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Durante o FIQ! 2009 muitos nomes ilustres dos quadrinhos nacionais e internacionais compareçam as mesas de debates e bate-papos, e entre os nomes nacionais estava Luis Gê, que participou da mesa “Versão em Quadrinhos”, que contava também com os nomes de André Toral e Srbek.

Luis Gê é um expoente dos quadrinhos no Brasil e editou a revista Balão que foi a primeira revista alternativa brasileira de quadrinhos underground e revelou nomes como Laerte, Angeli, Paulo Caruso e outros. Após uma parada de 20 anos sem lançar um álbum, em junho, o quadrinhista retornou com a adaptação de O Guarani, de José de Alencar, para os quadrinhos.

Na entrevista Luis Gê fala sobre o seu retorno com o álbum Guarani e as dificuldades que teve na produção, quadrinhos na universidade, e sobre a questão das adaptações de literatura para HQs, o que gerou um importante debate durante o FIQ!2009.

Não deixe de conferir os links para as galerias de imagens do FIQ!2009 no fim do post!

Entrevista:

IHQ: Após uma grande pausa nos quadrinhos você retornou com o álbum o Guarani, por que voltar agora e com uma adaptação?
Luis Gê:
Acho que a questão da adaptação foi só uma forma mesmo de retornar, na realidade eu estava bem de espaço para voltar quadrinhos e eu fui meio que atropelado por esse projeto. Então já era pra eu estar com algum projeto meu há algum tempo, mas esse entrou na frente.

IHQ: Você teve alguma dificuldade em produzir o álbum?
Luis Gê:
O único problema que eu acho é que tomou muito tempo, foi um trabalho realmente pesado. O Guarani é um livro enorme, e tinha que reduzir e mesmo assim para a questão dos quadrinhos ela é muito trabalhosa. Uma das questões do álbum é o numero de quadros por páginas e isso me pegou de surpresa. Como todo quadrinhista eu sei que é legal fazer até um determinado ponto para dar mais liberdade ao desenho, mas nesse caso eu tinha uma média de 15 ou 16 quadros por página, e isso toma um tempo que eu pensei que fosse muito mais rápido. Talvez fosse mais ágil se tivéssemos conseguido dividir com menos quadro por página ou se desse pra ter mais página.

IHQ: Por que você parou de produzir quadrinhos?
Luis Gê:
Nessa questão da pausa, ela não é uma coisa totalmente vazia de quadrinhos. Nesse período eu desenvolvi vários projetos, várias histórias que estão em estágios diferentes, algumas já bastantes desenvolvidas com mais material, e outras estão mais no começo. Além disso, faço outras coisas relacionadas a quadrinhos, como o meu trabalho didático em relação aos quadrinhos, que é uma questão interessante que eu acho que uma hora valeria a pena publicar. Foi um período que não saiu nada, mas ao mesmo tempo teve bastante pesquisa e reuniões de idéias e possibilidades.

IHQ: É um retorno definitivo de Luis Gê aos quadrinhos?
Luis Gê:
Isso só o Brasil poderá dizer. As paradas da gente têm a ver com a nossa realidade e as dificuldades que a nossa área têm, que não são nenhum pouco pequenas, pelo contrário, são bem complicadas e te enrolam e não deixam você produzir do jeito que você deseja. Já tem algumas coisas se delineado, e acho que dá pra continuar a fazer outras coisas, mas é algo que apenas a realidade poderá dizer. Eu pretendo dar continuidade.

Além dos novos projetos, existem várias publicações que precisam ser feitas de material meu que nunca tiveram uma edição como livro ou algo que reunisse. Existe o República, que é o primeiro trabalho de quadrinhos que mexeu com São Paulo diretamente, que desenhava a cidade, e estou mexendo nele para tentar publicar. Tem a história da Avenida Paulista que só saiu pela Goodyear e nunca mais foi publicada para livraria com direcionamento para o mercado.

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IHQ: Existe algo certo para o álbum da Avenida Paulista?
Luis Gê:
Tem coisas rolando com editoras para dar andamento para os meus projetos, então creio que logo mais essas coisas podem estar saindo.

IHQ: Há vinte anos atrás você participava de um grupo que lutava pelos quadrinhos quando eles eram marginalizados. Hoje você é professor de uma universidade respeitada em São Paulo que ensina a disciplina de quadrinhos. O que mudou nesses vinte anos?
Luis Gê:
Pra falar a verdade eu acho que a coisa de quadrinhos na universidade surgiu nos anos 70 em uma época que houve o boom dos quadrinhos, onde houve o momento em que quadrinhos ganharam status, então várias faculdades no Brasil fizeram curso de quadrinhos, só que em geral são curso mais teóricos, são cursos que estudam a história das HQs, que criticam e analisam as histórias em quadrinhos. Acho que um dos únicos lugares que não desativou o curso de quadrinhos com o viés de aprendizado e de ser mais prático, dos alunos aprenderem com q linguagem, foi a universidade que eu leciono.

