Lancelott é o codinome de Bartolomeu Martins, veterano do ciclo de fanzines que varreu o Brasil durante os anos 1980, e criador do personagem Exú-7. Atualmente é responsável pelo projeto HQ Quadrinhos, uma verdadeira enciclopédia sobre super-heróis brasileiros na internet. Em seu espaço virtual faz verbetes e desenha de próprio punho todos os super-heróis brasileiros que já apareceram nos quadrinhos, desde os gibis clássicos, até os que surgiram durante a febre dos fotologues.

O autor inclusive solicita para quem quiser ter seus personagem desenhado e resenhado, além de devidamente registrado nessa página que envie dados para [email protected].

Nessa entrevista cedida a Rod Gonzalez, o quadrinhista fala mais sobre seus projetos e a sua trajetória no mundo das HQs:

Rod Gonzalez: Quando criou seu primeiro personagem?
Lancelott:
Eu copiava o Fantasma e fazia histórias dele naqueles cadernos com pautas e coloria tudo, ficava como se fosse uma revista, mas só vim  mesmo criar personagens na década de 1980 quando comecei a fazer fanzines em mimeógrafo e charges para um jornal chamado Inovação.

A década de 1980 foi um período fértil, eu trabalhava numa gráfica do SESC, no setor dos mimeógrafos e fazia escondido os fanzines. Tinha que “queimar” o “stencil”  (eram caros) e rodar com a tinta deles. Rodava um cultural, sobre artes em geral e outro mais importante para mim, O Querela, com minhas criações e de amigos.

R.G.: Quando publicou os seus primeiro fanzines? Quantos foram ao longo da carreira?
L.:
Como disse, comecei na década de 1980, por estar em um ambiente “propício”. Produzi 36 edições de um fanzine chamado Querela e outras publicações que não eram voltadas para os quadrinhos, onde falava de cultura e resenhava livros de autores nacionais.

O Querela, meu fanzine de quadrinhos, abordava mais esta linha do fantástico, lendas, mitos e cordel.. Lá surgiu o Exú, que era um Deus Afro do Candomblé, o Sete Estrelas, um vaqueiro que foi trucidado e depois ressuscitado por “sete estrelas” e era ligado a mundo do cordel, e a  Salamandra de Fogo, oriunda das crenças populares referente a seres da mata que ardem em fogo.

R.G.: Ainda possui cópias dele?
L.:
Não, infelizmente, eram de pouca tiragem e eram distribuídos gratuitamente e às vezes, apenas trocados por papel “chamex” e, ademais, tivemos que levar a vida à “sério”, fazer concursos, trabalhar fora e terminamos nos separando e abandonando o mundo dos fanzines, tão caros para nós. Consegui apenas depois que retornei a minha cidade, duas capas, a da edição #7 e #17, somente isso. Parece que ninguém guardou nada, uma pena. Era tanto trabalho.

R.G.: Você criou um personagem ligado a religiões afro-brasileiras.  O que você pode falar sobre ele?
L.:
O Exú, ou Exú 7. Na verdade a denominação 7 o foi apenas por causa da edição do fanzine que ele surgiu e também porque eu era fã do Capitão 7, fiz essa relação com o número, mas que não tem nada a ver com a mitologia do personagem. Ele é um deus afro do Panteão do Candomblé, então eu apenas o introduzi no mundo dos mortais a experimentar os sentimentos humanos e caminhando entre eles. É um orixá muito controverso, nada no mundo dos orixás se movem sem o conhecimento dele e ou se desloca sem ele saber.

No Candomblé ele é conhecido como A Esfera, tendo o poder de se mover por portais do presente, do passado e do futuro. É um guerreiro e um sedutor cheio de trejeitos mortais. É bem legal!

R.G.: Já produziu alguma HQ com ele?
L.:
Nos 36 números do Querela, posso lembrar de umas 20 a 25 histórias. Eram curtas de 3 a 4 páginas, as vezes com temas leves. Como não consegui recuperar este material, reescrevi toda a saga do personagem readaptando alguns tópicos. Pretendo finalizar esse material até o final deste ano de 2011, quer dizer desenhar. Para isso, já estou com um amigo, que julgo de traço apropriado para o personagem (tipo Mike Mignola). Estamos fazendo estudos.

R.G.: Como e quando descobriu os super-heróis brasileiros?
L.:
Com o Capitao 7 da Continental. Vi uma maravilhosa possibilidade de termos nossos heróis nos quadrinhos, depois com o Raio Negro e toda trupe da década de 1960.

