Com previsão de chegar às livrarias pela Quadrinhos na Cia. no dia 22 de fevereiro, Mensur, de Rafael Coutinho, é o novo romance gráfico do ilustrador e coautor de Cachalote.

O Impulso HQ conversou com Rafael sobre a obra que conta a história do Gringo, um andarilho que percorre cidades brasileiras em busca de bicos e trabalhos manuais. Todavia, o Gringo é também um dos últimos praticantes do mensur, uma luta de espadas surgida na Alemanha do século XV entre estudantes universitários.

Coutinho fala sobre da onde surgiu a inspiração, seus desafios em produzir uma obra com 200 páginas, seu contato com um praticante de mensur e muito mais. Confira:

Impulso HQ: Da onde surgiu a inspiração para falar de um tema como o Mensur?
Rafael Coutinho: De um livro do historiador Peter Gay, chamado “O Cultivo do Ódio”. É um livro maravilhoso, que mapeia as diversas práticas que de alguma forma se faziam valer da violência, seja ela literal ou simbólica, no século XIX na Europa. Um dos capítulos fala sobre os mensuren, e foi justo na época em que eu havia terminado o Cachalote e estava procurando por um novo projeto. Tinha muito a ver com questões minhas sobre violência na cidade, com esse constante estado de alerta em que vivemos.

IHQ: Qual foi o seu maior desafio na produção de Mensur e por que o longo processo de produção?
R.C.: Foram tantos… mas acho que a própria duração foi o principal. Me manter envolvido com o projeto, revisitá-lo depois das inúmeras pausas, manter um ritmo constante de produção. Os motivos são a vida que não para, e depois dos dois primeiros anos muito aconteceu: me mudei com minha mulher, tivemos dois filhos, tive que pegar muitos projetos paralelos, questões financeiras variadas, altos e baixos. Mas sinto como se eu não tivesse forçado o livro a me acompanhar, ou vice-versa, e sim como se nós tivéssemos acompanhado as mudanças um do outro nesse tempo todo. Fui reentendendo aspectos do roteiro, da arte, e eu fui ficando mais “pronto” para o livro de alguma forma.

IHQ: Você teve contato com praticantes reais do Mensur para as suas pesquisas?
R.C.: Sim, mas foi muito pontual e a pessoa com quem me correspondi em algum momento parou de me responder. Percebi que havia coisas ali que eram delicadas ao meio, como a necessidade de se manter essa característica secreta e não-acessível da luta. Há questões morais e jurídicas que transbordam o ambiente universitário do ritual, onde passa caber ao estado legislar ou não sobre o fato de duas pessoas estarem cortando a cara uma da outra.

No contexto em que estava inserido a pessoa com quem troquei e-mails, havia essa pressão social, e entendi que não era algo tranquilo pra ele discutir. Imagino que em um dado momento ele tenha achado que eu era um jornalista ou algo do tipo, atrás de informações sigilosas, e parou. Li também conversas de fórum de lutadores tentando explicar que não era algo “selvagem” e sem sentido aos olhos de quem está de fora, mas nesses fóruns o povo pega muito pesado e começaram a ofender demais os caras.

Passei a entender nesse ano que tive de pesquisa que só conseguiria fazer algo se internalizasse isso em mim, de que havia mais naquilo do que um simples duelo medieval de violência gratuita, e olhasse a questão da formação do caráter através do ritual como algo com um valor em si, e que havia paralelos interessantes a se traçar com os tempos atuais.

IHQ: Como você espera que será a reação dos leitores quando terminarem Mensur?
R.C.: Não faço ideia, não sou capaz de entender o livro dessa forma. Nem eu sou capaz de compreender o livro todo, são vidas ali que eu decidi deixar que andassem por suas próprias pernas em um dado momento. Não acho que seja um livro com uma moral da história, não há um ponto claro pra mim onde tudo converge.

São histórias que acompanharam a minha vida nesses sete anos, e também não sou capaz de resumir minha vida numa linha nesse período. É um livro sobre mudança, sobre luta, sobre vencer fantasmas e traumas de uma vida dura, acho. Mas gosto muito de trabalhos assim, onde o leitor tem um papel mais importante do que o óbvio. Cada um entende de uma forma, porque entendemos moralidade, certo e errado, bonito e feio de mil formas possíveis.

IHQ: Você vê alguma comparação (seja em processo criativo ou produção) entre Mensur e Cachalote?
R.C.: Sim… é fazer livro, contar história longa. Há caminhos ali que são similares. Mas o Mensur é o resultado dos aprendizados que colhi com o Cachalote, e busquei por outras coisas e usei outras ferramentas que desenvolvi depois do primeiro. Teve a coisa de fazer com o Daniel Galera e depois não ter ninguém, o que foi por si só uma grande batalha. Tive que desenvolver um jeito meu pra solucionar dilemas ali, e contei com outras pessoas no período.

O André Conti foi um grande amigo e parceiro, leu e releu comigo múltiplas vezes nos anos que se sucederam. Minha mulher, amigos próximos, cansei uma boa quantidade de gente nessa época. Graficamente o livro ficou muito mais complexo também, e pratiquei muito no meio fazendo outros livros. Muita coisa do Beijo Adolescente se somou ao processo também.

IHQ: Você sente uma pressão maior com o lançamento de Mensur devido ao sucesso de Cachalote?
R.C.: Realmente não sinto. Sei que fiz um bom trabalho, trabalhei duro e me forcei a buscar por algo mais profundo e completo. Não seria capaz de fazer melhor, e acho que livros são projetos que respondem a essas limitações, são resultado dessa busca desmedida pelo nosso melhor, e por um conteúdo que nos represente como criadores na nossa totalidade. É como enxergo isso tudo. Não é por dinheiro ou por fama ou por status, e por isso não sinto pressão. A pressão era interna, minha, com minhas ideias, com os personagens. E com os prazos também, que nunca são realistas. Com a necessidade de chegar ao fim de algo que ninguém sabe onde acaba, só o autor.

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No texto de divulgação da Quadrinhos na Cia, Mensur é o mais ambicioso trabalho de Rafael Coutinho desde Cachalote, romance gráfico criado em parceria com o romancista Daniel Galera, também publicado pela Companhia das Letra.

Rafael Coutinho é um dos artistas mais talentosos do quadrinho brasileiro e traz um dos mais originais e impressionantes trabalhos do quadrinho brasileiro, Mensur é uma saga pessoal e um épico íntimo da busca por um lugar e, sobretudo, por algum tipo de paz.

Mensur
Quadrinhos na Cia.
Autor: Rafael Coutinho
18,8 x 27 cm
200 páginas
R$ 54,90

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2017/02/mensur-04.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2017/02/mensur-04-150x150.jpgRenato LebeauentrevistasMensur,Quadrinhos na Cia,Rafael CoutinhoCom previsão de chegar às livrarias pela Quadrinhos na Cia. no dia 22 de fevereiro, Mensur, de Rafael Coutinho, é o novo romance gráfico do ilustrador e coautor de Cachalote. O Impulso HQ conversou com Rafael sobre a obra que conta a história do Gringo, um andarilho que percorre cidades...IMPULSO HQ é um site que se propõe a discutir histórias em quadrinhos e assuntos derivados como cinema, games e cultura pop em geral.