Gazy Andraus, curador do evento Programa de formação em HQ e Zine

Está rolando no Centro Cultural da Juventude, o CCJ, um grande evento focado em quadrinhos e fanzines que começou em março e vai até setembro. O “Programa de formação em HQ e Zine”, organizado por Gazy Andraus é uma daquelas iniciativas que enriquecem o cenário de HQs por incentivar e difundir a linguagem, além de ser uma oportunidade ímpar para quem deseja adquirir informações sobre HQ e zines, tanto para pessoas com certa experiência na área quanto para leigos interessados em breves introduções sobre o assunto.
A equipe do ImpulsoHQ conversou com Gazy para que o leitor conheça um pouco mais desse grandioso evento.

Na entrevista a seguir o organizador nos conta sobre essa tarefa hercúlea de curadoria, das futuras programações, das dificuldades em se organizar um evento de tal porte entre outros assuntos. Confiram:

ImpulsoHQ: Como surgiu a idéia do evento e a oportunidade de implementá-lo no CCJ?
Gazy Andraus:
Foi um segundo convite que recebi da coordenadora cultural do CCJ Ruth Cardoso, Dolores Biruel. Ela já havia me chamado anteriormente para curadoria do evento “O Universo Multicultural das HQ”, em 2009, e agora pretendeu um evento maior e contínuo, mais aprimorado e trazendo um pouco de tudo sem nos esquecermos de formação, tanto aos jovens adultos quanto aos professores (dos quais também muitos são jovens, atuando na educação e atualizando-a).

Ao público é uma possibilidade de ampliação de seu conhecimento cultural, interdisciplinar e de seu fazer artístico e criativo, e para os professores, uma maneira de saberem o que são realmente HQ e zines, e como podem usá-los. Aliás, têm aparecido uma gama grande de alunas de Pedagogia que nunca estiveram antes no CCJ, e que escrevem nas fichas de avaliação que se maravilham com o que viram e ouviram, já que nunca antes imaginavam existir tais HQ e/ou zines e suas possibilidades de empregabilidade educacional e de entretenimento!

O Brasil está melhorando, mas ainda é necessário que os setores responsáveis do Governo Federal deem mais atenção à Educação, como o fazem esses centros culturais através das Prefeituras! Um povo instruído é um povo que formata um país rico e organizado, e não uma falácia em que a maioria é empurrada como gado. Assim, cursos como esses, incentivados por pessoas com visão, como a coordenadora do CCJ Ruth Cardoso, Dolores Biruel, que dá especial atenção a vários e diversificados eventos.

Bate papo com Laerte

IHQ: Quando começou o evento e dura até quando?
GA:
Começou em março desse ano, finalizando no mês dos independentes no CCJ em setembro, em comemoração também, aos 5 anos do CCJ. Em paralelo, ocorre o Projeto “Fanzines nas zonas de Sampa”, que não tem a ver com meu projeto, mas cruza com ele algumas vezes, visto que é dado em bibliotecas municipais de São Paulo e desenvolvido pela Divisão de Planejamento da Coordenadoria do Sistema Municipal de Bibliotecas, visando o estímulo e desenvolvimento de ações de promoção da leitura, difusão e formação cultural, com várias oficinas.

IHQ: Como curador e organizador, que linha você segue para escolher a programação do evento?
GA:
Uma linha compromissada com a variedade e riqueza que aborde todos os temas, tanto dos quadrinhos como dos fanzines, já que se intitula Projeto de Formação de HQ e Zine.
Pensei com a Dolores em mesas, palestras e minicursos, abordando quadrinhos mainstreams, mangás, super-heróis, humor, vanguarda, HQ no ensino (vestibular), HQ poéticas e independentes, caricaturas, charges e cartuns, capas de HQ, autoralidade (nas HQ de Disney também, por exemplo), HQ e tecnologias (Hqtrônicas, sites, blogs etc), fanzines e sua possibilidade de formatos e temas, bem como gibitecas e formação de leitor etc. Lembrando ainda que para as palestras intentamos trazer tanto grandes nomes como Laerte, bem como outros mais novos que despontam como Laudo, Sam Hart e muitos outros.

