O espaço dentro da Comic Fair dedicado às produções independentes, a Fanzine Expo, nos revela gratas surpresas.

A primeira delas, já não deveria ser surpresa para ninguém: a qualidade do material independente. Aqui, é possível encontrar trabalhos com uma qualidade espantosa, tanto em desenho quanto em roteiro.

Como é o caso de Vidas Imperfeitas, fanzine criado por Mary Cagnin (e que teve uma resenha publicada aqui no site recentemente, clique aqui para conferir) e que fala sobre amor e amizade. “É basicamente a história de uma garota que é vista como agressiva e violenta, mas que não é só isso. Ai, ela encontra uma pessoa que finalmente decide conhecer um outro lado dela”, informa a autora.

Na Fanzine Expo, Mary também estava com seu portfólio, que surpreende a todos pela beleza de seus desenhos. “Nem todo mundo sabe o que é fanzine e acham que é algo de qualidade inferior, mas percebo que isso está mudando, as pessoas estão valorizando mais e espero que com isso a divulgação de fanzines aumente também”, disse esperançosa.

Mary Cagnin, autora de Vidas Imperfeitas

Outro trabalho que chama atenção pelo acabamento gráfico é o projeto XDragoon, de Felipe Marcantonio, artista freelance e professor de animação, que viaja pela segunda vez de sua cidade natal, Boituva/SP, para divulgar seu trabalho no Anime Friends.

Trabalho que começou a ser produzido em 2008 e fala sobre dois Dragões que acabam caindo na Terra e são auxiliados por uma garota chamada Renata, uma grande amizade nasce entre o trio que passa a viver algumas aventuras juntos, como a caçada que alguns perseguidores fazem aos dragões.

O trabalho já conta com 9 capítulos “com 48 páginas cada”, informa o autor, e pode ser lido gratuitamente na internet (num site que tem também tradução para o inglês).

Felipe Marcantonio, autor de XDragoon

“Online são mais de 400 páginas totalmente em cores, o zine [material que Marcantonio está vendendo na Comic Fair] é um material exclusivo, uma história fechada com alguma ligação, mas não necessária para o entendimento da história principal”, diz o autor que usa o evento para avaliar a reação das pessoas ao vivo, “porque na Internet é muito frio. Eu quero ver a reação das pessoas. Muita gente que conhece o site vem aqui falar comigo. Até as críticas são muito importantes”, explica.

O alcance do projeto inclui a publicação de uma HQ curta na revista NeoTokyo nº53 e até uma animação, em cores, de 10 minutos – com legendas em inglês.

Confira abaixo a animação de XDragoon:

Outro projeto ousado presente no evento chama-se Contos de Karma, que relata a história da queda da cavalaria britânica. Ousado porque tem planos de ultrapassar o 15º número. No evento, Douglas Himikun, desenhista da obra, divulga apenas uma edição de apresentação do projeto. “Estou conversando com uma editora, mas com ou sem editora a idéia é publicar a obra”, enfatiza.

Douglas Himikun, autor de Contos de Karma

O desenhista revelou que também pretende traduzir o trabalho para o inglês, espanhol e também disponibiliza-lo na Internet. “O objetivo é alcançar e agradar o maior número possível de pessoas”, revela Douglas que começou a se interessar por quadrinhos justamente numa das edições do Anime Friends. “Eu já desenhava, mas foi no Anime Friends que me aproximei dos quadrinhos e onde comecei a bolar a história da HQ”.

15 edições também é o número que pretende alcançar Mário C.Silva com sua HQ “Essência”.

Questionado se o fato da incerteza do público quanto a continuação ou não de trabalhos independentes não seria o principal motivo dela falta de um público maior, Mário apresentou sua solução: “eu faço cada capítulo de um jeito que as pessoas entendam sem ter que ler o próximo.”

E sobre o que trata sua HQ? “É uma comédia romântica sobre uma menina que gosta de ajudar as pessoas, mas não consegue ajudar a si mesmo – ela tem um problema que faz com que ela nunca sorria e os olhos não vire”. Apesar desse argumento, Mário jurou se tratar de uma comédia romântica.

Mário C.Silva, autor de Essência

“As situações no decorrer da história e os personagens de apoio trazem os elementos da comédia”, garante o autor cuja mesa, cedida pela produção para todos os fanzineiros, parecia mais uma barraca de camelô tamanha a quantidade de produtos expostos.