R.G.: Por que decidiu abrir um blogue de fichas de super-heróis brasileiros?
L.:
Foi uma curiosidade do tipo “temos heróis brasileiros?”. Temos, e comecei a pesquisar. Tinha muitos contatos com antigos colecionadores e trocando ideias vi que quase nada se sabia a respeito. Todo mundo sabia dos personagens da Golden Age Americana então comecei o blog com estes personagens para atrair estes leitores e mostrar nossas criações. Outro pensamento foi tributar aos criadores seus direitos sobre os personagens registrando seus nomes para o conhecimento público. O fato é que uma despretensiosa brincadeira de fã terminou por se tornar um trabalho de pesquisa séria.

R.G.: Como está a repercussão do blogue?
L.:
Não esperava repercussão alguma mas, até a BBC de Londres já escreveu sobre o meu blog, através do jornalista Ivan Lessa atribuindo uma cotação de 5 estrelas e citando-o como o melhor blog do mundo no gênero. Tenho recebido muitos questionamentos de estudantes em fase de pós-graduação utilizando-o como referência. Palestrantes o tem utilizado como fonte também, fora os convites para falar sobre o Quadrinho Brasileiro, enfim, não esperava tamanho interesse por personagens do nosso quadrinho. Muitas das “fichas” estão replicadas pela web afora (pena que não citam a fonte).

R.G.: Pretende lançar esse material em livro?
L.:
Tenho uma proposta para publicação impressa e uma outra para impressão sob demanda juntamente com a venda  por download, mas estou reformatando todo material e corrigindo alguns enganos e ou informações equivocadas mesmo. Na grande maioria, são as próprias fontes que contém vícios e não se fundamentam. Por causa disso estou buscando me subsidiar com antigos colecionadores e adquirindo material original (muito difícil), por isso creio que deva demorar um pouco.

Até o momento estou com mais de 300 páginas em formatação. Serão publicados todos os posts sobre os personagens brasileiros notadamente, voltados para o gênero herói super-herói  até a data do fechamento do livro, com o titulo CATÁLOGO DE HERÓIS BRASILEIROS. Para você ter uma ideia, eu formatei no meu blog um pré-volume do que vai ser no livro CATÁLOGO DE HERÓIS BRASILEIROS para download free e este já vai pra mais de 1.000 downloads.

R.G.: Qual o critério que você usa para selecionar um personagem para ser fichado no seu blogue? Já excluiu algum personagem?
L.:
Pesquisa mesmo. Mas tenho recebido quase todo dia uma grande quantidade material. Na verdade não faço distinção se o personagem foi originário de fanzine, webcomic, se de mídia impressa “oficial”, etc. Creio que a publicação da ficha tem também o objeto do registro autoral da criação ajudando a mostrar quem é o criador do personagem, por este mote tenho incluído muitos personagens novos.

É uma forma de incentivar a criação de mais personagens brazucas. Infelizmente já tive que excluir personagens sim, pelos mais diversos motivos, desde briga entre os criadores bem como, outros, acharem que eu estaria me promovendo às custas dos personagens deles e outras que você nem imagina. O mais difícil neste trabalho tem sido os contatos com os próprios autores, a grande maioria não responde e ou não passam informações e os dados nas publicações são incompletos e o/ou imprecisos e quase não registram datas, coisas assim.

R.G.: Acredita que existam máfias secretas conspirando contra os super-heróis brasileiros?
L.:
Não acredito não. Acho que somos mesmos é desorganizados e muito egocentristas. Os americanos começaram cedo este negócio de sindicatos e distribuição, aqui nunca nos organizamos. Basta ver a nossa história nos quadrinhos, o que foi feito, o foi por empreendedores corajosos aqui e ali, tipo CETPA, TAIKA, GRAFIPAR, EDREL, M&C, etc…mesmo contra censura e a grande indústria.

R.G.: O que pode ser feito para melhor o cenário dos autores de super-heróis brasileiros, torná-los mais produtivo$?
L.:
Organizacão! Unidade! O mundo esta cada vez mais globalizado e sem sombras de dúvidas é uma situação irreversível. Temos até uma boa produção autoral, mas pecamos em distribuir e vender por carência de gestão. Digo isso, por às vezes ter dificuldades de comprar em sites de colegas em virtude de, por exemplo, não aceitar cartão e ou remessas só pra um tipo de banco que não tem naquela cidade. Quanto ao produzir temos vários nichos, mas quem for fazê-lo deve ter foco e ser contínuo, criar um grupo, uma equipe e produzir mesmo, aferindo o que esta fazendo.

R.G: Os criadores de super-heróis brasileiros ainda podem enviar fichas com as suas criações para serem publicadas no seu blogue? Como entrar em contato?
L.:
Eu gostaria muito e principalmente com informações completas. No próprio blog eu coloquei um anúncio tipo “tio sam” – EU QUERO SEU PERSONAGEM AQUI,  pedindo isso. Quem quiser fazê-lo deve enviar para o e-mail [email protected].

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