Mauricio Brancalion, editor da revista Sagu, no começo deste mês de maio começou a publicar a revista em um novo formato via Internet. Utilizando as linguagens CSS3 e Javascript agora a Sagu é digital e auto-redimensionável, ou seja, a publicação se adapta a qualquer mídia digital de leitura como celular, tablet, computador desktop e etc.

O Impulso HQ conversou com o editor que é mais conhecido Branca, que nos fala com entusiasmo sobre essa forma de divulgar quadrinhos online. O quadrinhista que atualmente publica digitalmente uma HQ por temporada (quatro meses) com websódios semanais permite que o internauta veja todo processo de produção, desde o esboço até a arte-final diariamente. Hoje está no ar o websódio 1 e 2 e os esboços do websódio 3.

Impulso HQ: De onde surgiu a ideia de produzir a Sagu nesse formato auto-redimensonável?
Mauricio Brancalion:
Vou contar resumidamente uma longa história. No ano 2000 eu editei o primeiro número do fanzine sagu, naquela época ele já foi produzido em uma duplicadora e, uma gráfica rápida que imprimia direto do PDF, a partir de originais A4 e dando saída em folhas A3 vincadas e grampeadas.

O período de 2004 até 2007 foi marcado por inúmeras visitas a gráficas Off-Set tradicionais, editoras de quadrinhos e até mesmo bancas, claro o resultado todos nós conhecemos, um belo “não” com todas as ressalvas explicações das dificuldades de se fazer uma publicação no Brasil.

Em 2007 eu já estava convencido de que o mercado tradicional de impressão mostrava seus indícios de sair de cena, ou de que estava ao menos mudando de configuração. Neste mesmo ano editei duas edições da revista Sagu em formato flash Magazine através do sistema Pagegangster, uma empresa holandesa que disponibiliza um serviço de conversão de PDF para SWF, não demorou muito para perceber que a tecnologia SWF proprietária da Adobe, não daria conta de ocupar com a mesma abrangência do Off-set tradicional a distribuição e métodos de cobrança eficazes para sustentar uma publicação.

Em 2008 passei a produzir os desenhos totalmente em ambiente digital (do esboço a arte-final), cheguei em 2009 a produzir um único número da revista Sagu em formato bolso com Jato de tinta em sistema Bulk-Ink e chegando a conclusão que faltava algo ainda para que a produção digital em desenho permitisse que você publicasse em maior número, digitalmente, e de maneira condensada e personalizada publicações impressas com melhores acabamentos e dirigidas ao público-alvo precisamente.

Em abril de 2010 com o surgimento do Ipad, com a consolidação do Iphone 4, o sistema Android se mostrando competente, o mapa das mídias começou a ficar claro para muitos que buscavam entender as mudanças de paradigmas. De lá pra cá profissionais de TI, Designers, artistas passaram a buscar resposta para a mesma pergunta: como vamos produzir para tantos aparelhos e impressoras digitais sem ter que fazer diversos códigos e adaptações visuais?

A resposta chama-se Design responsivo, ou Design fluido, que nada mais é, do que elaborar um fluxo de produção que permita a organização do conteúdo para a dimensão de qualquer tela ou papel, sem que afete a mensagem a ser transmitida. Portanto a idéia veio da evolução x necessidade de atender o novo cenário “All Media” em que vivemos, hoje.

IHQ: Sobre a linguagem de programação, é você que executa, ou é uma empresa terceirizada? Como funciona esse processo?
M.B.:
A linguagem é totalmente baseada em HTML4/5, CSS2/3 e Java script, para que você não necessite de uma linguagem proprietária como (swf/Silverlight), e também as técnicas de criação em AJAX (o site da Sagu não utiliza) podem ajudar a desenvolver ótimos sites para publicação de quadrinhos daqui pra frente.Outro fator importante é o CSS, é através dos seletores de Mediaqueries que você pode configurar para que o site se torne auto-redimensionável e ainda criar mediaqueries específicas para qualquer tipo de mídia que venha a “mostrar” o conteúdo (TV, WEB, PAPEL, TELAS PB…).

Sobre o processo eu mesmo executo, pois se tratam de linguagens simples de programação que com um pouco de estudo é capaz adquirir os conhecimentos básicos para dar início. Uma boa forma de conhecer melhor o assunto é conhecer o site e os livros de Ethan Marcotte sobre design responsivo.

IHQ: O que muda no processo de produção de uma HQ ao ser pensada para esse formato?
M.B.:
Depende muito do recurso base que você utiliza. Há dois recursos base: Estático e o Dinâmico.

Se você quiser publicar quadrinhos de maneira clássica, ou seja, estática, você vai precisar de recursos CSS simples para autoredimensão e alguns poucos recursos javascript para inserir “motion” na página como um todo.

Se você quiser explorar a possibilidades AJAX para sua WebComic, você pode transformar o site em um aplicativo e isso permite uma série de possibilidades multimídia que farão da sua webcomic algo que contenha motion na página e nos quadrinhos, talvez uma mistura de quadrinhos com animação e interatividade.

O processo de criação em ambiente digital utiliza todo o conhecimento tradicional de quadrinhos aliados a possibilidades de se trabalhar com layers onde você pode separar cenários, personagens, balões quadros e cores e ter um controle maior sobre cada componente.

