Lizzie-Bordello-e-as-Piratas-do-EspaçoO Impulso HQ conversou com Germana Viana, ilustradora, designer e programadora visual, que desde o final de 2013 publica na internet, sua HQ virtual Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço, com páginas semanais que formam arcos de histórias. Recentemente e editora Jambô publicou em um encadernado com essas aventuras, mais uma história inédita.

Germana comenta a sua trajetória nos quadrinhos, declara como enxerga a representatividade feminina no meio e conta quais foram suas inspirações para compor a HQ. Confira:

Impulso HQ: Para os leitores que ainda não te conhecem, há quanto tempo você trabalha com quadrinhos?
Germana Viana: Olha, faz um tempinho, mas sempre trabalhei nos bastidores. Acho que entrei na Mythos Editora (que além de editora é o estúdio que faz boa parte do material de supers e mangá da Panini) por volta de 2005, lá trabalhei como designer, letrista. Alguns anos depois, fui convidada pelo Joe Prado pra trabalhar na Art&Comics como assistente dele no gerenciamento de artistas para o mercado norte-americano de comics, mas o trabalho foi ficando burocrático demais: cuidava de pagamento, voucher, documentos e nada de arte, design quanto menos quadrinhos hahahaha.

Gostava demais da galera, mas não deu – larguei! Fui trabalhar numa galeria de arte e voltei a fazer ilustrações para livros didático e infantis (coisa que faço desde a Idade Média hahaha), mas se você está perguntando sobre produzir meus próprios quadrinhos, assim, meu mesmo, foi há pouco tempo, comecei depois de visitar o FIQ 2013, ali, tomei coragem e disse: “faço agora ou nunca mais!” 😀

LB-pin005-e1416403352398IHQ: Quais foram as principais influências para fazer o Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço?
G.V.: Puxa, tanta coisa me influencia. Como qualquer leitora/leitor de quadrinhos que cresceu nos anos 80, caras como Mazzucchelli, Miller, Moore, George Perez entre inúmeros artistas e roteiristas, me fizeram a cabeça. Mas acredito que cabe um destaque monstro para os irmãos Hernandez – Jaime com as Locas e Gilbert com as mulheres de Palomar influenciaram e influenciam inclusive em como encaro a vida :D;

Neil Gaiman é outro grande destaque – a maneira como ele escreve mulheres é formidável e sem dúvida, outra boa influência de destaque é Jamie Hewllet com a Tank Girl. Mas olha, literatura, desenhos animados, cinema e até músicas influenciam bastante no resultado final.

IHQ: Curiosidade: há alguma personagem que se relaciona com a sua própria personalidade?
G.V.: Vish! Aí pegou! Porque todas elas são um pouco (algumas vezes bastantão) relacionadas com minha personalidade: o lado pós-punk e ao mesmo tempo meio hippie de Lizzie, a nerdice de Fran, a sem-noçãozice de Deus. Lambretinha é quem parece menos comigo, mas ela é completamente parecida com uma prima minha que adoro: tech baby, questionadora, discreta. E todas elas tem muitas características e tiques que observo em minhas amigas.

Senhor Fulano5IHQ: Você busca retratar suas personagens como mulheres tridimensionais, de características físicas e psicológicas singulares. Em sua opinião, essa falta de diversidade psicológica nas personagens femininas ainda é uma grande barreira do machismo nas HQs?
G.V.: Cara, diversidade é uma coisa linda. É rica. É real! Pessoas são lindas demais e nem percebem porque se perpetua um padrão que alguém achou mais fácil de vender. O machismo e outros preconceitos toscos – não podemos esquecer da homofobia, gordofobia, preconceitos raciais – terminam sendo ferramentas que consolidam isso tanto visualmente quanto no comportamento. O problema é que esse “padrão”, além de estagnar uma parte da cultura não representa e por vezes, maltrata diversos segmentos, levando pessoas lindas, complexas, interessantíssimas a se acharem inadequadas.

pin002IHQ: Você acredita que a representatividade feminina está mudando nos quadrinhos? Como?
G.V.: Olha, já melhorou bastante, mas ainda existe muuuito a ser construído. Sempre gosto de citar que não é de agora que vejo mulheres phoddonas nas HQs, eu comecei a gostar de HQ de supers, nos anos 80, por causa de personagens como Elektra (fase Miller) e Jean Grey (na fase da Fenix Negra, lembra?).