Acho que provavelmente o fato de eu estar lá, fez com que aquilo continuasse com força total e até aumentasse, hoje em dia dobrou a carga, temos dois semestres em vez de um. O primeiro é mais formal sobre o desenho e o segundo é direcionado a roteiro. É difícil você ter alguém na universidade que tenha uma formação de quadrinhista e que possa ensinar em faculdades onde se tenha o desenho como uma das linguagens básicas, e o curso de design tem isso. Eu acho tudo isso muito bom, porque quadrinhos se envolvem com muitas questões do design e das artes visuais e dá a base para os alunos se expressarem não só nos quadrinhos, mas em um monte de coisa. Ajuda na fotografia, na animação, em vídeo, na questão do design em si, porque envolve composição, enquadramento, claro-escuro e etc.

E também tem uma outra coisa, os quadrinhos ajudam o aluno a ser mais autor, a produzir uma coisa que parta dele, não é só fazer um trabalho que é pedido pelo um cliente com determinados parâmetros. Os quadrinhos ajudam também na questão da iniciativa do artista estar se expressando.

IHQ: Os quadrinhos academicamente falando estão inseridos em outro curso, como Design, você acha que chegaremos a ter uma faculdade com um curso de quatro anos sobre histórias em quadrinhos?
Luis Gê:
Acho que ai é uma questão de equilíbrio com o mercado, se ele tiver vazão para esse tipo de coisa, ai terá sentido em fazer algo assim. Se ele continuar sendo essa batalha que a gente vive, com as dificuldades para o artista ter continuidade no trabalho dele, talvez seja exagerado ter uma faculdade de quatro anos. Não que não houvesse matéria ou necessidade de desenvolvimento de habilidades que requeiram um monte de questões. Quadrinhos é algo que requer demais, tem que ser bom em desenhar, narrar, linguagens e tem que ser bom em uma série de coisas que talvez seja difícil reunir todas essas qualidades em uma pessoa só. Mas o principal é o mercado e não a faculdade estar organizada pra isso.

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IHQ: Com as adaptações de literatura para quadrinhos, você acha que podemos estar andando em uma ponte perigosa, e as editoras só interessarem por esse tipo de publicação para os programas do governo, e o quadrinho autoral perder espaço?
Luis Gê:
De forma alguma. Acho que isso é um passo a mais. Na mesa que acabamos de passar, acho que viram as coisas muito estaticamente, e se basearam em uma única situação dada no momento. Se você analisar a história das histórias em quadrinhos no Brasil, isso é um passo além, e não podemos estar pensando estaticamente porque isso pode estar avançando, e realmente está. A Ática que é uma super editora em relação a livros didáticos, e agora está começando a engatinhar nos quadrinhos, e outras editoras que começaram a fazer esse tipo de publicação, já estão produzindo quadrinhos autorais, porque elas estão sacando que é importante ter as duas coisas e que tem caminho.

IHQ: Você foi editor de revista em quadrinhos e lançou grandes nomes no mercado. O que você está acompanhando no mercado nacional que você acha que está em uma boa direção?
Luis Gê:
Eu acho que está cheio de coisa boa, com bons desenhistas, como sempre eu acho que faltam roteiristas. Faltam caras que tenham mais coisas para dizer e narrar isso. Tenho visto muita coisa interessante, tenho visto essa questão das editoras publicando, tem uma cara mais consistente que em momentos anteriores que não tinha um número suficiente de artistas e editores trabalhando juntos. Agora parece que existe um entrosamento maior que deixa a coisa mais forte. Não tenho muito acesso ao mercado independente, situações como eventos como esse em que o pessoal me dá livro e revista ai eu olho e leio.

É um mercado difícil de acompanhar, porque você não sabe quando vai sair e aonde você vai encontrar, mas toda vez que vou a alguma livraria eu olho. Agora aqui durante o FIQ! me entregaram muita coisa legal, com desenhos bacanas, não deu pra ler ainda, mas visualmente estão bem resolvidos e interessantes. Eu não tenho muito contato, mas é super importante, porque é essa a escola para os novos desenhistas, são esse tipo de revista que permitem que o cara desenvolva o trabalho dele, e cria um substrato para um plano de divulgação maior.

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Confira as galerias de imagens sobre o FIQ! 2009:

Galeria 1 | Galeria 2 | Galeria 3 | Galeria 4

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