IHQ: A que você credita esse interesse do CCJ por um evento de quadrinhos mais longo?
GA:
Justamente as experiências anteriores e a necessidade de criar um ritmo maior na área de HQ para que os usuários do centro cultural se acostumem e se formem melhor com relação à área das histórias em quadrinhos que tem crescido muito nesses anos, o que foi percebido pela Dolores Biruel.

Bate papo com Mauricio de Sousa

IHQ: Como um autor e pesquisador atuante no mercado há tempos, quais são as evidências que você enxerga e que te fazem creer que o mercado está crescendo? Qual a diferença da cena de quadrinhos no país de hoje com a cena na década de 90?
GA:
O aumento de pesquisas acadêmicas incluindo TCCs, dissertações e teses, mais os editais de HQ e proliferação de álbuns em quadrinhos, aliado às compras pelo governo ampliou a demanda de títulos e editoras da área quadrinhística, principalmente da década passada até agora, como nunca houve antes no Brasil.
Na década de 1990, havia bastante quadrinho underground e nos fanzines, equivalendo-se aos de bancas, mas menos nas livrarias. Atualmente, os alternativos continuam fortes e com melhores qualidades gráficas (vide o Quarto Mundo e a revista Subversos, por exemplo).

Só está faltando mais ousadias nas editoras, mas isso, creio eu, irá acontecer brevemente: pois elas, tendo maiores lucros que antes (principalmente pela venda de milhares de exemplares de alguns títulos por causa do governo), irão também publicar quadrinhos mais vanguardistas e que não têm vez ainda no mercado, como os próprios quadrinhos que eu faço, de temática “fantástico filosófica”, por exemplo, ou do Antônio Amaral, cuja obra “Hipocampo” foi publicada autoralmente em 4 volumes, indo para o quinto, ainda de maneira independente.

Palestra sobre fanzine com Douglas Utrescher, Flavio Grao e Fabio Tatsubô.

IHQ: Numa época em que os custos de gráfica, as revistas independentes e a internet são bem mais acessíveis, não soa meio datado usar o termo fanzine? Digo, ele não virou sinônimo de uma produção de baixa qualidade de impressão? Isso não pode afugentar o público?
GA:
Nunca, nada disso! Os fanzines “gritam” cada vez mais alto e em bom som! Eles independem das tecnologias, sendo estas apenas seus veículos. Os fanzines são revistas que podem ser feitas como laboratórios experimentais, tanto de futuros jornalistas e quadrinhistas, mas também são uma “gaveta” aberta para as idéias e criatividade que não teriam lugar no mundo “oficial” das publicações.

Os fanzines também migram para a Internet, e não precisam ser impressos ou então baixados em pdf.  Foi bom você perguntar isso, para dirimir erros de compreensão: na internet os zines são também chamados de e-zines (electronic zines), mas podem ser baixados em pdf, já formatados inclusive. Os blogs, a meu ver, são uma mistura de zine com diário, pois o autor coloca para “fora” seus gostos e idéias, podendo fazê-lo diariamente se assim o desejar.

Mas os fanzines estão firmes e fortes, ainda mais com novas fanzinotecas, como a “Fanzinoteca Mutação”, do Rio Grande do Sul, criada por Law Tissot e a de Santos que começa a tomar forma, juntando-se à reconhecida “Fanzinotheque du Potiers” na França, que tem um acervo enorme e funcionários que recebem salário para trabalhar em sua organização! Nos EUA e Inglaterra vim a saber pela Fernanda Meireles – pesquisadora de fanzines e integrante do livro do qual eu também participo “Fanzines – Autorias, Subjetividade e Invenção de Si” (publicado pela editora UFC) que existem os zine-libraries, que seriam as fanzinotecas norte-americanas ou inglesas!

A questão da “baixa qualidade de impressão” não influencia nos zines continuarem a existir, pois são paratópicos, conforme alertou a pesquisadora Suely Zavam em seu artigo “Fanzine: A Plurivalência Paratópica”, ou seja, existem em paralelo às edições de revistas e livros oficiais. Mas costumo frisar, enquanto existirem pessoas com idéias próprias lutando por seus idéias (libertárias e de expressão, principalmente), os zines vão sempre continuar existindo, independente de serem de papéis ou não! Aliás, o grupo “4º. Mundo” tem ótimas revistas independentes: embora não sejam zines especificamente, mantêm o espírito zineiro de se virar e existir paratopicamente ao mercado oficial. Você mesmo mantém a “Revista Subversos”, que traz esse espírito libertário de expressão!