Diversos e diversas profissionais da área já representam mulheres de maneira muito legal. Claro que ainda é algo que precisa ser construído porque nem todo mundo, não apenas as mulheres, é representado da maneira natural e respeitosa que merece, mas se por um lado ainda se vê uns babacas soltando “pô, o herói vai mudar de sexo, vai virar menininha, que bicha ha-ha-ha” (aê, tonho, ser mulher ou gay não é xingamento) ou “ah, daqui a pouco não pode mais desenhar mulher gostosa” (pode, fio, mas queremos ver outros tipos de gostosura além da que você acha que é gostosura :D) por outro lado, já vemos muitos exemplos de HQs tanto mainstream quanto alternativas mandando muito bem nesse quesito.

pin003IHQ: Como surgiu a ideia para o encadernado? O contato partiu de você ou da editora Jambô?
G.V.: Foi por parte da Jambô, aliás, meio que até tomei bronca: “porque não veio nos procurar logo, oras” – Eles são muito legais! 😀 Mas, inicialmente, eu só queria contar histórias das Piratas, que já rondavam minha cabeça e caderninhos desde 2006 e que por insegurança, eu ficava enrolando pra desenvolver duma vez. Daí, o apoio constante de marrrido, o clima maravilhoso que rolou na FIQ 2013 (fora que o George Perez elogiou um desenho meu, gentch! E daí que ele tava meio ceguinho na ocasião – chorei litros hahahaha) e o convite do Franco de Rosa pro coletivo As Periquitas me fez tomar coragem.

Mas, sem grande pretensões: postar na internet já bastava, e apesar de ter planos para um futuro encadernado, se realmente saísse publicado fisicamente seria lucro! E saiu! UHU!!! \o/ \o>

Germana-Noite_Feliz_Paporrah4IHQ: Vivemos um momento de constantes trocas entre o quadrinho digital e impresso. O que te motivou a publicar o livro impresso?
G.V.: A internet possibilita uma coisa muito legal, por não depender de distribuição ou de verba para impressão, você consegue divulgar, postar e mostrar seu trabalho para um número considerável de pessoas. É uma puta ferramenta e por isso, agora, autores podem escolher se querem que seu material seja digital, impresso ou os dois.

Sou da filosofia de que quanto mais opções, melhor! E no meu caso, o leitor pode ler de graça na internet, se gostar e tiver com um dinheirinho sobrando, vai lá e compra o encadernado, que tem uma história e alguns extras inéditos (um mimo para quem se dispôs a comprar), mas esse extras não prejudicam o entendimento do leitor que só pode acompanhar online.

Germana-Noite_Feliz_Paporrah42IHQ: Durante o bate-papo na CCXP você comentou algumas barreiras que enfrentou para publicar o encadernado. Ainda há tanta dificuldade em publicar histórias em quadrinhos no Brasil?
G.V.: Na verdade, não foram exatamente barreiras. Foi assim: eu e um amigo, o Luis Kosmiskas, tivemos uma mesa na área dos independentes na Festcomix 2014 e isso divulgou bem mais do que esperávamos tanto Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço quanto Oceano de Brumas (Oceano de Brumas é escrita por Kosmiskas e eu desenho), algumas editoras demonstraram interesse nos dois quadrinhos e nos convidaram para conversar. Mas as propostas deles não batiam bem com nossos interesses, alguns conflitavam bastante. Então, exatamente por não ter pressa para publicar fisicamente, agradecemos e declinamos os convites.

Dica de quem esteve nos bastidores por algum tempo: Kids, não tenham pressa para publicar, pensem, analisem, descubram se a editora é séria, se está alinhada com o que você pensa, com o que quer para seu material e se eles terão o carinho que seu projeto merece. E principalmente: nunca paguem para uma editora publicar seu material! Se é para tirar dinheiro do seu bolso, faça indie. Se não tem a grana pra isso, deixe apenas na net, vá atrás de um financiamento coletivo ou procure outras editoras – há várias opções hoje!

Arco 001 net - pag 001IHQ: Desde o início, a HQ estava prevista para ser lançada na Comic Con Experience? E como foi a recepção do público na CCXP?
G.V.: O Guilherme Svaldi, da Jambô, me falou do interesse em publicar meu material durante o AnimeFriends/EIRPG de 2014, como eu já tinha uma boa quantidade de páginas de Lizzie Bordello e as Piratas prontas, e sabendo da importância que a CCXP teria (e olha que nem imaginava o quão formidável seria, porque a CCXP ultrapassou qualquer expectativa) me programei para terminar o encadernado a tempo de ser lançado durante a festança. A propósito, não tenho como agradecer o suficiente o puta apoio que marrrido, o Rogerio Saladino, me deu <3.

Por meses, o pobrezinho chegava em casa, depois de passar o dia inteiro editando e revisando o material da Marvel (ele é editor de Aranha, X-Men, Deadpool, Ultimates aqui no Brasil) e tinha que revisar meu material: “beibe, revisa que não consigo mais enxergar meus erros” 😛 –

Arco 001 net - pag 003Vou te falar: foi corrido, maluco, divertido e faria tudo de novo. (pode ter certeza que farei) 😀

IHQ: Já tem novos projetos para a Lizzie Bordello?
G.V.: Siiim! Já estou produzindo novas histórias!!! E não apenas delas! Me aguardem! 😛

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Para finalizar, a HQ Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço, publicada pela editora Jambô contém 80 páginas coloridas, 20,5 x 27,5 cm, custando R$ 29,90. Para quem quiser conhecer mais as histórias dessa mulherada, acesse www.lizziebordello.com.

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