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Lançado no final do ano passado, O Beabá do Berimbau, é um trabalho maravilhoso que explora o tema da Capoeira, algo raro nos quadrinhos brasileiros. Nesta conversa, o autor do livro, Marcio Folha, nos conta um pouco mais de sua história e da realização desse projeto.

Impulso HQ: Primeiro, gostaria que você se apresentasse: Quem é Márcio Folha e quando começou a se interessar por quadrinhos?
Marcio Folha:
Sou um capoeira de 12 anos de prática, uma criança. Bebo na fonte da família do saudoso Mestre Gato Preto, através das lições transmitidas pelo Contra-Mestre Pinguim.

Trabalho com arte educação repassando os ensinamentos que recebi na Capoeira Angola, Dança Afro, makulelê e percussão.Comecei a desenhar com dois anos de idade, por incentivo dos meus irmãos mais velhos. Com cinco anos eu dizia que já sabia ler, então pegava os gibis dos meus irmãos e levava pra rua.

Ficava inventando estórias, através das imagens, para as outras crianças que também não sabiam ler.

Meus irmãos sempre gostaram de quadrinhos. Liam de tudo, mas gostavam mesmo da revista MAD, Piratas do Tietê, Chiclete com Banana, entre outras. Quando aprendi a ler de verdade vi que as estórias que eu contava não tinham nada a ver com o que estava escrito.

O primeiro quadrinho que me chamou atenção era chamado Gilgamesh, era uma historia de um alienígena que foi criado por um casal hippie e se tornou imperador da terra, depois descobriu que tinha um irmão que era contra o governo dele, acho que era isso, o que mais me atraiu foi que eles eram gêmeos e eu também sou gêmeo, só que de uma mulher.

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IHQ: Do que trata exatamente este álbum que você lançou no final do ano passado, O Beabá do Berimbau?
M.F.:
De Capoeira. Tio Alípio é um personagem fictício que recebeu esse nome em homenagem ao verdadeiro grande Mestre das antigas, um africano que viveu em Santo Amaro da Purificação/BA.

Esse personagem representa o guardião do conhecimento e foi baseado em vários Mestres que conheci e convivi. Kauê é um menino curioso, ligeiro e amante da Capoeira, quando criei esse personagem, me inspirei na criançada da Cidade Tiradentes (Nota do Editor: Bairro localizado a 30 Km do centro da cidade de São Paulo), onde moro, sobretudo as que praticaram Capoeira comigo quando eu dava aula na comunidade.

O Berimbau é o mediador da conversa entre Mestre e discípulo.

Kauê quer que quer ganhar um Berimbau, mas o Mestre vai ensinar muitas coisas sobre o universo da Capoeira até que o menino aprenda a fazer seu próprio instrumento. Tem cantigas de Capoeira, lendas da Capoeira e dos orixás.

Contadas e cantadas pelo Tio Alípio. No final da história tem poesias de Marcio Batista, Raquel Almeida e Elis R. Feitosa do Vale e também, um material de apoio para os professores trabalharem com a HQ nas salas de aulas de diversas disciplinas, colaborando assim para implementação da lei 10.639/03, que obriga a introdução da historia e cultura africana e afro brasileira no currículo escolar.

IHQ: Como foi o processo de criação deste trabalho?
M.F.:
Depois de vários trampos inacabados e engavetados, resolvi fazer esse novo; que até 2008 estava correndo o risco de ter o mesmo fim dos outros. Foi quando resolvi tentar a sorte com o programa VAI, e foi.

A partir da aprovação do projeto, me juntei a uma equipe que chegou chegando, o trabalho de todos foi de muita qualidade.

A primeira fase do projeto foi uma pesquisa para ampliar os conhecimentos adquiridos durante esses anos de prática de Capoeira. O material que estava pronto foi entregue ao meu Mestre pra ele me orientar no que diz respeito aos fundamentos da Capoeira e muita coisa mudou a partir daí.

Levei sete meses para concluir o trabalho, mas nesse meio tempo fiquei dois meses sem conseguir desenhar absolutamente nada, sem inspiração nenhuma, travei. Quando o prazo apertou, fiz mais de vinte páginas em dois dias. Passei o texto para a revisora, os desenhos pro arte-finalista, o material bruto para o apresentador e para a pedagoga que escreveu o material de apoio etc.

A correria foi geral. Mandamos pra gráfica em cima da hora, mas recebemos o livro pronto duas horas antes do lançamento.

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IHQ: Por que usar a linguagem dos quadrinhos para contar essa história?
M.F.:
Porque os quadrinhos é uma linguagem artística da hora, tem muitos recursos. Minha intenção é mostrar a Capoeira para aquelas pessoas que não praticam e não sabem o valor que ela tem. Gosto muito de quadrinhos, mas confesso que minha paixão é o cinema.

