laudo-ferreira-a-meia-noite-levarei-a-sua-alma-3Há vinte anos era publicada pela editora Nova Sampa a adaptação em quadrinhos do filme “A meia-noite levarei sua alma”, produzida por Laudo Ferreira Junior (Yeshuah, Dedos Mágicos) a partir do roteiro original do longa-metragem.

Numa época em que o cenário para a produção de HQs no Brasil estava muito longe de ser “tranquilo e favorável”, a edição protagonizada pelo personagem máximo do cineasta José Mojica Martins, mais conhecido como Zé do Caixão, foi pioneira e ganhou notoriedade na mídia.

Com imenso orgulho, o Impulso HQ conversou com Laudo sobre a adaptação e descobriu histórias interessantes a respeito do período de sua produção e um pouco mais. Confira!

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Página de Noite Negra, roteiro de Lucchetti e arte de Nico Rosso

Impulso HQ: Como foi o caminho da adaptação, desde a ideia até impressão? Você tinha a fita do filme para auxiliar no trabalho?
Laudo Ferreira: O processo entre a ideia e a edição, lançada pela editora Nova Sampa, na ocasião, deve ter levado algo aproximadamente uns três anos. Não me recordo muito bem, mas foi por volta disso. Levei uns seis meses para fazer os desenhos, e acredito que um ou dois meses para fazer o roteiro da adaptação.
Já havia assistido ao filme, “À meia-noite levarei a sua alma” em VHS, mas para a adaptação, tive a sorte de trabalhar com o roteiro original do filme, que me foi passado pelo próprio Mojica.

IHQ: Você teve contato em algum momento com José Mojica, o lendário Zé do Caixão? Ele curte quadrinhos? Sabe o que ele achou da sua HQ?
L.F.: Tive contato com o Mojica todo o tempo e durante alguns bons anos. O que aconteceu foi que, inicialmente, acho que em 1991/92, tive a ideia de levar o personagem Zé do Caixão para os quadrinhos. Tinha tudo a ver. Isso foi antes dele acontecer nos Estados Unidos.

O personagem já chegou a ter revista própria no final dos anos 60, com HQ’s escritas pelo Rubens Lucchetti e desenhadas pelo Nico Rosso e pelo Rodolfo Zalla, mas nesse caso, o personagem era um tipo de mestre de cerimônias, apenas narrando a história e nesses momentos, era usado a sua imagem em fotografias sobrepostas sobre os desenhos.

Página da HQ O enigma do Zé do Caixão
Página da HQ O enigma do Zé do Caixão

Houve também um cordel em quadrinhos, também criado pela dupla Lucchetti/Rosso com o Zé do Caixão, mas o personagem atuando numa hq como protagonista, dentro de seu universo, não havia acontecido até então.

Resolvi procurar o Mojica em sua produtora, na época, no bairro do Sacomã, aqui em São Paulo, e propor toda ideia. O Mojica já andava atrás de um desenhista para justamente levar o Zé do Caixão para os quadrinhos (na época, havia conversado com o então grupo Delta, do qual faziam parte o Dark Marcos e o Omar Viñole, futuros parceiros meus), e acabou abraçando o meu projeto.

Fiquei uns dois dias inteiros com ele, falando sobre o personagem, conhecendo seu universo, uma imersão verdadeira. O Mojica propôs então que fosse desenhada a primeira história do Zé do Caixão que é justamente o filme “À meia-noite levarei a sua alma”, jogou em minhas mãos o roteiro original, que tenho até hoje e aí, foi só trabalhar no roteiro e posteriormente nos desenhos.

Vale contar que na realidade, a HQ “À meia-noite levarei a sua alma”, trata-se de uma transposição do filme para os quadrinhos, pois se for conferida a História em Quadrinhos com o filme, vai se verificar que o roteiro do filme está na íntegra lá.

