eu-vi-o-super-homem_01Jean Okada atua no mercado de ilustração e quadrinhos desde 1988, publicou nas revistas Turma do Barulho, Metal Pesado e Planet Sex Quadrinhos. Em 2004, seu personagem Kário ganhou uma edição pela Marca de Fantasia e algum tempo depois deu início a produção da web comic de ficção científica Exploradores do Desconhecido em parceria com o roteirista Gian Danton.

Jean participou do especial MSP50, no qual criou uma aventura do Astronauta para homenagear o cinquentenário de carreira de Maurício de Sousa em 2009. Mais recentemente Jean Okada tem produzido para internet as aventuras do Pequeno Jeanzinho e é por aqui que daremos início a esta entrevista…

Impulso HQ: De onde surgiu a ideia para o Jeanzinho?
Jean Okada: Foi culpa da minha namorada, a Sayonara. Eu ficava lhe contando algumas memórias de infância e ela sempre dizia que dariam boas HQs. Eu nunca levei isso à sério até que, depois de muita insistência dela, resolvi contar a história em que eu tinha visto o Super-Homem na rua.

Era a mais curta e, portanto, a mais rápida de fazer. Achei que ninguém daria a mínima para a história, e assim a Sayonara me daria razão e pararia de insistir nisso. Mas aconteceu o contrário: as pessoas gostaram muito da HQ e perguntaram se eu iria fazer mais. E a Sayonara insistiu mais ainda. Aí não teve jeito: coloquei tudo pra fora.

jeanzinho_tiras_cor_001IHQ: Tirinhas como as do Charlie Brown, são uma inspiração?
J.O.: Acho que não. Nunca fui muito leitor de tiras, pelo menos não como era de HQ. Já havia tentado fazer tiras antes, mas sempre achei uma linguagem extremamente difícil de dominar. Nunca consegui fazer.

Quando comecei a pensar em fazer algumas tiras do Jeanzinho, comecei a ler algumas tiras para tentar me familiarizar. Peanuts foi uma delas, claro, mas não só. Mas não me inspirei nela. Embora eu tivesse lido algumas tiras para me ajudar, a minha só começou a sair quando passei a olhar pra dentro de mim mesmo e não para o que os outros estavam fazendo.

Acho que o Jeanzinho passa por dificuldades parecidas com as do Charlie Brown, mas ele as encara de forma diferente, penso eu. Não tem aquele jeito derrotado e conformado do Charlie Brown diante das coisas. O Jeanzinho se levanta e segue em frente, ainda que de forma insegura.

IHQ: Tenho a impressão de que o combustível das histórias são lembranças de episódios da sua infância. O quanto disso procede em cada tira?
J.O.: Nas tiras, ao contrário das HQs até agora, há muito pouco das minhas memórias de infância. A tira é apenas inspirada em algumas características minhas e da minha família, não em episódios reais. Meus pais não são daquele jeito. Coloquei neles algumas características minhas mesmo, assim como em outros personagens que ainda vão aparecer.

jean-okadaIHQ: Alguma tirinha ou história do Jeanzinho já figura como a sua favorita?
J.O.: Não tenho favorita… Todos aqueles acontecimentos foram importantes pra minha formação como gente, de modo que cada história é importante pra mim por motivos diferentes.

IHQ: Quais as principais diferenças entre fazer uma história com mais páginas e uma tirinha do Jeanzinho?
J.O.: Eu ainda me sinto mais seguro fazendo as HQs do que as tiras, embora tenha aprendido a gostar de fazê-las também. Além disso, nas HQs, não existe a “obrigação” de tentar ser engraçado o tempo todo. Posso contar histórias mais reflexivas e emotivas. Quero ver se consigo trazer esses elementos pras tiras também, mas sem deixar de lado o humor.

Tenho aprendido muito com as tiras; ser mais sucinto e encontrar formas diferentes de tratar um tema… Nem sempre é possível expor um assunto nos 3 ou 4 quadros de uma tira do jeito que imaginei a princípio, aí tenho que encontrar outra forma de dizer o que pretendia. Esse tem sido um exercício muito bom.

menino-quase-nuIHQ: Podemos esperar versões impressas das HQs do Jeanzinho?
J.O.: Tinha planos de fazer isso já em 2017, reunindo as histórias já feitas e algumas inéditas exclusivamente para o livro, mas tive um contratempo que me fez adiar alguns planos. Espero poder contornar isso o mais rápido possível, porque eu também quero uma edição impressa desse menino!

IHQ: Como você vê o mercado de quadrinhos no país atualmente?
J.O.: Acho que, criativamente falando, nunca esteve tão bom. Financeiramente ainda não – mas nesse aspecto nunca foi realmente bom, nem quando havia revistas (feitas por autores brasileiros) nas bancas. Produzia-se muito, mas muita porcaria também.

