“Há uma coisa que os nossos vizinhos estão anos luz da maioria de nós: Um sentimento de América Latina”

No final de 2009 o quadrinhista e editor Jozz publicou a 4ª edição de sua revista, o Zine Royale. Uma edição especial com o tema: América Latina.

Nós do Impulso HQ o procuramos para que ele nos contasse um pouco mais dessa publicação e os motivos que o levaram a escolher essa temática. No entanto, logo após o lançamento, Jozz embarcou para uma turnê de cinco meses em alguns países sulamericanos para a divulgação da edição e um contato mais próximo com os quadrinhistas desses países.

De volta ao Brasil, Jozz finalmente falou com a equipe do Impulso HQ numa entrevista que vocês conferem logo abaixo. Entre outros assuntos, Jozz fala sobre os motivos que o levaram a realizar uma edição especial com o tema América Latina, algumas características dos quadrinhos sulameicanos, política e um pouco de como foi a sua viagem.

Confiram:

Impulso HQ: Gostaria de saber como surgiu a idéia de uma edição especial com o tema América Latina? Na hora da escolha desse tema você já tinha em mente uma turnê pelos países sulamericanos?
Jozz:
Primeiramente a escolha vem por um gosto pessoal. Fui me encantando pelo nosso continente com o passar do tempo, buscando por exposições, lendo livros, fazendo cursos, até começar a querer entender um pouco mais sobre essa sociedade e suas políticas.

Em 2007 fui à Buenos Aires para assistir um ciclo de debates sobre design gráfico e, para minha surpresa, na feira do evento havia uma banquinha de quadrinhos da editora Domus, ainda pequena na época. Comprei tudo, e vendi pra ele revistas independentes brasileiras que levei comigo.

Entre os que eu comprei estavam Max Aguirre e Lucas Varela. Em uma pesquisa rápida na net vi o tamanho que estava o cenário de quadrinhos lá. Então, por sites e blogs, fui me informando do que rolava, até que em maio de 2009 decidi ir ao Viñetas Sueltas, o grande festival de historietas de Buenos Aires. Conversei previamente com a organização e pude montar uma banca do Quarto Mundo na feira do evento.

Fui decidido a encontrar Max e Lucas para conversar, mas além deles acabei conhecendo muitos e muitos outros, e com alguns até criando uma amizade que está rendendo frutos hoje. E entre eles chilenos, bolivianos, peruanos, mexicanos.

Quando voltei, não conseguia pensar em outra coisa a não ser dar minha contribuição para estimular esse intercambio. Assim, ainda em 2009, lançamos a Zine Royale nº4.

A viagem de mochilão que eu faria em 2010 rolaria de qualquer jeito, com revista ou não, e acho que casou perfeitamente. Parece ter fechado um arco de histórias e começado outro agora, com futuros projetos.

Sótano Blanco, escola de arte em Buenos Aires Argentina. Da esquerda pra direita Salvador Sanz, desenhista que logo estará lançando um álbum pela zarabatana. Dois professores da escola. De azul claro Javier Suppa, desenhista, e de barba Alejandro Farias, roteirista, com o Jozz está fazendo um album

IHQ: O que mais te atrai na cultura latino americana?
Jozz:
O povo. Sua história, mas principalmente sua visão de mundo e de futuro.

Havia lido por aí que a população latinoamericana (hispano hablante) é naturalmente um pouco mais engajada que nosso povo brasileiro. Pode ser verdade, mas acho que está mudando aqui, pois afinal, o povo brasileiro conseguiu eleger um governo mais socialmente preocupado e acredito que isso só é possível com consciência e reflexão.

Agora, há uma coisa que os nossos vizinhos estão anos luz da maioria de nós: Um sentimento de América Latina. Apesar dos nacionalismos isolados de cada país, todos com quem conversei foram unânimes em demonstrar o orgulho de ser latino americano e a gana de que nos unamos definitivamente em prol dos interesses comuns.

Quando conto isso a algum brasileiro, sinto o risinho no canto do rosto, – como se essa história fosse uma fábula, ou um filme antigo de mocinho e vilão, – e aí é que está o problema, essa reação equivocada.