Meu sonho é fazer filmes de Capoeira que mostrem muito da luta e principalmente da história e filosofia desta arte. Não tenho recursos e nem conhecimento suficiente para fazer megas produções, mas sei desenhar; e editar uma HQ é muito mais simples que faze um filme, principalmente porque depende exclusivamente da atitude do autor. Se ele vai envolver uma equipe (como foi o caso) é opção dele.

Não dá pra fazer cinema sozinho. Você pode ser o produtor, o câmera, diretor, iluminador e muito mais, mas quem vai atuar? Se você for o ator, quem vai filmar? Eu gosto dessa necessidade de trabalhar em grupo que o cinema traz, o que eu não gosto é de depender de alguém pra fazer o que quero.

No final das contas todos os quadrinhos que quis fazer sozinho, estão inacabados na minha gaveta.

Além de tudo isso, a história das HQs no Brasil, e no mundo, tem uma mancha racista onde explora a imagem do negro de maneira pejorativa. Isso se repete no cinema, na televisão, na publicidade, nas piadas etc.

Acontece que nos quadrinhos brasileiros, diferentemente (um pouco) das outras linguagens que citei, ainda temos pouca produção que mostre o ser humano negro de maneira positiva, ainda menos como protagonista e herói, e menos ainda capoeiristas.

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IHQ: Quando você pensou no projeto, já imaginou ele dessa forma? Digo, além dos conceitos da Capoeira, envolver também uma pedagoga?
M.F.:
Já. Afinal o álbum tem o propósito de ser distribuído para as bibliotecas das escolas.

A profissional da área, chama-se Elis R. Feitosa do Vale. Além de ser formada em pedagogia pela USP, ela é praticante de Capoeira. Isso facilitou a compreensão do trabalho para fazer essa ponte entre a pedagogia escolar e os ensinamentos da Capoeira.

O material de apoio que ela elaborou com a colaboração do Matemático Vanisio Luis da Silva, começa com a seguinte questão: O que será que os Mestres e professores da Capoeira têm a dizer sobre a cultura negra aos professores das escolas? – Essa é uma questão que deve ser feita por todos os educadores do país.

Afinal, a Capoeira é um dos grandes alicerces da cultura afro-brasileira, e os Mestres são a autoridade máxima que carregam os princípios do saber dessa arte.

Os livros ajudam as pessoas a terem contato com a cultura, mas quem quiser aprender realmente, precisa se aproximar de um Mestre pra que ele lhe dê fundamento.

IHQ: Como foi o processo de escolha da equipe?
M.F.:
Foram pessoas que eu já conhecia de outras caminhadas. Parceiros e colaboradores de outros trabalhos.

IHQ: Aonde o livro pode ser encontrado?
M.F.:
O livro “O Beabá do Berimbau – Histórias de Tio Alípio e Kauê” está disponível nas seguintes lojas:

Livraria HQMix – Praça Roosevelt, 142 – Fone: (11) 3258-7740
Loja Sdobrado – Rua 24 de maio, n. 116, Loja 36/37. Metrô República – Fone: (11)3337.2208

Loja Marimbondo Sinhá – Rua Décio Vilares, 31 – Metrô Tucuruvi – SP Fone: (11) 2265-5704

site de venda de livros: www.estantevirtual.com.br
ou nas mãos do autor, contato: [email protected]

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IHQ: O que é mais difícil: praticar Capoeira ou fazer um livro de HQ?
M.F.:
O fácil é difícil e o difícil é fácil. Depende de quem, como, quando, onde e por quê? Cada coisa tem sua complexidade. A prática da Capoeira exige uma continuidade, é aprendizado para a vida toda.

Fazer um livro de HQ não é qualquer coisa, dá um trampo. Depois de feito talvez o autor nunca mais faça outro, a Capoeira por outro lado, quem bebe dessa água uma vez… há, há.

Pra mim pessoalmente é um prazer praticar Capoeira e fazer quadrinhos, a diferença é que os quadrinhos são aperitivos e a Capoeira é o ar que respiro. Minha vantagem é justamente ser um capoeira, pois ela me dá habilidade pra tudo, vejo o mundo padrão e de cabeça pra baixo. A mesma mão que “planta bananeira”, desenha quadrinhos.

IHQ: Tem planos para lançar outras HQs nessa linha?
M.F.:
Como falei, tem um material engavetado. Espero que um dia saiam de lá pro mundo. Mas no momento to acreditando que Tio Alípio e Kauê vão contar muitas histórias depois de O Beabá do Berimbau.

Mais do que isso, bóto uma fé que esse material incentive a produção de outros trabalhos pelas mãos de outros desenhistas, sobretudo capoeiras como eu, que possam falar através das HQs suas verdades sobre a Capoeira.

Alexandre ManoelentrevistasBeabá do Berimbau,capoeira,Mário Folha,VAILançado no final do ano passado, O Beabá do Berimbau, é um trabalho maravilhoso que explora o tema da Capoeira, algo raro nos quadrinhos brasileiros. Nesta conversa, o autor do livro, Marcio Folha, nos conta um pouco mais de sua história e da realização desse projeto. Impulso HQ: Primeiro, gostaria...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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