Depois veio a crise, e quem via nisso apenas um “emprego” acabou caindo fora; ficaram só os que realmente amavam a coisa. O resultado disso é que hoje em dia fazemos quadrinhos melhores. Quase todos os quadrinhos que me chamaram a atenção nos últimos anos eram nacionais. Posso estar enganado, mas sinto que está ocorrendo um “renascimento” dos quadrinhos.

slane_impulsohqIHQ: Seu personagem Slane tem lugar cativo entre os apreciadores dos quadrinhos nacionais de super-herói. O que você pode falar sobre essa sua criação?
J.O.: Foi um personagem que teve sua época e lugar, e sou muito grato aos leitores pelo carinho que sempre demonstraram ter pelo personagem, mas dificilmente vamos vê-lo voltar. O viés político que o personagem seguia fazia sentido pra mim naquela época, mas hoje não mais.

Se eu tivesse que retomar o Slane hoje teria que recriar tudo do zero… E aí acho que os leitores não iriam gostar porque seria outro personagem… Além disso, me sinto mais envolvido com os personagens em que tenho trabalhado hoje.

Então, melhor deixar o Slane onde ficou. Mas ele foi uma experiência importante pra mim porque me mostrou pela primeira vez que eu poderia escrever algumas histórias e que existiam pessoas interessadas nelas.

kario_divida_capaIHQ: Como foi sua experiência com a publicação de Kário?
J.O.: Foi cercada de inseguranças, como tudo que escrevo. A primeira história dele seria outra, mais longa, mas na época eu achei que devia criar algo mais curto para tentar participar do projeto Graphic Talents (um selo de quadrinhos que a Editora Escala havia criado como “laboratório de personagens”).

O projeto GT terminou quando eu estava produzindo as últimas páginas de “Dívida de Sangue”. Para não ficar com ela na gaveta, publiquei-a inicialmente em capítulos no site que eu tinha na época, porque achei que ninguém se interessaria em publicá-la de forma impressa.

O André Diniz pediu a HQ pra publicar no site da Nona Arte (ele tinha um enorme acervo de HQs nacionais lá), e algum tempo depois a história saiu publicada em capítulos no saudoso fanzine Manicomics. Foi aí que o Henrique Magalhães viu o material e logo quis fazer uma edição impressa pela editora dele, a Marca de Fantasia.

IHQ: Kário está disponível para leitura online no Social Comics. Quais os desafios a serem superados para que a plataforma deslanche de forma positiva para leitores e artistas?
J.O.: Se a proposta da plataforma é fazer os quadrinhos chegarem aos leitores e fazê-los conhecer coisas novas, penso que falta ali divulgarem melhor os autores e HQs que estão disponíveis no catálogo. Poderia haver uma maior rotatividade de títulos que aparecem na página inicial do site, por exemplo, e não apenas os mais famosos.

Caso contrário, se o(a) autor(a) não for um “medalhão”, sua HQ vai desaparecer ali no meio, sem nunca ser lida. E aí não faz muita diferença publicar no Social Comics ou numa banca de jornal, onde só os personagens já conhecidos sobrevivem.

IHQ: Fale um pouco sobre seus futuros projetos. O que vem pela frente?
J.O.: Como sou um desenhista lento, meus planos não são muitos. Só pretendo continuar fazendo as coisas do Jeanzinho e histórias novas do Kário, personagem por quem eu tenho muito carinho também, e que já passou da hora de ter novas aventuras.

menino-quase-nu-1IHQ: O que você gostaria de deixar para os leitores do Impulso HQ como considerações finais?
J.O.: Os quadrinhos são uma forma de arte maravilhosa e ainda muito relevante, mesmo nesse mundo tecnológico em que vivemos, cheio de smartphones e tablets. Lutamos por muito tempo para que os quadrinhos fossem mais respeitados pela sociedade e vejo isso dando alguns frutos hoje.

Só não podemos esquecer que HQ tem o seu lado divertido e prazeroso, e não só o aspecto “intelectual”. As pessoas se afastaram da literatura, entre outras razões, porque durante muito tempo foi-se construindo essa aura de “respeitabilidade” de tal forma que hoje o público quase tem medo de tocar um livro achando que aquilo ali não é pra ele, “é só pra pessoas inteligentes”. Lê-se Machado de Assis não por prazer, mas pra passar numa prova. Temos que tomar cuidado para os quadrinhos não caírem nisso também.

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2016/10/ilustra-kário-cor-1.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2016/10/ilustra-kário-cor-1-300x300.jpgDennis RodrigoentrevistasGian Danton,Jean Okada,Jeanzinho,Kário,SlaneJean Okada atua no mercado de ilustração e quadrinhos desde 1988, publicou nas revistas Turma do Barulho, Metal Pesado e Planet Sex Quadrinhos. Em 2004, seu personagem Kário ganhou uma edição pela Marca de Fantasia e algum tempo depois deu início a produção da web comic de ficção científica...IMPULSO HQ é um site que se propõe a discutir histórias em quadrinhos e assuntos derivados como cinema, games e cultura pop em geral.