Lançada recentemente, 1000 Palavras é uma publicação de tiras de HQ que se destaca pelo inusitado fato de não contar com desenho algum. Veja a resenha HQB de 1000 Palavras, clicando aqui. O autor, Marcelo Saravá, que  também escreve para cinema, TV e teatro, concedeu uma entrevista para o Impulso HQ e fala um pouco mais sobre a origem de seu peculiar modo de fazer quadrinhos, entre outras coisas. Confira:

ImpulsoHQ: Há quanto tempo você faz tiras sem desenho e o que o levou a isso?
Marcelo Saravá: Comecei em janeiro de 2008. Era roteirista de cinema e TV formado em audiovisual na ECA e queria começar a trabalhar com quadrinhos há algum tempo.

O problema era que eu não conhecia desenhistas, não tinha contatos na área, nem portfólio para provar aos desenhistas que eu sabia escrever HQs. Vi uma matéria da Ilustrada sobre webcomics, onde conheci o site A Softer World. Além de ter ficado fascinado com o trabalho, percebi que valia tudo nas HQs, e me forcei a tentar criar algo só meu, algo que me libertasse da constante dependência de parcerias com desenhistas.

Comecei a fazer algumas experiências com recortes de revista, mas não fiquei satisfeito. Fiquei matutando sobre como resolver a questão da imagem, até que me passou pela cabeça que talvez a questão da imagem… não fosse uma questão. E se eu fizesse sem desenhos? Na hora não pensei nas implicações estéticas da minha escolha, só estava feliz de ter achado um estilo que pudesse chamar de meu, e que eu podia fazer sozinho. Foi quando comecei o site.

Isso também me abriu portas para entrar na área e fazer os contatos necessários para parcerias com desenhistas em outros projetos.

IHQ: Muitas vezes, o que mais conquista os leitores numa HQ são os desenhos. Como costuma ser a reação das pessoas com seu trabalho?
MS:
As reações são das mais diversas. Gente que virou leitor constante do site; gente que acha que já que eu me propus a fazer algo diferente, eu deveria “explorar mais a linguagem” – o que eu acho bobagem, essa coisa de precisar “explorar” qualquer linguagem artística o tempo todo; gente que simplesmente ignora meu trabalho e até mesmo gente que fica revoltada por eu chamar o que faço de quadrinhos.

Já ouvi gente falando mal de mim pelas costas: “Quem esse cara pensa que é?” Foi até meio engraçado… foi na FLIP de 2009, acho… Eu aproveitei a fila gigantesca de gente esperando pra conseguir autógrafo do Neil Gaiman e distribui folhetos do meu site. Os folhetos tinham 2 tirinhas e o endereço do site. Foi quando ouvi aquilo. A menina amassou o meu folheto com raiva! E o mais engraçado: Um amigo da menina gostou das tiras e pediu o meu autógrafo!

IHQ: Qual a maior dificuldade em se fazer quadrinhos sem desenhos, do ponto de vista da criação?
MS: Eu preciso pensar nos diálogos de uma forma não expositiva. Informações contextuais fundamentais para criar a história precisam ser passadas sem forçar a barra. Os diálogos precisam soar naturais.

Nos quadrinhos normais, bem como no cinema e até mesmo no teatro (graças às rubricas e indicações de cenário), muitas informações podem ser passadas de forma visual. E isso ajuda a deixar tudo mais natural. No meu caso, tenho apenas as palavras e, talvez, as cores das fontes e dos balões, ou o formato do balão (pensamento, fala, grito, etc) para expressar tudo.

Portanto, depois que eu já tive a ideia, o final, a punchline, eu penso em como passar essas informações contextuais de forma sutil. Um exemplo: Se é importante pra piada que o leitor saiba que estou falando de um sapato azul, não posso fazer um personagem dizer: “Que lindo o seu sapato azul!”, pois não é assim que as pessoas falam.