IHQ: Você pretende não publicar mais em papel?
M.B.:
De maneira alguma, como disse em uma resposta anterior existem atributos de CSS que permitem que você formate perfeitamente a saída daquela WebComic em papel, se o internauta resolve clicar no botão “print” do seu browser ele pode se surpreender ao ver sair em sua impressora a história redimesionada para um formato bolso. Publicar uma versão em papel via impressora off-set e digital, tendo controle de audiência já algo que vem ocorrendo é que é uma tendência ótima para o mercado de quadrinhos, e até mesmo o sistema de pré-venda permite uma produção em papel mais eficiente e menos abusiva dos meios naturais e máteria-prima.

IHQ: Quais as vantagens dessa “nova forma” de publicar?
M.B.:
A maior vantagem de se investir em Webcomic auto-redimensionável está na possibilidade de se atingir todas as plataformas de acesso a Internet e assim atingir os mais diversos números de público (Mass Media).

A Internet desde seus primórdios sempre teve problemas com o fato de as pessoas acessarem em diferentes aparelhos e contextos sociais e desta forma era muito difícil atingir o mais básico conceito de mass media que a TV, por exemplo, atinge desde seus primórdios.

Com o surgimento do auto-redimensionamento você tem de fato uma “nova forma” de publicar, isto aliado com a possibilidade de você permitir que o internauta veja a HQ ser feita do esboço a arte-final capítulo por capitulo gera um forte vínculo de comunicação entre autor-público.

IHQ: Como esse aplicativo pode gerar uma renda ao quadrinhista?
M.B.:
Se pensarmos como na TV aberta, a audiência é que gera a possibilidade de se ter um espaço de anunciante, se o anunciante vende a estrutura de produção torna-se pagável. Um site que disponibiliza uma produção de webcomic em websódios (diários, semanais quinzenais) tendo audiência, justifica a inserção de anuncio e patrocínio e como o site é possível de ser visto da classe E a A o mass media esta criado.

IHQ: Ao seu ver esse é um caminho que os quadrinhos devem seguir?
M.B.:
Sim, vejo que a banca não é mais o mass media. As livrarias são ótimas saídas, mas são seletivas e seu acesso não é tão abrangente, vejo também que se você publicar só em Ipad, você não está atingindo o público do Android e assim vai. O quadrinho deve encontrar uma forma de mídia que tenha custo acessível de manutenção e que permite a maior visibilidade possível, portanto, sites redimensionáveis permitem isso, e permitem que se teste audiência, para depois, pensar em publicações direcionadas e customizadas, o processo lógico é que uma boa publicação mass media é capaz de gerar as subpublicações direcionadas (ipad, galaxy tab, xoom e etc).

IHQ: Quais são as possibilidades que os quadrinhos podem ganhar em relação a interatividade ao serem publicados nesse formato?
M.B.:
Como disse em resposta anterior as possibilidades de programação AJAX, aliada ao HTML5, CSS e Javascript permite muita inserção de interatividade. Desenvolvedores de tecnologia como Adobe Flex, Adobe Air e qualquer outro SDK baseado em JAVA, podem produzir conteúdo para qualquer dispositivo de media, on line e offline.

A conexão direta com redes sociais e serviços web 2.0 (blogger, tumblr) podem trazer verdadeiros sucessos inéditos das HQS nos próximos anos. Em termos profissionais, desenhistas, roteiristas, arte-finalista e coloristas em atividade permanente sendo impulsionados pela audiência, podem vir a melhorar substancialmente o cinema de animação nacional e as bases visuais de nossa cultura.

IHQ: Quais são os seus próximos projetos? Eles também irão ser em um ambiente digital?
M.B.:
Meus próximos projetos são: manter webcomics com duração de 4 meses em websódios semanais no site da revista sagu, se a webcomic tem audiência ela pode ganhar mais de uma temporada. Obter anunciante ou patrocínio.

A Webcomic também pode gerar e-books/e-magazines e aplicativos para diversas plataformas digitais, para isso, precisa demostrar audiência. Com o sistema de pré-ordem gerar a produção impressa, para redução de impacto ambiental e agradar o público-alvo que prefere essa opção. São muitos passos, mas só acontecerão se o início da produção lá no site alcançar o item mais importante para a nona arte: contar uma boa história.

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Para o leitor que se interessou mais pelas ideias Mauricio Brancalion, o quadrinhista convida a todos a refletirem sobre este assunto e participarem deste cenário que estamos vivendo atualmente, que é a possibilidade de mais uma vez utilizarmos a tecnologia atual para criarmos histórias em quadrinhos.

Para conhecer mais sobre a Revista Sagu e ver a sua versão auto-redimensionável e analisar mais a questão do Design Responsivo, ou Design fluido, visite o site www.revistasagu.com.br.

Renato LebeauentrevistasMauricio Brancalion,Sagu,webcomicsMauricio Brancalion, editor da revista Sagu, no começo deste mês de maio começou a publicar a revista em um novo formato via Internet. Utilizando as linguagens CSS3 e Javascript agora a Sagu é digital e auto-redimensionável, ou seja, a publicação se adapta a qualquer mídia digital de leitura como...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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