Um dos profissionais brasileiros que trabalham para o mercado estrangeiro que ministraram palestras durante a Comic Fair foi o colorista da DC Comics, Rod Reis.

Durante quase uma hora Rod Reis falou sobre a sua carreira, como foi ingressar no mercado de super-heróis e as dificuldades que um colorista enfrenta como prazos apertados, por ser o último no processo de produção das HQs.

Depois da palestra o Impulso HQ conversou rapidamente com o artista, mas sem mais demora abaixo segue um breve resumo que Rod Reis disse para o público.

Rod Reis começou falando que está no mercado desde os anos de 1990 quando teve o começo da colorização digital e os artistas sentiram a necessidade da demanda de mercado.

Nessa época o padrão nos quadrinhos era dominado pelo estilo Image, e coloca em contraponto como atualmente o mercado aceita facilmente o colorista brasileiro. Quando questionado então qual foi a maior dificuldade para entrar no mercado Rod respondeu: “Não tive muitas barreiras para entrar no mercado como colorista porque naquela época era uma demanda muito forte do mercado”, e ainda concluiu dizendo que antes de começar a colorir ele já fazia estudos de desenho.

Rod começou na editora Trama e passou por títulos como Blue Fighter, Mortal Kombat, Holy Avangers e o seu primeiro trabalho internacional foi Star Ship Troopers para uma editora na Inglaterra. Comentou que o seu primeiro trabalho para a DC Comics foi com o personagem Super-homem, e que continua colorindo para a empresa até hoje.

Rod continuou explicando mais sobre a profissão de colorista: “Colorista geralmente não é divulgado, você não tem o nome na capa e não vai ficar rico” e ainda completa “Você tem que ser um bom profissional de quadrinhos. Tem que entender de desenho, teoria das cores e outros quesitos que as editoras pedem”.

Sobre a sua formação Rod explicou que não fez nenhum curso, que no começo ele buscava informação que era escassa em livros e na Internet. Mas salienta como é fundamental uma orientação profissional. Rod aproveitou para informar que costuma publicar em seu blog tutoriais de colorização e que vai ministrar um curso de três meses na Quanta Academia de Arte.

Continuando sobre a profissão de colorista  Rod explicou que muitos artistas querem colorir o próprio material o que pode limitar um pouco o acesso para aqueles que não desenham, mas lembra que esses profissionais têm espaço na publicidade, com material editorial e ilustração.

Sobre o seu processo de trabalho como colorista na DC Comics, Rod Reis deixou claro que a editora interfere pouco, que ele toma as decisões da paleta e lembra que um bom profissional ao receber o roteiro já identifica a ambientação e que o colorista pode se guiar por algumas regras como se for uma cena de tensão se direcionar para cores mais frias, ou se for uma cena de batalha tender para cores mais quentes.

Rod também falou sobre a ordem no processo de produção: “O colorista é o último no processo. Se todos atrasam descontam do meu prazo”, e deu outras dicas importantes como “O colorista quando pensa na cor ela analisa o que vai ficar mais legal no sentido de dinamismo para contar a história”.

Quando questionado se ele preferia desenhos coloridos ou P/B, Rod Reis afirmou: “Creio que o colorido é mais fácil. Se o desenho não foi feito para ser P/B como Sin City, por, você percebe a falta da cor. Alguns desenhos precisam ter cor”.

Durante a palestra Rod Reis exibiu alguns prints, entre eles em primeira mão para o público da Comic Fair, uma colorização que fez para o personagem Lanterna Verde.

Sobre o mercado de trabalho para o colorista Rod explica que aqui no Brasil é mais escasso devido ao próprio desenhista realizar as cores do seu projeto e que no exterior tem mais espaço sim, mas a concorrência é muito difícil. “Lá fora tem muitos coloristas bons, mas não é impossível. Acho mais fácil entrar no mercado como colorista do que desenhista”, afirma Rod, que também comentar que ter um agente pode facilitar as coisas também.

E Rod ainda comenta um pouco sobre o perfil de um colorista: “Quem é colorista gosta de sofrer. Dorme pouco e tem pouca vida social. Você tem que começar em um estágio avançado, não dá para começar como amador. Tem que levar uma vida de artista fazendo o que gosta e em paralelo arrumar dinheiro. È uma batalha. Tem que gostar mesmo”.

Sobre a convivência com outros coloristas Rod comentou que indo a feiras internacionais deu pra perceber como os coloristas são solidários uns com os outros e também acrescenta que nas visitas internacionais que fez descobriu como é importante o editor conhecer o artista, que depois de um contato mais próximo o relacionamento muda.

Para as perguntas abertas para o público os presentes ficaram interessados como Rod Reis trabalha no seu dia a dia e como ele faz para ter certeza de que na impressão as suas cores não serão alteradas.

Rod explicou que não vê a prova de cor da gráfica, devido ao material ser impresso nos Estados Unidos, então ele se mantém atento a calibração do seu monitor e que sempre pinta no modo de cor CMYK, nunca em RGB.

O artista também deu destaque a ser atencioso na hora de produzir: “Tem que te muito cuidado. Detalhes sempre passam. Já tive que consertar desenhos na última hora porque já não tinha mais prazo para voltar para o desenhista”.