IHQ: Como se deu o contato com os autores estrangeiros que participam da edição?
Jozz:
Como disse acima, fui a Buenos Aires em 2009 e, entre outros, conheci a Argentina Cammie. Já o mexicano José Alfaro conheci fora dos quadrinhos, ele é designer e apesar de adorar quadrinhos nunca havia feito uma HQ. Chamei-o pela experimentação visual e pelo tema que ele soube abordar muito bem.

IHQ: Como foi a turnê (em quais países e eventos participou) e como se deu o contato com os locais pelos quais passou e o público desses locais?
Jozz:
O mochilão começou no Uruguai, passou pelo norte da Argentina, entrou no Chile, rodou a Bolívia, e chegou ao Peru; os outros países terão que ficar para uma próxima.

Muitas das cidades em que passamos (estávamos viajando em duas pessoas, eu e o portoalegrense Denny C., também da Zine Royale.) íamos encontrando pessoas que conheci no Viñetas Sueltas. E esses me colocavam em contato com outros artistas que estariam pelo caminho e que eu ainda não conhecia pessoalmente.

Todos muito amáveis e extremamente felizes de ver brasileiros dessa área finalmente interessados em ver o trabalho deles. Como se todo o continente estivesse em uma barca promissora rumo a um objetivo, e só nós estamos fora, por orgulho, ou sei lá o quê.

Frank Arbelo e Jozz

IHQ: Você acha que o brasileiro, talvez por questões de imigração ou parentesco, se sente mais próximo do povo europeu, japonês ou africano do que latino?
Jozz:
Acho que o brasileiro tem um pouco disso, de se esquecer que É latino. E ainda tem um pouco de fazer questão de não se misturar com os vizinhos, ou mesmo com a África, como você citou, talvez por um complexo de inferioridade.

Mas, poxa, vamos ser sinceros, isso mudou muito nos últimos oito anos, não?
Como só jogam para nós material estadunidense, europeu e japonês, a gente acaba achando mesmo que tem mais a ver com estes que aqueles.

Agora, para sair do estado de dormência cultural que temos nessa relação de vizinhos, não vai adiantar esperar lei federal de nenhum governo. As coisas ainda funcionam assim: vamos arregaçar a manga e fazer. Produzir coisas aqui, conhecer gente lá, e publicar lá. Trazer as coisas dessas pessoas de lá e publicar aqui. Começa pequeno, cria-se a demanda, depois vai.

Na livraria/editora Contra Cultura no Peru. Esquerda pra direita, quadrinista peruano, Jozz, Jessus Cosio, Jorge Perez e Benjamin, dono da livraria e editora

IHQ: O que você destacaria na cena de quadrinhos que presenciou nos países em que visitou?
Jozz:
Bom, na Argentina, como já estamos sabendo pelas novidades que vem chegando, há uma produção enorme e de excelente qualidade. Sim, isso ainda tem que ser destacado.

No Chile a produção já não é tão grande quanto a vizinha, mas há grupos de quadrinistas bem fortes, uns experimentais e outros bem mercadológicos. Lá o governo apóia a cultura – e muito bem, rendendo festivais de historietas em museu de arte. Bom, pelo menos o governo Bachelet apoiava, vamos ver esse agora.

Na Bolívia, achei que não havia nada de quadrinhos quando cheguei, tirando as duas pessoas que eu conhecia previamente. Mas me enturmei a um grupo excelente. Eles organizam o festival Viñetas con Altura, que inclusive tem chamado sempre brasileiro para participar.

No Peru, conheci a livraria ContraCultura, em Lima, onde o dono, Benjamin Corzo, também edita quadrinhos (e seu material é bem conhecido no continente, pelo que vi), além de outros artistas.

“Sempre reclamamos que [as pessoas] não compram quadrinhos, mas até outro dia quase não tinha quadrinho bom pra comprar”.

IHQ: E em relação à estética e conteúdo?
Jozz:
Claro que isso depende muito do autor. Mas me chamou a atenção a boa quantidade de quadrinhos críticos ou com temática social.

