O desenhista e quadrinhista Samicler Gonçalves é, sem dúvidas, o responsável por um dos personagens mais expressivos dos quadrinhos brasileiros contemporâneos. Dono de opiniões francas, ele concedeu uma entrevista para o Impulso HQ, e nos fala sobre a sua trajetória, aspirações e novos projetos.

Impulso HQ: Como começou seu interesse por quadrinhos?
Samicler Gonçalves:
Desde que me descobri como gente e vi que podíamos retratar o que víamos ou imaginávamos através do lápis e me apaixonei por isso. Eu olhava livros de como desenhar, na época era alguns livros da editora Ediouro, e comecei a perceber que a imagem retratada necessitava de uma variação de traços que em seu conjunto definiam volume, expressão e movimentos.

Desde então conheci os quadrinhos e sempre procurava neles essa mesma variação. Eu acho que foi uma paixão pela forma que o traço toma quando está em contato com o papel, sendo controlado pela mão do individuo que se propõem a construir uma emoção ou acontecimento. Vejo muito isso em outras pessoas que quando vê um desenho á lápis e se prendem um tempo observando a imagem.

Então, nos quadrinhos eu vejo essa possibilidade com mais afinco, pois a cada quadro podemos perceber a personalidade do desenhista. Essa arte não pode e nunca vai estar no cinema TV ou internet.

Personagens do universo Cometa

IHQ: Quais desenhistas e escritores influenciaram sua obra?
S.G.:
Foram muitos, acho que vou acabar deixando alguém de fora, mas vou tentar lembrar de todos: Curt Swan, José Luis Garcia Lopez, Sal Buscema, John Buscema,  Neal Adams, John Byrne, Gustave Doré,  Jim Lee,  Jeff Scott Campbell, Frank Miller, Alves Campanini, Ivan Reis,  Dale Keown e alguém que eu deva ter feito a injustiça de não citar.

IHQ: Naturalmente imagino que você tenha um personagem favorito. Qual é? E a sua história predileta?
S.G.:
Essa não é muita novidade. Em primeiro lugar, Jesus Cristo (ele não é um personagem, pois existe, mas é a fonte de minha adoração), já o Cometa e Superman são parte do meu fascínio no universo da fantasia. História favorita: a Bíblia, Super-Homem X Homem-Aranha, Cometa #9 e o restante tudo que foi desenvolvido pela Marvel e DC. Cada uma tem sua particularidade, quem sou eu par desprezá-las.

IHQ: O que você lê atualmente?
S.G.:
Cometa, Bíblia, e os livros infantis para meu filho.

IHQ: Você atua num cenário que oferece inúmeros desafios ao autor nacional, mas tem um trabalho muito bem sucedido. Você esperava essa repercussão quando começou?
S.G.:
Desculpa a presunção, mas eu achava que seria mais fácil.

Cometa pelo traço de Roger Cruz

IHQ: Fale sobre o Cometa e seu universo de personagens. Como foi o caminho desde sua criação na década de 1980 até a primeira edição impressa?
S.G.:
Bah! É uma longa história, mas vou tentar resumir: eu sempre tive como objetivo central desenhar quadrinhos, mas em uma ótica ingênua, não tinha muita noção do que encontraria a frente, desenhar não era simplesmente fazer alguns movimentos e inventar uma fala, as vezes ficava olhando horas para uma folha de papel e não conseguia sair do nada absoluto do branco com um ponto ou uma linha do grafite.

Iniciar algo do nada não é tão simples, mas ao longo do tempo fui descobrindo que aquele traçinho a lápis no papel branco podia sim ser o princípio que se construiria ao longo de sua trajetória, em resumo a história do Cometa vem se construindo desde o momento que resolvi aliar, o Superman, Homem-Aranha com uma pitada  da história da mulher maravilha, mas com as minhas correções a luz da Bíblia.

Como na vida do Wolverine, o Cometa não se construiu totalmente antes e sim com o passar do tempo e das edições, o universo SG está se construindo. Nas publicações eu sempre tive um olhar mais crítico e minha experiência publicitária ajudou a dar um olhar mais profissional em meio ao que estava sendo produzido no Brasil, não que não houvesse algo melhor que o Cometa, pois há muita coisa boa aqui no Brasil, mas eu estava iniciando em meio a um nada ao meu redor.

O encontro de Cometa e Superman

Eu não tinha conhecimento de nenhuma produção de herói no Brasil, somente a revista Pau Brasil, em que vi uma história de um grupo de Super-heróis que logo desapareceu. Não pense que estou desfazendo a produção da época, é que em minha cidade não chagava nada disso e eu não tinha noção de como me informar.

Foi só nos anos 90 que fui conhecer a Devir e a possibilidade de comprar quadrinhos pelo correio que não fosse da Abril. Aí foi como se o universo todo tivesse se aberto diante dos meus olhos, e quando surgiu a Image, com todo aquele aparato gráfico, que resolvi investir no Cometa de forma que ele fosse o meu herói, o herói que representaria o meu país diante da qualidade dos americanos.

Eu não sou nenhum expert em arte ou em criatividade, mas, para mim mesmo, eu estou fazendo um bom trabalho. Pois eu acredito que se eu não me valorizar, quem vai?

