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Dando continuidade aos post de entrevistas realizadas durante o FIQ!2009, hoje postaremos a conversa com o quadrinhista Marcelo Lelis reconhecido nacionalmente pela a sua técnica de aquarela nas HQs.

Lelis é autor do elogiado Saino a Percurá, lançou no mês de maio desse ano o álbum Last Bullets na França e recentemente compôs o time dos 50 quadrinhistas convidados para o álbum MSP 50, que homenageia Maurício de Souza, com uma história do Chico Bento.

A entrevista foi realizada com a colaboração de Isabela Gaglianone, editora da Multi Editores, que publica O Terceiro Testamento.

Durante a entrevista Lelis fala sobre o seu processo de criação e de execução da sua técnica de aquarela, e ainda confere o que o autor acha sobre publicar na França, decobre um pouco mais sobre Last Bullets e descobre qual é o novo projeto do quadrinhista.

Entrevista:

IHQ: Gostaríamos de começar dando uma breve introdução do seu trabalho para os leitores, quantas HQs você já publicou?
Lelis:
Fiz duas HQs pessoais, e outras que participei como uma ou duas histórias, e o livro Cidades do Ouro, que não é uma história em quadrinhos, são contos que ilustro com as cidades históricas de minas.

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IHQ: Como foi o processo de produção para desenvolver o livro Cidades de Ouro?
Lelis:
O projeto da editora é o seguinte: ela manda o artista para a cidade durante 15 dias, e ele fica lá conhecendo as pessoas, fotografando, desenhando, absorvendo o que a cidade tem. Ai o artista volta para a casa e conta tudo o que sentiu da cidade. Visitei cinco cidades e durante esse tempo eu percebi como as pessoas encaram e se sentiam em relação onde elas estavam. A partir daí eu desenhei e escrevi histórias sobre o que eu vi.

IHQ: O que você usou como referência visual?
Lelis:
Eu busquei muita coisa na Internet em relação a imagens, mas principalmente o que eu senti da cidade. Não sou do tipo de pegar uma foto e reproduz fielmente, tanto que o livro não é assim, na obra existem muitas interferências minhas.

IHQ: Quando você produz uma HQ autoral quais são as suas referências para o processo de criação?
Lelis:
Raramente uso imagens para referência porque as coisas já estão dentro da minha cabeça e o que eu pretendo fazer, por exemplo, posso fazer uma cidade histórica dentro do quadrinho, mas eu nunca vejo como é a igreja, porque eu já sei como vou fazer e como vou construir uma igreja barroca. Pra mim não importa se é uma igreja de São Francisco de Assis, por exemplo, aquela imagem não me diz nada, o que me importa é como eu vejo uma igreja barroca. E as pessoas também, eu nunca desenho fielmente, eu sempre primeiro na minha cabeça e depois vai para o papel.

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IHQ: Essa interiorização é percebida em Saino a Percurá, que você retrata o universo do interior brasileiro. Isso é reflexo em todos os seus trabalhos?
Lelis:
Sou do norte de minas, lá eu ia muito para a fazenda quando eu era criança, e todo esse palavreado todo veio de lá. De uma certa forma isso entrou para a minha cabeça. Eu não pensava em ser ilustrador ou quadrinhista e quando eu sentei para fazer três histórias que eu queria fazer para o livro isso tudo veio de uma vez, tudo o que eu vivi e aqueles tipos todos. Só que a trama toda da história eu criei, e isso é que eu acho legal dos quadrinhos, é lógico que dá para criar uma ficção científica com coisas de outro planeta, mas o legal também é você fazer coisas ao seu redor, sejam elas de belo horizonte agora ou da minha infância, ai você consegue ser universal.

IHQ: Você tem um estilo com a técnica de aquarela que é bem particular, como é o seu método de trabalho quando você está na mesa de desenho?
Lelis:
Na verdade nunca freqüentei escola, então tive que descobrir algum modo de fazer aquarela de um jeito mais prático porque sempre trabalhei em jornal, não tem que ser algo rápido, então descobri algumas fórmulas de fazer com mais rapidez. Mas antes da aquarela vem o lápis, porque a aquarela essencialmente é o desenho, e é preciso que você estruture o desenho, para dar uma personalidade a ele, ou seja, você tem que estruturar todo o trabalho no lápis porque a tinta é só o recheio do desenho. Como nós precisamos de uma estrutura o desenho também precisa do lápis.