Há inúmeros exemplos de zines atuais interessantes, como o “Tchê Zine”, de Denílson, lá do Sul, o “Imaginário”, de Minas Gerais, o “SpellWork” da Thina Curtis, o longevo “Aviso Final” do Renato Donisete (esses dois últimos do ABC de São Paulo) e o próprio “Anuário de zines” da Ugrapress… isso sem falar do magistral e necessário “QI” de Edgard Guimarães que continua bimestralmente fazendo as vezes de uma revista oficial que deveria existir, que aborda matérias e divulgações de HQ e zines, cuja seção de cartas é exemplo excelente da qualidade de discussões que não se vê em revista alguma no Brasil! E o que se dizer da Editora alternativa independente do magistral Henrique Magalhães, a “Marca de Fantasia”?
Advirto também que os zines estão sendo usados em salas de aulas de escolas, faculdades e até pós-graduações, tanto como um recurso didático, como matéria de tccs e dissertações e teses, sem falar nos Biograficzines, criação das aulas de mestrado do educador Elydio dos Santos Neto, visando um desenvolvimento teórico-prático dos alunos de Pedagogia em nível de mestrado!

Recentemente a Fundação Biblioteca Nacional comemora uma exposição de zines em Belo Horizonte (mais informações clique aqui). Como se vê, eles sempre vão existir, enquanto o ser humano conseguir refletir por conta própria!
Paulo Ramos em palestra sobre HQs nos exames vestibulares

IHQ: Então, poderíamos dizer que fanzine é mais um estado de espírito, o conceito, do que a o acabamento de um produto?
GA:
Penso que o fanzine é a materialização da liberdade de expressão comungada! O fanzineiro geralmente não tem isso como profissão, visto que também não é um hobby, e sim uma maneira ideal de escoar suas idéias e expressões artísticas. Vide que a maioria dos zineiros têm outras profissões e são extremamente interdisciplinares: Edgard Guimarães do QI é Professor e engenheiro do ITA, Edgar Franco professor da UFG e artista multimídia, Henrique Magalhães é professor da UFPB e eu também sou professor universitário e pesquisador, além de muitos outros que, muitas vezes, se dedicam ao ensino. A peculiaridade é que esses todos que mencionei (e muitos mais) são também autores de HQ e/ou desenhistas e editores.

IHQ: O que você destacaria na programação dos eventos que já ocorreram e dos que irão acontecer?
GA:
Têm sido muitas palestras e cursos! Destaco aqui, dentre muitos nomes, alguns cursos como o de Cadu Simões (autor do Homem-Grilo) e Will (autor do zine Subterrâneo) e palestras como a da Patrícia Borges sobre as HQ femininas, a de autoralidade nos quadrinhos Disney de Roberto Elísio, as palestras de Laerte e de Laudo, bem como as oficinas de Tayla e Mastrotti e a mesa de fanzines composta por Flávio Grão, Douglas Utrescher e Fábio Tatsubô.
Para julho o Renato Guedes volta para uma palestra sobre HQ e super-heróis, bem como outra do Laudo e uma da Natania Nogueira, que é de Leopoldina e vai falar da experiência de montar uma Gibiteca. Para agosto e setembro ainda estamos elaborando, mas teremos uma oficina de montagem de zines com fotografias com Thina Curtis (Dona Fanzine), e há uma grande possibilidade de termos uma fala do Márcio Baraldi, além de mais uma ou outra mesa e curso.

Não vou adiantar mais, porque depende de possibilidades dos próprios palestrantes que estamos tentando contratar. Lembro também que em maio veio Mauricio de Sousa, a convite da Dolores, quando vieram junto Álvaro de Moya para mediar, e Jal, numa das palestras mais lotadas que já vi! (nota: a cobertura desse evento pode ser conferida aqui)

IHQ: Se alguém quiser inscrever uma oficina, workshop, palestra, como faz para apresentar o projeto?
GA:
Não comecei o projeto pedindo propostas, mas isso não impede de me enviarem. O problema é que para o segundo semestre haverá menos eventos, principalmente porque irá terminar em setembro, e vamos montando as planilhas com antecedência de dois meses, fechando-a bem antes para a divulgação.

