No último fim de semana em São Paulo, 6 e 7 de abril, aconteceu a terceira edição do Ugra Zine Fest, no Centro Cultural São Paulo. O Impulso HQ deu uma passada rápida no sábado e pode conferir os lançamentos dos zineiros e da galera que produz todo o seu material de maneira independente. De quebra ainda conferimos a Exposição Panorama Ibero-Americano de Publicações Independentes e entrevistamos Douglas Utescher, um dos organizadores do evento.

Começando com o local. Para quem não conhece o Centro Cultural São Paulo e mora na cidade está perdendo um belíssimo local para passar uma tarde de sábado. Além dos grupos que costumam frequentar o local, lá está a Gibiteca Henfil, espaço onde se encontra inúmeras revistas em quadrinhos, inclusive raridades.

Com espaço maior e mais arejado o Ugra Zine tomou proporções bem maiores que as edições anteriores. Dividido em praticamente quatro áreas, bancada dos zineiros, espaço das palestras espaço da exposição e sala de cinema, o evento teve ainda a vantagem de ser praticamente aberto a todos que visitassem o Centro Cultural, o que proporcionou um maior contato e interesse do público para as atividades do dia. Ganha o zineiro que pode mostrar a sua arte para um público que normalmente não chega até as suas publicações e com certeza ganha o público que pode ter contato com o material e autores de várias gerações da cultura independente de zines.

Sobre as mudanças na estrutura do Ugra Zine Fest, o Impulso HQ conversou com Douglas Utescher que nos revelou que os organizadores sempre tiveram o desejo que a cada nova edição do evento superasse a anterior. “Não temos experiências com eventos, no sentido de que não trabalhamos profissionalmente com isso, mas frequentamos muitos eventos e temos uma boa noção do que gostaríamos de esperar e ver em um evento. O foco central é o conteúdo mais do que a venda. Trazendo para o centro cultural tivemos a oportunidade de focar nisso. Concretizamos ideias que trazíamos desde outras edições”, disse ele.

E realmente levar o evento para o Centro Cultural deu outra cara para o evento. A boa iluminação e o espaço aberto possibilitou um local para a exposição de zines muito melhor que as edições anteriores. Podemos dizer que a Exposição Panorama Ibero-Americano de Publicações Independentes foi muito bem alocada. A mostra já passou por Portugal, Itália, Finlândia, Suécia, E.U.A e Espanha, e no Ugra Zine Fest, além de ter algumas obras nacionais a exposição ainda abrigou zines do Chile, México, Venezuela e Argentina, nos exibindo um “varal” da diversificidade da produção independente dos países e seus artistas.

Sobre a parceria Douglas explica que tudo aconteceu por acaso. “Ano passado o Centro Cultural promoveu o mês da cultura independente e uma das atividades foi uma palestra com a Cintia B., editora da revista Golden Shower. Já havíamos comentado algumas vezes sobre os locais que poderiam acontecer o Ugra e o Centro Cultural sempre foi cogitado. Quando acabou a palestra a gente foi na cara dura e nos apresentamos para a Deise que é a curadora das bibliotecas e comentei sobre o nosso evento que já estava em sua segunda edição e falamos do nosso know hall. Calhou que justamente que o Centro Cultural estava em busca de projetos para revitalizar e dar uma movimentada na Gibiteca Henfil. Daí foi apresentar o projeto e eles curtiram. O que nos deixou felizes foi que eles nos deram carta branca. Combinou o que a gente pretendia com o que eles queriam e ficou exatamente como a gente propôs.”

O Ugra Zine Fest também é um local de lançamento, e a bancada de exposição dos zineiros até ficou pequena para tanto material a ser exposto. Entre as novidades “Amores Plurais”, organizado por Henrique Magalhães e Gibi Gibi nº2 que demorou quase um ano para ser lançada. Douglas também nos dá a sua visão do que ele espera o que represente o Ugra Zine Fest para os zineiros e todos os que visitam o evento. “Não sei o que representa, mas consigo dizer o que eu espero que ele represente. A intenção dos projetos da UGRA, tanto o Ugra Zine Fest como o Anuário é de “tacar lenha na fogueira”. A gente gostaria que as pessoas saíssem daqui com muitas ideias na cabeça e com vontade de produzir e continuar dando sequência à cultura independente”, disse Douglas que além de organizar o evento também dava o suporte as palestras do dia operando os equipamentos de apresentação.

E falando em palestras, quem foi sábado pode curtir boas apresentações de debates e palestras. Destacamos aqui a palestra de Edgar Guimarães, um dos editores de fanzines mais conhecidos do meio. O autor contou rapidamente a sua trajetória com as publicações independente mostrando inclusive alguns exemplares originais e raros de sua coleção. Depois abriu o espaço para perguntas.

O interessante foi perceber a postura de Guimarães em relação às publicações independentes. Edgar que é engenheiro e professor quando não está editando as suas publicações revelou que não tem paciência para inscrever os seus projetos em editais de cultura. O autor que é o pioneiro em lançar um zine com assinatura e impressão por demanda ainda esclareceu que faz zines porque gosta e não para ganhar dinheiro. “Meu Best-seller até hoje na minha carreira foi vender 50 exemplares de uma edição. Tem um monte de coisa chata na hora de fazer, mas o resultado final compensa. Quero que as pessoas que tenho interesse no meu trabalho tenham acesso”, disse Guimarães.