A platéia também perguntou se ele não tem curiosidade de fazer colorização para outras mídias: “Estive trabalhando em uma animação da Holy Avangers, mas prefiro continuar nos quadrinhos. No meu tempo livre  prefiro me dedicar a arte pela arte, então produzo sem intenções comerciais”.

Falando em tempo Rod respondeu algumas perguntas como quanto tempo ele demora para colorir uma HQ: “Meu tempo é desregrado, trabalho até as 5 da manhã e acordo ao meio dia. Cheguei a fazer 22 páginas em 5 dias. Tento administrar isso lendo o roteiro e vejo quais são as páginas principais. Quando estou na metade da eu pulo para as últimas páginas. Assim o leitor terá sempre um bom começo e um ótimo final”.

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Claro que depois da palestra o Impulso HQ conversou rapidamente com o Rod Reis para esclarecer ainda mais sobre a rotina de um colorista. Acompanhem:

Impulso HQ: Durante a palestra você disse que é o último do processo de produção. Você fica ansioso por causa dos atrasos? Como você lida com a expectativa?
Rod Reis:
Fico na expectativa porque começa a passar o tempo e você não recebe página e fico ansioso porque eu preciso colorir. Na verdade acontece que o roteirista passa para o editor que tem que aprovar, que passa para o desenhista que passa novamente para o editor, e depois vem várias aprovações.

Se eventualmente o desenhista ou o roteirista atrasam, quando recebo as páginas já estou no fim do deadline, praticamente eu já estou com o meu prazo atrasado antes de receber a página. Então fico ansioso porque quero fazer sempre o melhor possível.

Hoje com a experiência sei que isso é normal, não culpo eles. Alguns até são culpados porque não tem pensamento de equipe. Mas felizmente tenho a sorte de trabalhar com pessoas que pensam em equipe. Trabalho com brasileiros e tirando os roteiristas, meus últimos trabalhos foram com brasileiros como Joe Prado e o Eddy Barrows, então conversamos bastante e temos um contato bem próximo.

IHQ: Você está no mercado há bastante tempo. Na sua carreira qual foi o personagem que você mais gostou de colorir?
Rod Reis:
Eu fico muito tempo nos títulos então quando chega a dois anos no mesmo título, eu encho o saco. Eu gosto de colorir o Super-homem, mas eu já colori mais de um ano a revista, então dá um bode!

Quando comecei eu era muito mais fanboy e com o tempo quando você começa a trabalhar você perde um pouco essa parte de fã e almejar um personagem ou outro. Você encara todos eles como trabalho. Por exemplo, eu gosto do Batman, gostaria de colorir o personagem, mas depois de dois anos com certeza eu iria querer trocar de personagem para não enjoar.

Mais do que os personagens eu gosto de escolher os artistas. Ivan Reis, por exemplo, é um artista que eu adoro colorir por causa do traço dele. O Eddy Barrows também é outro que o traço é gostoso de colorir. Quando você pega um desenhista que desenha mal, isso acaba atrapalhando o meu processo de trabalho porque eu tenho que entender o que ele quis dizer com o desenho.

IHQ: Recentemente a DC Comics anunciou que vai pagar Royalty para as suas publicações na Internet e que não vai pagar para o colorista. O que você achou disso?
Rod Reis:
Achei muito ruim. Normalmente o colorista não ganha Royalty nas revistas mensais também. Eu não ganho. Então é uma coisa que já estou acostumado.

IHQ: Você achou que diminuiu o profissional?
Rod Reis:
Um pouco. È outra mídia e vai para o mundo todo já que está na Internet. Acho que deveria no mínimo considerar um valor mesmo que menor para o colorista. Mas eu acredito que como são projetos autorais, é como eu falei na palestra, geralmente quem faz esses projetos autorais são pessoas que estão batalhando e eu não aconselharia a princípio em dividir as etapas. Ela tem que tentar fazer um esquema com ela mesma colorindo.

De qualquer forma o colorista dificilmente é considerado. É uma coisa chata da nossa profissão. Só os coloristas que trabalham com grandes projetos como Blackest Night ou  As Crises da DC, estes assinam contratam que recebem royalties.

Clique na imagem para ampliar

IHQ: Para finalizar, você pode falar para o leitor do Impulso HQ quais são os seus próximos projetos depois do Superman?
Rod Reis:
No momento estou no Superman com Eddy Barrows e roteiro do Straczynski e só! Não tenho o que revelar porque tenho propostas e estou procurando outra revista para fazer e no momento de projeto fixo tenho só esse.

Eu colori o cartaz do Brightest Day, porque lá quando tem um evento grande se produz um cartaz com um desenho abstrato com dicas escondidas do que vai acontecer. E vão transformar essa imagem em pôster para a Comicon em São Diego, e isso é uma coisa legal que eu fiz que vai sair em todas as revistas mensais.

Renato Lebeauentrevistascolorista,Comic Fair,DC Comics,Rod Reis,SupermanUm dos profissionais brasileiros que trabalham para o mercado estrangeiro que ministraram palestras durante a Comic Fair foi o colorista da DC Comics, Rod Reis. Durante quase uma hora Rod Reis falou sobre a sua carreira, como foi ingressar no mercado de super-heróis e as dificuldades que um colorista enfrenta...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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