Porém, isso decerto não impede que os profissionais interessados levem seus projetos ao CCJ aos cuidados de Dolores Biruel. Há editais  como, por exemplo, do evento de cursos de Fanzines dados nas bibliotecas municipais de São Paulo, mediante propostas e currículos (de acordo com os editais). Há profissionais como Will, Nobu e Daniel Esteves que estão dando essas oficinas, e elas se cruzam com meu evento algumas vezes, como mencionei, já que também há uma biblioteca no CCJ, incluindo uma HQTeca, cujo nome homenageia o grande quadrinhista português radicado no Brasil Jayme Cortez.

Palestra de Patricia Borges sobre o feminismo nas HQs

IHQ: Qual é a maior dificuldade em organizar um evento com duração tão grande como este?
GA:
É bem complicado, apesar de eu já ter tido experiência anterior. Mas agora, por ser maior, ocupa bastante nosso tempo: eu, na escolha de quem fará o que, mediante convites e possibilidades de temas que às vezes coloco como sugestão, mas que pode ser modificado dependendo do próprio autor e sua proposta. Tento abarcar, como eu disse, HQ de vários temas bem como fanzines, e vou montando uma data possível para cada, bem como a variedade mensal.

Para a Dolores, junto a Melina, o trabalho é bastante grande, pois precisam pensar nas datas e horários para que não batam com outros eventos paralelos que ocorram no CCJ, a fim de que um não prejudique o outro, principalmente quando há shows. Nós todos temos bastante trabalho também em contactar os convidados, tanto por telefones e emails, e manter tudo em ordem e organizado.

Já para a área da comunicação do CCJ, o trabalho deles é de montar os folderes e trabalhar com imagens pedidas aos convidados, de modo a harmonizar tudo. É um trabalho-monstro mesmo, e muitas vezes vejo que a Dolores (e Melina) estão exaustas com tanta trabalheira, já que elas lidam não só com esse projeto, como com todos os outros eventos do CCJ, que são multivariados!

IHQ: O que um fã de quadrinhos pode esperar, não só do evento, mas dos espaços do CCJ em geral?
GA:
Pelas folhas de avaliação tenho visto que a maioria das pessoas vai pelos temas ou convidados, mas muitas vezes sem saber direito o que esperam: daí relatam que se maravilharam com um universo de informações que nunca imaginaram existir. Como exemplo, os quadrinhos Disney e seus estilos de desenhos e variedade de autores espalhados no mundo!

Os fãs podem apreciar num mesmo local muitas palestras e cursos gratuitos com nomes de profissionais sérios que têm um trabalho apurado, podendo ter contato direto com os autores; isso enriquece sobremaneira a relação fã-autor! E espaços como esses do CCJ Ruth Cardoso, por exemplo, são ótimos, pois têm estrutura e organização para esses encontros, e não só, visto que lá ocorrem diversos eventos durante o ano, mais a possibilidade de se usar a biblioteca, a HQteca e a Internet!

A única questão que tenho sentido como um pequeno problema é que há muitos centros culturais e eventos em São Paulo, e as divulgações nas TVs e jornais ficam prejudicadas algumas vezes, pois esses órgãos escolhem os eventos que querem divulgar, algumas vezes priorizando determinados centros e expressões culturais do que outros. Assim, por exemplo, o metrô que poderia divulgar tal evento em suas TVs nos vagões, não tem feito isso, simplesmente porque não percebeu uma devida importância a esse projeto. Se a divulgação fosse maior, apesar da localização do CCJ, teria mais pessoas. E apesar de o CCJ ficar numa região sem metrô, há muitos ônibus que lá chegam diretos e rapidamente, como os que saem da Estação Barra Funda ou Santana do Metrô!

Alexandre ManoelentrevistasCCJ Ruth Cardoso,Douglas Utrescher,gazy andraus,Laerte,Mauricio de Sousa,Patrícia Borges,Paulo RamosGazy Andraus, curador do evento Programa de formação em HQ e Zine Está rolando no Centro Cultural da Juventude, o CCJ, um grande evento focado em quadrinhos e fanzines que começou em março e vai até setembro. O “Programa de formação em HQ e Zine”, organizado por Gazy Andraus...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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