Por fim, eu e o Mojica, dentro deste processo todo, acabamos virando bons amigos, assim como de seus filhos, e essa aproximação me fez admirar ainda mais a pessoa, o ser humano que ele é, e o grande artista. Foi uma imensa honra ter convivido todos aqueles anos com ele. Hoje, já faz algum tempo que não o vejo, infelizmente, mas claro, todo esse carinho e admiração perdura e perdurará sempre.

laudo-ferreira-a-meia-noite-levarei-a-sua-alma-2IHQ: O cineasta já disse que faz questão de escolher bem as mulheres para os seus filmes e você, não obstante, se preocupa com as figuras femininas em seu trabalho. Comente esse feliz encontro de interesses.
L.F.: Existiu esse “interesse” pelo feminino tanto nos filmes do Mojica, quanto nos meus quadrinhos, mas claro, assim como existe esse interesse em uma infinidade de desenhistas e diretores de cinema. O fato é que há uma característica desde sempre em meus quadrinhos, de figuras femininas fortes, atuantes, vivas e claro, às vezes, belas e sensuais. Assim foi quando produzi a série Tianinha, para revista “Sexy Total”, durante nove anos; em muitas HQ’s curtas, na trilogia Yeshuah, onde, mesmo se contando a história de Jesus, as figuras femininas são fortes lá.

No caso específico dos filmes do Mojica e do seu personagem, havia uma preocupação estética da figura feminina. Eram anos 60/70, mulheres bonitas, sensuais, a pornochanchada estava em alta no país, e o Mojica era um dos diretores expoentes da então Boca do Lixo, aqui em São Paulo, local próximo à Estação da Luz, onde havia as produtoras de filmes do gênero.

O Mojica sempre colocou mulheres fortes em suas histórias, tanto em filmes do Zé do Caixão, quanto em outros que dirigiu. Vale dizer, que a busca eterna de seu personagem é pela tal “mulher perfeita”, que nada mais seria do que uma versão feminina de si. A mulher superior, na mente, no raciocínio, niilista, como o próprio. No filme, “Esta noite encarnarei em teu cadáver”, sequência do primeiro, Zé do Caixão encontra a mulher ideal, figura que domina a situação e torna-se parceira do próprio, porém, infelizmente, o destino age contra o agente funerário.
Mas, na época, existia um elemento erótico muito forte em meus quadrinhos, no meu desenho, nas minhas mulheres e claro, combinar isso com o Zé, foi perfeito.

laudo-ferreira-a-meia-noite-levarei-a-sua-almaIHQ: Como era o mercado de quadrinhos na época?
L.F.: Não existia. Em 1996 acredito que, com exceção d’um álbum do Lourenço Mutarelli, a única outra coisa lançada via editora, foi o “À meia-noite levarei a sua alma”. O meio alternativo/independente se restringia a edições reproduzidas em xerox, de baixíssima tiragem, muito distante do cenário atual.

Na época de seu lançamento, houve muita divulgação da mídia, foi feita uma sessão de autógrafos no Espaço Unibanco de Cinema, com a exibição de cópia restaurada de “Ritual dos sádicos”, muita gente badalando. Uma grande noite para o Mojica e para o quadrinho nacional, mesmo sem possibilidade de mercado, então.

IHQ: No texto de abertura da primeira edição de sua HQ Depois da Meia Noite, em 2007, você comenta o incômodo quanto a ficar marcado pela sombra da adaptação… fale um pouco sobre isso.
L.F.: “Incomodo” é uma palavra que soa um tanto pesada, pois não era algo que me atrapalhasse tanto. Não me recordo do texto de “Depois da meia-noite”, mas acredito que expus isso de outra forma. Mas claro, o que aconteceu é que naquele período e, durante um bom tempo, era conhecido como “o desenhista do Zé do Caixão”, e acredito que nossa proximidade ajudou muito.

Sempre se quer que o público enxergue você dentro de um campo maior de possibilidades, e aí sim, talvez gere um incômodo. Mas a coisa não era tão pesada com certeza. Da mesma forma, na ocasião em que produzia a série da Tianinha, muita gente me julgava como um cara devasso, chegado a orgias, coisas deste tipo.

ze-do-caixao-2Em certa ocasião um cara me ligou, todo eufórico, e logo de imediato queria saber se eu estava desenhando a Tianinha e, se tinha ereções enquanto fazia suas histórias. Como assim?