IHQ: Além das tiras sem desenho, vc também tem uma parceria para fazer tiras com desenhos, certo?
MS: Tenho uma parceria com o Marco Oliveira, um cara genial que também cria tiras (no blog Overdose Homeopática) e tem um humor muitas vezes próximo ao meu, além de trabalhar temas parecidos. Começamos a fazer tiras juntos ano passado e agora formalizamos isso com o blog Banda Non Grata. Até hoje não o conheço pessoalmente.

IHQ: Como você decide qual tira vai ser com ou sem desenho?
MS: São criações diferentes, feitas em momentos diferentes. Eu dedico mais tempo criando as minhas próprias, afinal lanço no site uma por dia (e, em alguns meses, duas ou mesmo três por dia). E de vez em quando resolvo pensar um pouco em tiras para o Marco desenhar… e elas acabam surgindo.

O Marco tem uma lista gigante de roteiros de tiras que já preparei e de vez em quando ele confere a lista e escolhe qual desenhar. Algumas das minhas ideias provavelmente nunca chegarão a ser desenhadas, ou seja, o Marco serve também como editor, ele seleciona as ideias que mais tem a ver com ele, ou que ele acha mais interessantes.

IHQ: Antes de publicar de forma independente você apresentou a proposta da revista para alguma editora?
MS: Sim. Preparei o boneco e apresentei para uma editora que disse não e uma que demorou para me responder. Preferi não esperar a resposta e lançar por conta, pois não queria tardar para lançar a revista. Na minha cabeça, ela tinha que ser publicada no meio de 2011. Não sou muito paciente, e sempre sinto que estou correndo atrás do prejuizo. Por isso, nos meus projetos, sejam eles quadrinhos, cinema ou teatro, eu quero tudo para ontem. A urgência é meu modus operandi.

IHQ: Você tem um site que já passa das mil tiras, por que a opção pelo impresso?
MS: Gosto de papel. E sei que muita gente também é assim. Além disso, havia a possibilidade de alcançar um público que não tem saco pra ler tirinhas na net, mas que sentaria na privada e leria  uma revista assim com todo o prazer. E o melhor de tudo: deixaria a revista no banheiro, à vista de outras pessoas que também poderiam folhear e se interessar.

IHQ: No prefácio da edição você afirma que não é o primeiro a fazer quadrinhos sem desenhos. No entanto, fora os quadrinhos abstratos eu não conheço ninguém que siga essa linha, você poderia me dizer quem são eles?
MS: Tem o Kenneth Koch, um poeta americano que partiu da poesia para chegar aos quadrinhos. Ele manuscrevia poemas de forma visual, como os poetas concretos, mas no caso dele os poemas viravam pequenas HQs. Fora ele, não conheço mais ninguém que tenha realizado toda uma obra de quadrinhos sem desenhos, mas muita gente brincou com esta técnica.

Lembro, por exemplo, do John Byrne fazendo isso no meio de alguma das histórias metalinguisticas da Mulher-Hulk. Mas o propósito, ai, é outro.
Não sei de nenhum outro autor de tiras sem desenho, mas não descarto que haja gente no mundo que o faça, e que tenha chegado antes de mim.

Para conhecer o site de Marcelo saravá e conferir suas tiras postadas diariamente, clique aqui.

Para conhecer as tiras com desenho (de Saravá & Marco Oliveira), clique aqui.

Para conhecer o projeto a Softer World, que motivou Saravá a publicar suas tiras sem desenho, clique aqui.

Alexandre Manoelentrevistas1000 Palavras,Marcelo Saravá,Marco Oliveira,Softer WorldLançada recentemente, 1000 Palavras é uma publicação de tiras de HQ que se destaca pelo inusitado fato de não contar com desenho algum. Veja a resenha HQB de 1000 Palavras, clicando aqui. O autor, Marcelo Saravá, que  também escreve para cinema, TV e teatro, concedeu uma entrevista para o...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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