O artista paulista Luís Schiavon (não confundir com o ex-tecladista do RPM) lançou recentemente GTA São Paulo. Ele fez tudo novo: carros, bairros, anúncios, outdoors, lojas, missões, rádios, detalhes de cenários e personagens totalmente novos.

Schiavon começou desenhando tiras na extinta revista Animal, HQs para várias revistas, jogos para crianças na Folhinha e nas editoras Abril e Conrad. Participou do Cibercomix (primeiro site de HQ brasileiro) desde a primeira série, depois passou para a animação, arte final, intervalação, cenários (para publicidade) e muito mais.

No mês de agosto, Rod Gonzalez se encontrou em uma pizzaria no Tucuruvi, zona norte de São Paulo, com o quadrinhista criador da Vesga, músico, animador, criador de video-games e web-designer. O que não é a tecnologia facilitando a vida de quem curte HQ nacional, não é mesmo?

O bate-papo foi gravado no aparelho celular e, agora que foi transcrito, você pode ler mais essa entrevista que o Rod cede aqui pro Impulso HQ. Confira:

Rod Gonzalez: Quais foram as suas primeiras experiências com HQs?
Luís Schiavon:
Eu entregava jornais com 8 ou 9 anos na área do Largo 13, em Santo Amaro, nessa época o quê era fascinante para mim era a revista Ele & Ela. Num dia das crianças, meu pai me deu uma revista da Mônica e eu gostei tanto que as revistas para adultos ficaram para mais tarde.

Na escola tinha uma moda de figurinhas da Marvel, eu vi aquela sandice, tinha uma caveira pegando fogo, um cara vestido de diabo e confesso que não me interessei muito por isso. Mas o que me deu a verdadeira luz foi a revista Circo, o pessoal daqui fazendo melhor que todo mundo. Depois eu descobri o lobo solitário e o quadrinho PB.

R.G.: Quais foram os seus primeiros personagens? Fez algum curso de desenho?
L.S.:
Eu só acabei um, a Super Zim (antigo produto genérico de limpeza), era uma empregada doméstica que era maltratada, caiu numa de lixo e virava um tipo de mulher maravilha com balde e rodo. Fiz então um grupo de heróis para dar uma surra nos X-men.

Aos dez anos eu tinha um colega na escola que desenhava, meu pai era desenhista também e eu comecei a desenhar porque não aceitava ser pior que eles. Comecei três gibis feitos nos cadernos que deveriam ter as matérias neles.

Fiz um curso de quadrinhos que me mostrou os materiais usados para tanto, transferi para perspectiva e projetos. Fiz um curso de história da HQ com o Luís Gê, também estudei pintura clássica com o mestre Pedro Alzaga e desenho com o escultor Vasco Prado.

R.G.: Quais suas pretensões enquanto desenhista ontem, e hoje em dia?
L.S.:
Eu queria ser o super desenhista e tal, mas conheci um cara melhor que eu, ele fazia um realismo perfeito, mas o cara era um tremendo pé na genitália, e tenho que lhe agradecer por me fazer perceber que o desenho não é a coisa mais importante do mundo.

R.G.: Quando começou a produzir quadrinhos?
L.S.:
Depois, quando eu entrei em contabilidade na USP, descobri que não iria ficar mofando num escritório só para manter uma vida miserável. Comecei a cabular as aulas para ler os gibis na biblioteca da ECA.

Nessa escola era feito um fanzine chamado Vortex e a primeira HQ finalizada saiu lá,” Eu odeio Lambada”. Cheguei também a desenhar roteiros de outras pessoas e redesenhar HQs antigas, mas eu mudava para que tivessem um pouco de humor.

R.G.: Qual foi a sua maior influência?
L.S.:
Dos últimos tempos foi o seriado “Turma do Gueto”, da TV Record, eu adorava aquilo! Me inspirei no Laranjinha e Xaropinho, que eram uns personagens do seriado, pra fazer o Morsinha e Drogadinho numa HQ do Mãos trocadas.

R.G.: Qual sua primeira HQ publicada?
L.S.:
Comecei o Zuper Zâmbala com o Eduardo Veiga, que me ajudava nos diálogos, tentei seguir um estilo antigo com um texto meio diferente. Enquanto a tira no Mau não saia, resolvi fazer uma revista erótica com 64 paginas, havia muita diferença no desenho que eu criava e a referência fotográfica, mas o editor da Sampa, Franco de Rosa gostou da estória e saiu na banca antes da Animal.