Mais recentemente, muitas pessoas me julgaram “carola”, ou do tipo esotérico de butique, ou mesmo um “coxinha careta”, pelo fato de ter feito o Yeshuah (e vale dizer que essas pessoas provavelmente não leram a obra).

Os rótulos sempre são complicados e limitadores, se por um lado é o que o público tem seu, por outro é o limite do que ele às vezes dá ao seu trabalho. Por isso, após lançar o último livro do Yeshuah, fiz “Dedos Mágicos” com roteiro do Marcatti, que é uma coisa diferente.

Enfim, isso hoje não me incomoda nada. Não cabe a mim, pensar sobre. Fiz Zé do Caixão, várias hq’s dele, fiz Tianinha, fiz “Histórias do Clube da Esquina”, fiz “Auto da barca do inferno”, fiz “Depois da meia-noite”, Yeshuah… este é o meu trabalho.

IHQ: Como seria lançar a adaptação nos dias de hoje? O que você faria diferente? Existe alguma chance de republicar esse material?
L.F.: Nunca pensei sobre. Claro que os fãs do Zé do Caixão iriam curtir. Minha cabeça está bem distante deste período, bem desprendida. Acredito que uma republicação de “À meia-noite levarei a sua alma” e a publicação na íntegra do ainda inédito “Esta noite encarnarei em teu cadáver”, valeria muitíssimo para os mesmos fãs, carentes desta versão, pois muitos ainda me cobram em eventos, além de valer principalmente para agregar ao imenso universo de publicações do Mojica.

Há uma editora que está flertando comigo a publicação destas duas HQ’s. Vamos ver. Seria legal, mesmo eu torcendo imensamente o nariz pelos meus desenhos da época, fraquíssimos, amador e outras coisas mais, mas por outro lado, é o que eu fiz e tinha a oferecer na época.

Laudo-Ferreira-Zé-do-CaixãoIHQ: Laudo, gostaria que você fizesse um balanço a vontade sobre os 20 anos da HQ e, se não for abusar, queria te sugerir fazer um esboço comemorativo pra marcar o momento.
L.F.: Como criador, “contador de histórias”, tenho por natureza sempre ir adiante. Fiz a obra, passo por todo um processo pessoal na gestação desta obra, alguns intensos, outros menos, mas todos possuem seu processo. Porém, após lançar, eu realmente me desprendo desta obra, a deixo seguir seu rumo, seu caminho, com sua história como publicação e para com o público.

Assim foi com “À meia noite levarei a sua alma”. Tenho plena consciência de sua grande importância na minha carreira, do salto que dei, do meio fanzineiro, independente e das revistinhas pornôs, que fiz muito, para uma publicação, editorial, que teve um imenso retorno de público, fãs do Zé do Caixão e de mídia. Foi algo muito mais de se lançar no espaço, sem pensar muito nas consequências, pois era imaturo em muitos sentidos, como pessoa, como artista. Mas assim é que tem que ser, por outro lado, para que promova o caminho e o crescimento.

Tenho a consciência também do que ela representou para o Mojica e para seus fãs e isso, claro, me deixa imensamente orgulhoso. Confesso que o que vale muito mais é a lembrança e o convívio que tive com o Mojica, isso foi impagável. Os quadrinhos feitos, então, foram consequências de carinho e admiração.

***

O Impulso HQ agradece a Laudo Ferreira por compartilhar conosco experiências tão legais, e ainda você confere, impulsivo leitor, um desenho comemorativo exclusivo que o quadrinhista fez para o site em comemoração da data.

Valeu, Laudo!

#HQameianoitelevareiasuaalma20anos

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2016/03/Laudo-Ferreira-Zé-do-Caixão-1.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2016/03/Laudo-Ferreira-Zé-do-Caixão-1-300x300.jpgDennis RodrigoentrevistasA meia-noite levarei a sua alma,José Mojica Martins,Laudo Ferreira,Nova Sampa,Zé do CaixãoHá vinte anos era publicada pela editora Nova Sampa a adaptação em quadrinhos do filme “A meia-noite levarei sua alma”, produzida por Laudo Ferreira Junior (Yeshuah, Dedos Mágicos) a partir do roteiro original do longa-metragem. Numa época em que o cenário para a produção de HQs no Brasil estava muito...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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