Essa postura de Guimarães demonstra que acima de tudo é necessário ter muita vontade para produzir de maneira independente. Mas será que ainda há espaço para a produção nos dias de hoje? Perguntamos isso para Douglas que explicou o seu ponto de vista do cenário atual dos independentes. “Estamos em um momento interessante. Há dez anos estávamos no boom da Internet e todos estavam eufóricos querendo investigar as possibilidades. Em consequência muita gente acabou abandonando o fanzine e teve até a crença que zine iria acabar e que o futuro era a internet. Agora dez anos depois, um pouquinho mais se considerarmos que o boom foi no começo dos anos 2.000, já deu tempo para a poeira baixar e analisarmos até onde a Internet consegue chegar e até que ponto conseguimos dialogar sem que uma coisa mate a outra” afirmou Douglas, que também é responsável pela Ugra Press, uma editora independente que publica o Anuário de Fanzines.

E pelo jeito o Anuário é o termômetro que Douglas utiliza para analisar a atual produção dos independentes. “Pelos projetos que realizamos a gente percebe que teve uma retomada. Tem mais pessoas voltando a publicar e pessoas publicando pela primeira vez. Isso é um bom sinal porque está se formando uma nova geração de zineiros. Não são só velhos nostálgicos que querem voltar a fazer porque era legal nos anos 1990. Tem uma molecada nova produzindo e produzindo coisas muito boas. Eu acho que isso tem a ver porque estamos atravessando uma fase de excessos de um mundo tão centrado em tecnologia e obcecado por isso que acaba propiciando que direcionamos o nosso olhar para as coisas que são feitas artesanalmente, para produtos independentes e limitados que redescobrimos a beleza que elas tem que não é aquele fato de passar por um super tratamento, mas são incrivelmente humanas, sinceras e descompromissadas com o mercado” disse Douglas.

Antes do debate “Fanzines, Sexualidade e Questões de Gênero” Douglas explicou que um dos motivos do tema ser escolhido como pauta para uma das mesas redondas foi justamente o crescimento de envio de material falando sobre sexualidade. E frisou que nada mais natural que para o primeiro debate do evento fosse escolhido um tema que ele considera pertinente com os dias atuais e lembrou que o zine é um espaço de transgressão e liberdade, um lugar onde se pode “botar o dedo na ferida”.

Douglas também revelou ao Impulso HQ as surpresas que o Anuário de Fanzines lhe propicia. “O que mais me surpreende, principalmente no último, foi a qualidade do material que recebemos. A g ente procura não fazer juízo de valor no anuário muito embora ele seja opinativo, mas na verdade não queremos falar mal ou falar bem, procuramos dar uma opinião objetiva do material que recebemos. No primeiro anuário recebemos bastante coisa que ficamos com aquela sensação de “legal que o pessoal está fazendo”, mas sabíamos que poderíamos dar um passo além. E esse passo foi dado tanto no segundo anuário quanto agora no terceiro. A quantidade de coisas muito legais que recebemos agora para este terceiro foi incrivelmente maior do que coisas que consideramos “não muito legal”. Isso é um sinal de uma produção muito saudável que cresce não só em quantidade como em qualidade”.

Para finalizar, Douglas já comentou um pouco sobre a próxima edição do Ugra Zine Fest. “Na verdade a gente já teria programação para as próximas duas ou três edições do evento. Vamos recebendo material do anuário por meio da convocatória e vamos descobrindo novas pessoas que tem uma produção muito legal e queremos trazê-las para as próximas edições. Como o evento vai crescer vai depender muito dessa edição e do resultado que obtivermos aqui e veremos qual será o próximo passo que daremos, mas é certeza que da parte de pessoas legais para colaborar teremos muita coisa boa vindo por aí.”

Douglas Utescher

O evento cresceu. Estivemos lá durante só a tarde do primeiro dia e deu pra perceber que dificilmente o Ugra Zine Fest dará um passo para trás. O cenário independente acaba de se firmar e ganhar um evento de primeiro escalão. Não é a toa que o Ugra Zine Fest foi pré-indicado ao Troféu HQMIX na categoria de “Melhor evento”.

Para aqueles que ficaram mais interessados na produção independente e querem saber mais sobre o Ugra Zine Fest e o Anuário de Fanzines não deixem de conferir o blog da Ugra Press, clicando aqui.

E não deixem de conferir o nosso álbum de fotos com mais de 40 fotos com muita coisa que aconteceu durante o sábado, dia 6 de abril, o primeiro dia do III Ugra Zine Fest, clicando aqui.

Renato Lebeaucobertura de eventosentrevistasAnuário de Fanzines,Centro Cultural São Paulo,Douglas Utescher,fanzines,Panorama Ibero-Americano de Publicações Independentes,Ugra Press,Ugra Zine Fest,ZinesNo último fim de semana em São Paulo, 6 e 7 de abril, aconteceu a terceira edição do Ugra Zine Fest, no Centro Cultural São Paulo. O Impulso HQ deu uma passada rápida no sábado e pode conferir os lançamentos dos zineiros e da galera que produz todo o...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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