Perto dali havia a editora Dealer. Ele pagou à vista as duas HQs que eu mostrei. Realmente achei que iam me roubar na saída!

R.G.: Como foi a época que trabalhou na Animal?
L.S.:
Fiz uma oficina de tiras com os editores da revista Animal que no final publicou no encarte minha tira e de dois outros alunos.

R.G.: O que é aquilo que o Zambala tem atravessado na cabeça?
L.S.:
O visual do Zambi veio do meu reflexo na xícara de camping com café, o roteiro era reflexo da minha falta de habilidade social.

R.G.: Como foi a época da Dundum e da banda com o Adão?
L.S.:
Eu conheci o Moskil e resolvi ir até a Argentina, não vendi nada e parei em Porto Alegre, eu morava a uma quadra do Adão Iturrugarai e acabei participando da Dumdum 3 e também da banda que fez a tour pelo interior do Rio Grande do Sul.

R.G.: E aí depois veio o Glória Aleluia?
L.S.:
Vim para São Paulo vender minhas coisas e voltei para Porto Alegre. Também dei aulas de violão nessa época e comecei a frequentar o estúdio da Otto filmes onde conheci o Allan Sieber que fazia arte final, que começou o Glória Glória Aleluia que teve 4 números.

R.G.: Você teve na Cybercomix também?
L.S.:
Participei de todas as fases na Internet e também da revista, do lendário Tony Demarco.

R.G.: Quando criou o Capitão Presença?
L.S.:
O capitão presença é do Arnaldo! Eu só desenhei uma HQ. Eu criei o Capitão Atormentado. A origem saiu no Cybercomix.

R.G.: Mão de Morsa, na gíria do malandro, é o cara que desarruma o baseado, tem alguma relação?
L.S.:
Não é isso, não (risos). Criei o Mão de Morsa baseado no meu amigo Murdock que tem o aperto de mão mais forte do mundo, o visual foi baseado nos atores das revistas XXX antigas.

R.G.: Beleza, pra fechar esse assunto não tem como não falar no polêmico Drogado Matador. O personagem foi criticado por alguns que o classificaram de apologia as drogas e ao crime, o que você tem a nos dizer?
L.S.:
O Drogado Matador saiu das conversas com o amigo Márcio Cecci, o ponto alto foi a exposição na Holanda. Na minha opinião o personagem é um pesadelo real da vida moderna, uma alucinação artística, enquanto HQ, porém algo possível de acontecer, como vemos nos jornais da TV Record todos os dias. O drogado é o medo irracional que nós importamos dos norte-americanos covardes.

R.G.: E a Vesga como surgiu?
L.S.:
O Murdock criou a Vesga e o fantasma de sua mãe, desenhou as primeiras páginas da “Na trilha dos Trouxas”, e começou as origens da Vesga no norte do Brasil.

R.G.: Fale sobre o Mãos Trocadas.
L.S.:
Quando eu voltei para São Paulo, em 1994, comecei a trabalhar numa agência de publicidade, no meu tempo livre eu comecei a desenhar o Mãos trocadas, nome que encontrei num caderno velho de desenho, mas quem criou depois eu lembrei, foi o John que fazia intervalação no estúdio do Otto.

O MZK bolou as máscaras de todos lutadores. Terminei o Mãos Trocadas 3, depois do insucesso dos dois primeiros, não fico imaginando o que o público quer e então faço algo inócuo.

R.G.: E a Mãe Preta Mágica, o que é?
L.S.:
Em 1997, saiu a “mulher preta mágica” que reunia o Capitão atormentado, Mão de morsa e o Drogado matador, editado pelo Fábio Zimbres que já conhecia antes de ter finalizado qualquer HQ, e que junto com o Jaca, são os melhores artistas brasileiros, na minha opinião.

R.G.: E o Jizla, é mesmo Jesus Cristo? Punhos de Jesus também é Jesus?
L.S.:
Sim, é o mesmo personagem que depois de muito sofrimento se tornou o Jysla, eu queria que ele fosse o vilão da liga da Vesga, mas o homem que ama a todos é o verdadeiro herói! A imagem do Jesus branco e de olhos azuis para mim é criminosa.