Na questão estética, como aqui, existem vários tipos de traços e propostas, mas tenho a impressão que eles foram mais influenciados pelo estilo de quadrinho europeu. É claro também que vendem quadrinho estadunidense e mangás como em qualquer canto do mundo, e tem gente desenhando nessa linha.

IHQ: O Zine Royale 4 foi lançado nesses países ou há algum plano para lançá-lo?
Jozz:
O único lugar que rolou lançamento mesmo foi na Bolivia, com o Zine Royale, a JAM! e meu último livro, o Menthalos. Foi na C+C Espacio, uma excelente gibiteca em La Paz. Nos outros lugares somente apresentei a revista a autores, editores, donos de loja.

IHQ: As próximas edições do Zine Royale continuarão com esse tema, ou ao menos com a participação de autores latino americanos?
Jozz:
Acho que na próxima edição da revista muita coisa vai mudar. Mas apesar do tema alterar, como em toda edição, acho legal manter o intercambio.

IHQ: Realizar algum tipo de parceria com autores e/ou editores independentes latino americanos está nos planos da revista ou do coletivo Quarto Mundo?
Jozz:
Como disse antes, a revista vai continuar o intercambio. No meu caso, já tenho trabalho em parceria com eles. Fiz uma HQ para a coletânea uruguaia Monstruo, editada por Rodolfo Santullo, o roteiro era de Ramiro Sanchiz. A convite do Max Aguirre, colaborei com ilustração na edição de setembro de 2009 da revista argentina Fierro. Fiz à pouco uma HQ para a revista digital argentina NoRetornable. E já estou trabalhando em um álbum grande com o roteirista argentino Alejandro Farias.

E não sei com relação ao Quarto Mundo, mas acho que essa troca vai crescer. Parece-me que a revista Café Espacial tem algo em mente.

IHQ: Na entrevista com Eloar Guazzelli, publicada na edição do Zine Royale dedicada à América Latina, você o fez uma pergunta que gostaria de fazer-lhe agora: Existe uma dificuldade de produção, informação e troca cultural entre o Brasil e os outros países latino americanos. Por que isso ocorre e o que poderíamos fazer para mudar esta situação?
Jozz:
Existe, mas é só uma questão de se mexer, pois esse tema da língua já está superado. Além de ser hipocrisia, pois quadrinhos importados estadunidense vendem por aqui, apesar da língua. Duvido que todos os que compram esses comics saibam ler inglês.

E o que poderíamos fazer? Já estamos fazendo! Cada um à sua maneira. Além de mim, tem o Paulo Ramos que escreveu um livro ótimo sobre a Argentina, o Cláudio da Zarabata publicando livros argentinos, o Sérgio Chaves e a Lídia Basoli, da Café Espacial, indo até a Bolívia para mostrar o trabalho e trazer novidades. Isso sem falar de pessoas que sempre estiveram ligadas aos nossos vizinhos todos esses anos, como o Guazzelli, Fábio Zimbres, Daniel Bueno, Samuel Casal. É assim que começa uma grande mudança, atitudes individuais com objetivos comuns, que somadas muda um cenário e quebra paradigmas.

IHQ: Além desses exemplos que você citou, a outros trabalhos de autores latino americanos (mais especificamente argentinos) no mercado brasileiro, como o autor Liniers que publica suas tiras no jornal Folha de São Paulo e teve alguns trabalhos lançados pela editora Zarabatana, mesma editora que lançou Clara da Noite (do roteirista Carlos Trilla). Outras editoras também lançaram, recentemente, material do país vizinho, como a Conrad, a V&R e a Globo. Sem mencionar os autores que publicam em revistas independentes como a Graffiti, Ragu, Subversos, o próprio Zine Royale etc. A que você credita esse crescente interesse brasileiro na produção argentina?
Jozz:
Não sei se é o interesse brasileiro aumentando. Acho que são atitudes individuais, proporcionando uma oferta. Era exatamente o que faltava. Aquele papo da montanha e Maomé, rs. Ficar “pedindo” ao público brasileiro que se interesse por quadrinhos latinos é ridículo. Tem que ir lá buscar os caras e oferecer aqui e dizer: “Olha, viu como é bom?”. E claro, fazer o inverso, levar o nosso [quadrinho] lá para eles e dizer o mesmo.
De pouco em pouco. Acredito que essa oferta vai criar uma demanda, e aí a engrenagem gira.