“Estou vendendo imã de geladeira, mousepad, caderno de desenho, bloco de anotação, chaveiros de metal e de plástico, latinha, caixa porta treco, postais, camisetas e pôster”, diz Mário que revela ser essa uma técnica para diminuir o tempo entre suas publicações: “Ás vezes você não consegue um bom tempo entre uma edição e outra, ai em dez dias você cria um produto com os personagens e enquanto a pessoas estão esperando pelas novas histórias, elas compram algum produto do personagem”.

Além de Essência e dos objetos, na mesa de Mário C. Silva ainda sobra espaço para comercializar outras publicações em que participa, como as revistas Ressonância Plus, Subterrâneo e Projeto Continuum.

Roger Beat Jesus e William Busa, do zine Sagrado Brutal Core

Um projeto não tão ousado assim, mas diferente – principalmente em se tratando de fanzines – é a 5ª edição do zine Sagrado Brutal Core, dedicada à música eletrônica e que vem com um CD com novas bandas da cena “são bandas novas que estão se destacando na cena jovem e vão estourar em um ou dois anos”, garante Roger Beat Jesus, um dos responsáveis pelo zine, que segue bem o padrão tradicional das primeiras publicações independentes a base de Xerox e colagem. “Isso nos diferencia da maioria dos fanzines aqui no espaço”, diz Roger.

Além do Sagrado Brutal Core, Roger e seu parceiro William Busa, divulgavam também o fanzine Introspecção, “o foco do Introspecção é causar reflexão – usamos um personagem jovem justamente por ele estar em faze de crescimento e tem medo da vida devido a incertezas. Nosso trabalho é mais sombrio para se identificar com os medos que todos os adolescentes têm nessa faze”, explica Roger, que além de suas publicações também estava divulgando trabalhos de amigos, como edições especiais do projeto Humor em Quadrinhos e o NFL Comics.

Wallace Nunes e o seu Sei Lá Zine

Obviamente, nem todos na Fanzine Expo, tem trabalhos ousados de 15 edições ou animações que ajudam a divulgar o trabalho. Ainda há muitas pessoas que fazem fanzines de forma bem despretensiosa. Como é o caso de Wallace Nunes e o seu Sei Lá Zine, “um compilado de tudo que eu crio: quadrinhos, crônicas, poemas, textos, pensamentos, reflexões, enfim tudo”, diz o autor que mantém um blog de mesmo nome do zine desde maio de 2009, “todo o conteúdo do zine eu posto primeiro no blog, ai compilo e faço impresso nesse formatinho pra sair mais barato pra todo mundo”.

E qual das mídias te dá mais repercussão? Pergunto. “O blog a repercussão é geral, o mundo inteiro pode vê – o impresso tem o contato imediato, a pessoa lê e te fala o que achou na hora. No blog muitas pessoas têm acesso, são muitas, mas não todas, o impresso atinge o restante”, compara Wallace que confessa ser essa sua primeira vez divulgando fanzine no Anime Friends.

“Eu sempre fiz, mas nunca tive coragem de vir vender, tinha vergonha, achava o desenho fraco – agora com esse aqui eu resolvi meter as caras”. E como está a reação das pessoas? “Tá indo bem, a galera tem curtido e eu tenho divulgado – é isso que importa”, finaliza.

Ricardo Bastos, autor de Sky of Bolt

Outros trabalhos mais curtos e despretensiosos são Sky of Bolt, de Ricardo Bastos, “sobre uma sociedade que passou por uma 3ª guerra mundial e mostra como ela esta se reerguendo. A trama é focada em um bracelete muito poderoso. Narra uma disputa pra ver que fica com esse bracelete”, diz o autor.

Na verdade, não é um trabalho tão despretensioso assim, tem duas edições já impressas e uma prestes a ser lançada. “Ai eu vejo como será a aceitação do público e [dependendo da reação] já tenho programado uma segunda saga para a história”, informa Bastos que nos revelou que planeja a HQ há muito tempo: “Eu comecei o trabalho ano passado, mas a história, desenvolvo desde os meus 10 anos”.