R.G.: Seus quadrinhos misturam erotismo e super-heróis, de uma maneira geralmente absurda. Afinal, você quer dizer alguma coisa com tudo isso? Existe alguma mensagem que quer passar pra humanidade?
L.S.:
Não houve interesse no que tenho dito, mas como sempre digo, não me importo que mesmo se todas as pessoas do mundo abracem a idiotice, a mentira e a preguiça, meu coração estará no lugar certo.

R.G.: Já vi apelidarem sua obra de “Carlos Zéfiro do Apocalipse”. O que achou do apelido?
L.S.:
A arte é a redução da realidade, junto o que me acontece e acredito que faço HQs de caráter único que refletem meus defeitos e minhas poucas qualidades.

R.G.: É verdade que se tornou evangélico? A religião influência no seu trabalho?
L.S.:
Sim. Há muita gente honesta na igreja, gente que tem uma sabedoria que um dia eu espero possuir e um erro que acontece muito é desconsiderar quem quer ser melhor. O mãos 2:”Contra o Drogado Matador\Encontro com o diabo”, na época eu enxergava que as igrejas eram só de burros e aproveitadores.

R.G.: Como foi a sua experiência com desenhos-animados?
L.S.:
Comecei a trabalhar com animação publicitária, ainda na mesa de luz. Comecei a fazer grafite, mas minha técnica tosca, com grafite e borracha, me levou a uma tendinite brava que me levou a aprender 3D com a minha mão esquerda.

Fiz alguns comerciais para TV, depois passei um tempo fazendo displays para o Mamelo Sound System, MTV e decorei um boteco\restaurante, pintei um estande da Ellus na fashion week e fui ajudante de pedreiro para o mestre e amigo Carlão Marçal.

Em 2002 até 2005, trabalhei na produtora de filmes Olldog, onde eu comecei a Liga da Vesga para o site da editora Tonto e o jogo para computador em cima do GTa3, fiz animações e ilustras para o Greenpeace e Peta.

R.G.: E o lance dos video-jogos?
L.S.:
O jogo GTA SP 2013, começou quando descobri que os alemães criaram ferramentas para modificar texturas e mapas, vários arquivos desde o clima, parâmetros dos carros e pedestres, estavam abertos, terminei o jogo e pus a venda na Galeria Choque Cultural.

Houve até filas para comprar o jogo quando houve a repercussão nos jornais, eu fui o primeiro que modificou os pedestres e fiz uma dublagem nova para as missões.

Quem jogou, elogia, quem não jogou e se mordeu de inveja, chiou, mas calei a boca de todos, pois o único interesse dos otários é o realismo, que é o verdadeiro vilão dessa história, pois jogos em primeira pessoa com armas verdadeiras são escolas de assassinos, já há tempos que estou falando do colapso do ensino brasileiro, e que não é com esse sistema de ensino estilo velho testamento que vai resgatar a nova geração de torcedores e afirmo que, fazer ferramentas para produzir games, seria o melhor modo de ensinar genética e física para essa nova geração.

No primeiro jogo tirei o realismo e já criei outro desta vez sem sangue nem mortes.

R.G.: Qual seu trabalho mais recente?
L.S.:
Agora eu trabalho com a minha esposa fazendo sites e remodelando negócios

R.G.: Acredita no futuro da HQ nacional?
L.S.:
Culturalmente acredito no potencial do Brasil, mas no momento só existem as novelas e o futebol, o resto é basicamente apenas tradução. Estamos na véspera de eleger outro fantoche, dar continuidade ao governo da esmola, que consegue juntar o estilo do Hugo Chaves e George Bush.

O meu recado é 2014: Torcida Zero, parem de torcer por perna dos outros, pare com a patriotada para ser patriota de verdade. Ser patriota só na hora do futebol é muito tosco!
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Para conhecer mais sobre o trabalho de Schiavon visite o blog Schiavoz, clicando aqui.

O Impulso HQ agradece mais uma vez a Rod Gonzalez por sua gentileza em enviar a entrevista e permitir que ela seja publicada.

Renato LebeauentrevistasLuís Schiavon,Rod GonzalezO artista paulista Luís Schiavon (não confundir com o ex-tecladista do RPM) lançou recentemente GTA São Paulo. Ele fez tudo novo: carros, bairros, anúncios, outdoors, lojas, missões, rádios, detalhes de cenários e personagens totalmente novos. Schiavon começou desenhando tiras na extinta revista Animal, HQs para várias revistas, jogos para...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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