risso do 100 Balas, o Gabriel Bá e o Fábio Moon. Sobre os direitos de publicação que a Dark Horse tem é internacional menos Brasil, porque eu já publiquei aqui e os direitos estão com a Desiderata. Então a versão da Dark Horse não vai sair no Brasil, só se a Desiderata liberar, mas eu acho que não rola.

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IHQ: Mesmo Delivery teria uma continuação?
R.G.:
A Mesmo tem essa cara de ser um episódio de Além da Imaginação, aquela coisa que acaba no susto e você se pergunta se tem continuação e o que vai acontecer com os caras, eu adoro essa sensação, adorava isso quando era moleque e eu continuava as história que eu assistia da série. O projeto da Mesmo foi feita para ter esse estilo, e muita gente pergunta se vai continuar e a reposta é não. Contente-se com essa passagem na vida desses dois caras, essa é a história.

IHQ: Como é publicar nos Estados Unidos e como você chegou na Dark Horse ou eles chegaram até você? Como ela foi publicada no início lá fora?
R.G.:
A Mesmo Delivery nos Estados Unidos é uma HQ totalmente independente com a distribuição da Adhouse Books, que é uma editora small press, porém tem livros de arte do James Jean, do Paul Pope, então ela é super respeitada. A princípio eles gostaria de publicar, mas em preto e branco então eu disse que não porque o projeto era colorido e resolvi bancar tudo do meu bolso do jeito que eu queria e eles se ofereceram para distribuir.

Então a Mesmo fez sucesso e saiu em tudo que é lugar lá e a Wizard dedicou duas páginas, e saiu várias vezes na revista e ela acabou elegendo como melhor debut de 2008, e os editores gostaram e com a Dark Horse foi assim.

A Dark Horse perguntou se eu não tinha nenhum projeto para fazer com eles e como eu tinha uma idéia de fazer autoral, eu apresentei depois de alguns meses a proposta do projeto que eu tinha em mente que é a Furry Water, e depois de algumas semanas e ele responderam positivamente. Foi isso, bem simples, o que aconteceu é que eu acho que eu ficar sentado esse tempo todo na mesa de desenho justificou e os caras gostaram do meu trabalho, e quando eles gostam eles vão te procurar para fazer um monte de coisa.

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IHQ: Você pode falar um pouco sobre o seu novo projeto o Furry Water?
R.G.:
Furry Water é uma série que não tem relação a Mesmo Delivery, é uma história pós-apocalíptica, eu inventei toda uma nova realidade e tudo se passa a partir de uma catástrofe bizarra que se chama Furry Water que na real seria Água Peluda. Os personagens estão envolvidos com uma nova religião, porém com códigos de honras familiares e coisas bizarras muito loucas.

IHQ: Tem alguma previsão para o lançamento de Furry Water?
R.G.:
A previsão é lançar no primeiro semestre do ano que vem pela Dark Horse.

IHQ: Durante o FIQ sempre estão te perguntando e você reafirma que não está no seu auge e que você acha que está longe disso. Tem alguma coisa na Mesmo Delivery que você faria diferente hoje?
R.G.:
Tem. Toda ela. Eu não fico pensando muito nisso, e agora que você me perguntou eu pensei aqui que nunca mais abri a Mesmo. Eu não fico olhando para os trabalhos passados, porque de repente se eu olhar e gostar de alguma coisa eu vou querer me repetir. Eu toco o barco, eu tenho muito que evoluir.

Acho o meu traço muito pesado ainda, e talvez a quantidade de detalhes exprima um pouco uma certa insegurança. Considero que o caminho natural de todo artista é ele achar o núcleo do seu trabalho e tirar a gordura fora, igual quando você prepara uma boa picanha. Eu acho que vou evoluir em termos de simplificação do meu trabalho, e isso já dá pra sentir na Furry Water, continua detalhado e tudo, dá pra ver que sou eu, mas estou gostando mais, porque estou evoluindo o meu traço está mais solto.

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Pin Up de Rafael Grampá para o pesonagem Demolidor da Marvel

IHQ: Durante o bate papo no FIQ! você revelou que os convites para fazer os pin ups de super-heróis não foram a toa. Você tem mais convites para desenhar outros personagens?
R.G.:
Eu falei que não foi à toa porque eles querem que eu faça trabalho para eles, já recebi proposta da Marvel, da Vertigo, da DC. Não acertei nada com ninguém porque tenho muito trabalho para fazer na Furry Water, o álbum terá 200 páginas então tenho muita coisa ainda pela frente. Nem adianta revelar nada porque não tem nada para agora. Conversei bastante sobre os personagens, falei quais que eu gosto.

Me convidaram para fazer um monte de personagens, ano passado me chamaram para assumir o Punho de Ferro e não topei porque não gosto muito do personagem, e a partir daí surgiram outros que estamos conversando ainda. Vamos ver se vai rolar ou não.
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Confira as galerias de imagens sobre o FIQ! 2009:

Galeria 1 | Galeria 2 | Galeria 3 | Galeria 4

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