Giovana Werneck, autora do zine Nekrônicas

uem desenvolve trabalho a menos tempo é Giovana Werneck, autora do zine Nekrônicas desde 2008. “Eu desenho a muitos anos, mas o zine eu faço a dois. É uma comédia romântica com histórias de gatinhos, eu fico brincando um pouco com clichês dessas histórias”, diz a autora que deixa claro que o trabalho não tem nenhuma referência à necrotério, necromancia ou coisas do gênero.

“Não, não, o nome é a junção da palavra crônica com neko (gato em japonês), mas já confundiram”. O detalhe curioso do zine é que ele é feito “com o intuito de brincar e satirizar os principais clichês de mangás yaois e um pouco os de hentai, principalmente aqueles que envolvem nekos”, diz o texto de apresentação do site do fanzine.

Com tantas referências curiosas, como tem sido a repercussão do material? “A gente vê que o interesse não é tão amplo como o de mangás de editoras, porque são mangás conhecidos, a produção é mais profissional etc., mas quem gosta sempre volta. A gente reencontra pessoas que querem ver os próximos capítulos. Mas é meio difícil, a venda dos fanzines não cobre o que a gente gasta para produzi-lo, mas para fazer é muito bom, muito gratificante”, finaliza.

Daniel Cavalcanti, editor da revista Quadrizine

Como o leitor já pode notar, muitos dos fanzines participantes da Fanzine Expo, sabiamente, tem uma forte relação com a web. E o trabalho da revista Quadrinize não é diferente.

“A revista é um suplemento do site. A cada seis meses vai sair um impresso para complementar o material do site”, informa Daniel Cavalcanti, editor da revista, que complementa: “a Quadrinize é uma revista [teórica] sobre criação e produção de quadrinhos. Abordamos desde a concepção de uma idéia comercial, até a publicação e distribuição do projeto”.

Além disso, a revista traz matérias e dicas de como montar um portfólio, roteiro de quadrinhos, criação de personagens, ambientação de sua história entre outras matérias interessantes.

Heidy Candy

Finalizando nosso giro pela Fanzine Expo, eu tive o grande prazer de conhecer Heidy Candy, que esta divulgando o trabalho de suas alunas intitulado “Akatsuki em: colegas de Quarto”, “um sarro com os vilões da Akatsuki [grupo de vilões do mangá Naruto]”, informou Heidy, que nós contou também toda a sua árdua tarefa de levar um curso de desenho para um bairro distante na cidade de São Paulo e desprovido de atividades culturais.

“No Brasil tudo é difícil, em São Paulo também. Na zona leste [de são Paulo] então…”, desabafa a professora. “Eu apresentei o projeto [das aulas de desenho] em diversos lugares no bairro, mas só uma escola de computação acreditou na idéia e fez um preço compatível com a realidade do pessoal da região”, diz. Durante as aulas, duas alunas se destacaram bastante e propuseram a criação de um fanzine – que agora a professora ajuda a divulgar no Anime Friends.

As autoras do zine Akatsuki em: colegas de Quarto

“As meninas têm 18 anos e esse projeto serve mais pra gente conhecer a feira de fanzines e o mercado”. Para o evento, o trio esta fazendo uma promoção bem legal: Na compra de seu fanzine, as pessoas concorrem a um kit com várias miniaturas dos personagens da Akatsuki – o sorteio será realizado no último dia do evento (domingo, 18 de julho), por isso ainda dá tempo de participar.

Passando pela Comic Fair, não deixem de conferir a Fanzine Expo, assim como eu, você também pode encontrar muitas histórias e pessoas interessantes.

Para saber mais sobre algumas das edições aqui apresentadas (nem todos os entrevistados têm sites), acesse:

Vidas Imperfeitas: marycagnin.blogspot.com

XDragoon: www.xdragoon.com

Sei Lá Zine: seilazine.blogspot.com

Sky Of Bolt: tridyon.deviantart.com

Nekrônicas: kupoinc.wordpress.com/nekronicas

Quadrinize: www.quadrinize.com

Galeria de Fotos:


Fotos de Alexandre Manoel, Gisele Marin, Ítalo Cesar e Renato Lebeau

O que já foi publicado sobre a Comic Fair:

Exposição de HQs Raras e Comic Lounge na Comic Fair – Entrevista com Alexandre Callari

Palestra Fabrízio Yamai na Comic Fair: Como foi

Entrevista: Logan Barros – Modelismo e Molde

Palestra Emílio Baraçal na Comic Fair: Como foi

Comic Fair 2010: Como foi – primeira parte

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