IHQ: As dificuldades dos quadrinistas de outros países latino americanos são as mesmas dos quadrinistas brasileiros?
Jozz:
Sim, são bem parecidas. Todas esbarram no papo do dinheiro e falta de público. O que me faz pensar que, tanto lá como aqui, a solução também pode ser a mesma.

C+C Espacio, La Paz, Bolivia

IHQ: Mesmo sendo formada por muitos países pobres, a América Latina engloba três dos chamados países emergentes (países que estão em desenvolvimento e cuja economia apresenta grande potencial de crescimento): Argentina, Brasil e México. Por que a economia desses países – quase sempre em bom estado – não impulsiona seus mercados internos de quadrinhos?
Jozz:
Bom, aí é uma pergunta difícil, de economia, pra um quadrinista, rs. Veja, por mais que eu ache que as coisas melhoraram muito nos quadrinhos para Brasil e Argentina, acho que a melhora se deve mais ao profissionalismo da área do que a um apoio governamental. É claro que agora temos mais editais – se olhar o site do ministério da cultura, verá quantos editais temos e as possibilidades artísticas que podemos desenvolver – mas essas oportunidades sugiram por que as pessoas – sempre as pessoas – estão se mexendo mais.

Sempre reclamamos que não compram quadrinhos, mas até outro dia quase não tinha quadrinho bom pra comprar, oras! Hoje as bancas e as livrarias estão fartas por quê? O povo começou a comprar do nada? Eu acho que não. Eu acho que quem produz começou a achar alternativas de se publicar e se mostrar. Vendo a oferta, as editoras voltaram a apostar nisso, nos mais maduros, talvez. E os editais passaram a focar esse segmento. Isso aumentou o numero de material de qualidade, logo, as vendas.

IHQ: Nos últimos anos, a América do Sul viu a ascensão e eleição de muitos líderes vindos das classes mais baixas da população e/ou de origens socialistas (como é o caso dos presidentes Lula, Evo Morales, Michelle Bachelet e até do controverso Hugo Chaves), teoricamente mais comprometidos com causas sociais e a cultura local do que os presidentes eleitos até então. Até que ponto você acredita que as histórias em quadrinhos foram, ou serão, beneficiadas com a linha política adotada por esses líderes e partidos?
Jozz:
Historicamente, a esquerda sempre apoiou mais à cultura. No Chile, especificamente, ouvi dos artistas sobre o aumento para eles das possibilidades de se fazer, promover e vender que o governo Bachelet proporcionou.

Na Bolívia vi donos de agências de turismo reclamando do Evo, mas estive em uma comunidade indígena onde ele é bem visto, pois agora ali tem água, luz, e a festa típica daquela cidade cresceu aumentando as vendas do comércio e dos serviços.

Mas ainda assim, repito que devemos cobrar nossos governantes, mas não esperar tudo deles. Até por que, do jeito que a oposição no Brasil pensa (ou pensa que pensa), quando o governo ajuda, eles correm dizer que é paternalismo. Então, acredito que se você conseguir colocar no poder alguém que você votou, não deve relaxar e pensar “esses próximos quatro anos serão bons”, ao contrário, além de cobrar, tem que se esforçar – dentro da sua área – para gerar oportunidades, oferecer coisas, enfim, fazer seu trabalho, sua arte, que no final das contas é o motivo da nossa existência. E isso, acreditem, independe de qualquer governo.

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O Impulso HQ agradece ao artista pela enorme atenção com que nos tratou, pela entrevista cedida e pelo envio das fotografias.

Para saber mais sobre o trabalho de Jozz, clique aqui.

Alexandre ManoelentrevistasEdición Latinoamerica,Jozz,zine Royale'Há uma coisa que os nossos vizinhos estão anos luz da maioria de nós: Um sentimento de América Latina' No final de 2009 o quadrinhista e editor Jozz publicou a 4ª edição de sua revista, o Zine Royale. Uma edição especial com o tema: América Latina. Nós do Impulso HQ o...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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