IHQ: Você trabalha em parceria com escritores. Eles têm “carta branca” para decidir os rumos do personagem/roteiro ou você determina o que quer da edição?
S.G.:
Trabalhei com o Alexandre Lobão, Fabio Schebella e o Nando Alves. Eles fizeram um ótimo trabalho, mas naquele momento eu não podia oferecer a eles a profundidade das informações necessárias, ou a quantidade de páginas que eles necessitavam para construir uma história que representaria a qualidade e potencial do trabalho deles, pois, como eu disse, eles são ótimos escritores no meu ponto de vista.

Foi só recentemente, com a chegada do Antônio Tadeu, que fomos construir algo mais singular e firme. Ele, neste momento, está com uma liberdade vigiada, eu dou minhas podadinhas, mas confio muito no potencial dele.

IHQ: Como você vê o Cometa no contexto dos quadrinhos nacionais?
S.G.:
Antes parecia algo forçado, mas agora sinto ele como se fosse um desbravador.

Cometa e Heróis BR

IHQ: Fale um pouco sobre os crossovers do Cometa com os demais super-heróis brasileiros. Qual deles foi o melhor de fazer? Acontecerão mais encontros no futuro?
S.G.: Para mim, todos foram muito bons! Eu só esperava um pouco mais de envolvimento de quem quer produzir. Não quero generalizar, mas sim incentivar. Às vezes tenho vontade de sair daqui e dar uns chaqualhões em alguns cidadões. Eles mesmos não acreditam no que falam ou fazem.

Esperam o milagre cair do céu, aqui no Brasil se não batalharmos não vamos para frente. Tem gente que quer participar da revista, desenhar, escrever e nunca leram uma revista minha. Agora, para babar para os americanos, compram as revistas deles, desenham de graça, criticam e fazem boquinha, mas para o Brasil são preconceituosos e acham que temos que fazer um favor.

IHQ: Como é o retorno dos leitores? Qual edição repercutiu melhor até o momento?
S.G.:
A Cometa #7, que a (revista) Mundo dos Super-Heróis elegeu a melhor HQ de Heróis do Brasil de 2007.

Capa da primeira edição da Revista Grandes Encontros

IHQ: Acredito que a revista Grandes Encontros tem promovido personagens do quadrinho nacional como pouquíssimos fizeram antes. Como surgiu esse título?
S.G.:
Eu não queria mais atrasar a Cronologia do Cometa, mas queria continuar promovendo a produção nacional, mas tenho medo da sua continuidade, pois não tenho tido muito incentivo e interesse do publico.

IHQ: Você está superando um difícil problema de saúde. Existem projetos em andamento? Quais novidades os seus leitores podem esperar?
S.G.:
É, tem sido difícil trabalhar, pois tomo remédios muito fortes e meu lado esquerdo não funciona como antes. Eu tenho dificuldade de digitar e dar comando no computador com a mão esquerda.

Não estou podendo dar aulas também, tive que abandonar as aulas que daria na faculdade, fechei minha agência de publicidade, pois não posso dirigir e administra-la. Estou investindo em alguns projetos meus que acho que vão me sustentar. Quanto a quadrinhos, estou desenhando o Cometa #10. Esse mês publico a revista Salvos #1. O resto ainda vai ficar em segredo.

IHQ: Há algum personagem brasileiro que você gostaria de trabalhar, mas ainda não teve oportunidade? O encontro com o Capitão 7 pode ser esperado pelos fãs?
S.G.: Capitão 7 não. Perdi o encanto. Tanto que não o desenharia nem que me pagassem. Estou negociando a G E #2 com o Danilo Dias para o Raio Esmeralda encontrar meu personagem, o Ômega.

Silvana e Marcelo, o Cometa. Desenho de Dennis Rodrigo

IHQ: Como estão os quadrinhos nacionais atualmente? Melhor do que quando você começou? Pior? Na prática, quais as vantagens e desvantagens desses últimos anos?
S.G.:
Beeeeeeeeeeeeeemmmmmmmmmm melhor. A qualidade melhorou muito, embora alguns, em vez de aprender com as críticas e aperfeiçoar, ficam de birra. As desvantagens são as de sempre: distribuição, apoio e espaços.

IHQ: Você já considerou publicar o Cometa no exterior?
S.G.:
Tenho pensado em fazer isso com o Cometa, pois a ignorância do brasileiro depende disso, só acredita no que passou pelos EUA.

IHQ: Se você tivesse que recomendar um trabalho seu para alguém não familiarizado com a sua obra, que título você sugeriria?
S.G.:
Cometas # 7 e 9

IHQ: Defina Samicler Gonçalves…
S.G.:
Chato, persistente, teimoso e com muita fé no que acredita.

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O Impulso HQ agradece a Samicler Gonçalves pela atenção e colaboração com os leitores do site.

Dennis RodrigoentrevistasCometa,Samicler GonçalvesO desenhista e quadrinhista Samicler Gonçalves é, sem dúvidas, o responsável por um dos personagens mais expressivos dos quadrinhos brasileiros contemporâneos. Dono de opiniões francas, ele concedeu uma entrevista para o Impulso HQ, e nos fala sobre a sua trajetória, aspirações e novos projetos. Impulso HQ: Como começou seu interesse...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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