Faço isso basicamente em um papel comum, depois que eu consigo a forma que eu queria, passo o desenho para um papel de aquarela através de uma mesa de luz, onde tiro os traços essenciais que eu preciso. Faço isso porque se eu fizer o esboço em cima do papel de aquarela, corro o risco de riscar o papel todo, e manchar e prejudicar quando eu for jogar a tinta ele pode absorver mais ou menos. Então prefiro transferir por último para o papel de aquarela e só depois disso começo a pintar efetivamente.

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IHQ: Como você consegue dar a luminosidade que você alcança em sua aquarela?
Lelis:
A luminosidade no meu caso é 100% o papel. Nunca uso algum tipo de corretivo ou tinta branca. Quando vou pintar eu faço uma base primeiro que vou deixando alguns pontos onde imagino que serão as luzes, mas nunca é planejado, vou descobrindo as luzes durante o processo.

IHQ: Como é publicar na França?
Lelis:
Adorei publicar lá porque é um mercado muito profissional, acho que é o mais profissional que existe, e também é muito exigente. E o interessante no mercado francês é que as pessoas pegam e simplesmente não vêem o livro, elas lêem o livro. O publico pega a imagem e o texto e a partir daí fazem críticas, e no meu caso foram positivas para o meu ego e também no sentido de me apontar o que está errado, o que eu preciso melhorar. Raramente você vê isso no Brasil, alguém ler o livro completo e dizer “na próxima vez é você tem que fazer desse jeito”.

IHQ: Mas foi a editora ou o público que disse isso?
Lelis:
Normalmente é a agente especializada. A editora simplesmente publica.

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IHQ: Como foi o contato com a editora francesa?
Lelis:
Chegaram até mim através do blog. O escritor francês viu o meu trabalho e Lelis: me propôs o projeto e daí surgiu o livro.

IHQ: Sobre o que fala Last Bullets?
Lelis:
Last Bullets fala sobre a guerra da secessão americana, e o título é inglês para não fugir mesmo do tema que é um universo bem americano, e tem algumas coisas do folclore francês como duendes. Adoro misturar essas coisas, e a história é bem maluca parecida com o meu desenho, bem visceral, então esse conjunto ficou bem interessante.

IHQ: Last Last Bullets é uma publicação francesa, que fala sobre a história americana e desenhada por um brasileiro. Todo esse processo foi tranquilo?
Lelis:
Não foi simples. Você precisa ter um bom tradutor on-line e muita paciência. E pra mim não tem mistério não, mesmo que você não fala a língua fluentemente você se comunica, você que trabalhar você acaba falando francês, inglês ou espanhol e por ai vai. Na verdade não tivemos problemas de linguagem, talvez um termo mais específico, mas desde o primeiro momento essa questão foi facilmente resolvida apesar de estarmos em paises diferentes.

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IHQ: Para finalizar, você está desenvolvendo algum novo projeto?
Lelis:
Estou começando a fazer o Clara dos Anjos para a Cia das Letras, que é um texto de Lima Barreto. Quero levar um ano e meio para terminar, então provavelmente no FIQ! de 2011 deve estar pronto para o lançamento.

Tenho um projeto pessoal, mas não tenho editora para ele ainda. Estou começando a rascunhá-lo então não posso falar porque não tenho nada concretizado. Também estou tentando relançar Saíno a Percurá com mais histórias e fazer uma edição nova um pouco maior.

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Confira as galerias de imagens sobre o FIQ! 2009:

Galeria 1 | Galeria 2 | Galeria 3 | Galeria 4

Renato LebeauquadrinhosDando continuidade aos post de entrevistas realizadas durante o FIQ!2009, hoje postaremos a conversa com o quadrinhista Marcelo Lelis reconhecido nacionalmente pela a sua técnica de aquarela nas HQs. Lelis é autor do elogiado Saino a Percurá, lançou no mês de maio desse ano o álbum Last Bullets na França...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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