Ela já escreveu para a revista Holly Avenger, atualmente está trabalhando na tradução de um mangá para a editora JBC e participa de diversos projetos com os seus roteiros.

A roteirista Fran Briggs comenta suas afinidades artísticas, seus trabalhos e projetos. Saiba um pouco mais sobre o processo criativo dessa talentosa escritora, nesta entrevista onde ela fala sobre suas referências, a sua relação com o universo Doll e os planos para 2011.

Impulso HQ: Como começou sua relação com as artes, as histórias em quadrinhos e os mangás?
Fran Briggs:
Desde os nove anos eu desenhava (leia-se desenhar). Gostava de utilizar as últimas páginas dos meus cadernos de colégio, dividindo em quadros e montando minhas HQs particulares – e bem estranhas, já que sempre, sempre acabavam em mortes. Claro que não fazia isso na sala de aula, gostava de fazer em casa, sozinha, sem ninguém olhando por cima do meu ombro. Já era uma criança por demais estranha para fazer isso em público.

Bastava pra mim ter pintado o coelhinho da páscoa de verde musgo, num trabalhinho na primeira série. Foi o horror, minha professora me execrou… Pedagogia, sei…

Em relação aos mangás, eu os conheci e passei a prestar atenção na casa da minha madrasta, filha de imigrantes japoneses… Lá havia alguns e ficava folheando fascinada. E então, como aconteceu com muitos da minha geração, veio Cavaleiros do Zodíaco, quando eu tinha 13 anos… Dali em diante foi ladeira abaixo… (rs)

IHQ: O estilo mangá é predominante na sua arte. Conte quais obras preferidas e que artistas influenciam seu trabalho?
F.B.:
Não posso dizer que desenho mangá porque vejo meus desenhos como híbridos de alguma coisa com coisa nenhuma, sério! E para falar a verdade, nem me considero desenhista de verdade, desenho por hobby. Minha paixão mesmo é escrever, é onde acredito que me saio melhor.

Não tenho artistas que me influenciam, tenho obras. De autores, um dos meus favoritos é Alexandre Dumas.

IHQ: Você trabalhou nos roteiros de Holy Avenger 41 e 42. Como foi desde o processo criativo até a edição nas bancas?
F.B.:
Foi muito divertido! Nem acreditei que o Cassaro me deixou escrever a idéia que tive, porque Holy sempre foi dele, a série era toda dele e já tinha fechado. Só fui co-autora em alguns especiais, e quando ele me permitiu escrever essas duas edições fiquei muito feliz!

O processo em si não demorou muito. Geralmente, quando escrevo, já tenho os pontos chaves na cabeça, e sendo assim, basta sentar e preencher as lacunas. Mas ver a edição desenhada pela Erica Awano foi a melhor parte, confesso!

IHQ: Como surgiu o Merc$? Como foi o caminho entre a concepção dos personagens, a recepção da edição impressa?
F.B.:
Merc$ surgiu de uma idéia de criar um fanzine de Holy, com as coisas que achamos engraçadas e curiosas.

A Petra e eu criamos então dois personagens pra conduzir esses acontecimentos através de Arton: o Domenik (meu elfo) e a Puck (a lobismina da Petra).

Nós mesmas cuidamos de definir o visual dos personagens, ela com a Puck, eu com o Domi. No inicio o Domi deveria ter uma cauda, já que alguns elfos de Arton possuíam uma, mas depois, com as tatoos no rosto e a mecha vermelha no cabelo, achei que ficaria muito over.

Pensando bem, hoje sei que foi uma sábia decisão. Já que o Domi não faz mais parte do universo de Arton e os elfos do mundo ao qual ele pertence hoje não tem… é… rabo. O.o’

IHQ: Quais os rumos do projeto (ele será retomado)? Por onde anda a turma do Pumpkin Hour?
F.B.:
Sobre retomar o projeto, não posso garantir… Sempre temos esperanças de trabalhar com algo que tanto amamos e dedicamos tempo. Sem contar a grande aceitação de público que teve, mas não dá pra dar certeza de que Merc$ voltará para as bancas um dia. O que fazemos é continuar torcendo para que essa oportunidade apareça.

Bom, a Claudia Medeiros (desenhista da série) está trabalhando com quadrinhos pra editoras americanas, as outras desenhistas estão trabalhando/e ou estudando. E eu, traduzindo e adaptando um mangá pra editora JBC.

IHQ: Fale um pouco sobre o universo das Dolls que é dotado de personagens com personalidades fortes e precisas. Elas ajudam na hora de compor as suas histórias?
F.B.:
Poxa… dolls!
Você é a primeira pessoa a me perguntar deles numa entrevista! O.O
E sim, me ajudam e muito!

É o sonho de muitos autores ter suas criações personificadas fisicamente, e os dolls me possibilitaram isso. Sem falar que crio outras histórias e outros mundos com eles. Comecei a me interessar por outras ramificações artísticas, como fotografia, escultura (mas não, não sei esculpir nada!).

O que acontece comigo é que tenho consciência que esse é um hobby para adultos, então quando estou ‘brincando’ com meus dolls, penso em me inspirar com eles e praticar. Por isso tudo o que crio em foto história (histórias feitas com fotografias dos dolls), tento manter no mesmo estilo que faria com meus roteiros.

Precisa ter meu jeito, para as pessoas identificarem ali também minha maneira de escrever e produzir. Nenhum doll meu pode ter uma ‘personalidade rasa’. Numa foto história, por exemplo, os trabalho e os defino como faria com qualquer outro personagem de HQ que criei ou criarei. Passo horas pesquisando a respeito do que quero e compro livros sobre o assunto.

Porque acima de serem bonecos, são meus personagens, minha arte ali, né?

IHQ: Há algum personagem que você gostaria de trabalhar? (Talvez Milo de Escorpião? – brincadeira, pois sei que você aprecia muito este Cavaleiro).
F.B.:
Ah, pois é. Para mim, Cavaleiros só tem charme por causa dos dourados… e sim, o Milo é o meu favorito. Seguido do Camus e do Shaka. XD

Mas acho que todo mundo que escreve já teve ou tem vontade de pegar um personagem querido e não autoral, e trabalhar com ele, né? Essa coisa meio fanzine (aliás, foi assim que comecei a escrever, com um fanzine de Cavaleiros, diga-se de passagem).

Acredito que fanzine é uma ótima maneira de exercitar sua escrita e criatividade, sem falar que por ser descompromissado, você pode viajar muito nos argumentos.

IHQ: Como foi o trabalho de pesquisa na tradução e adaptação de Tenjho Tenge?
F.B.:
A pesquisa em si é mais com relação a termos ou expressões próprias americanas (pois trabalhávamos com a cópia em inglês) ou quando acontecia de ter algo da cultura japonesa inserido num diálogo.

Não fazia sentido deixar uma expressão tipicamente americana, que pros leitores daqui entenderem, achar graça, ou fazer sentido pro nosso dia a dia, tinham que pesquisar, se lembrar dos filmes legendados ou das aulas de inglês.

Uma tradução automática pode perfeitamente ser feita pelo Google, Babylon, etc. Mas pro produto ficar natural, fluído, há que se ter adaptação. Alguns fanáticos puritanos ainda não entenderam isso. Mas eles são minoria, então não levo em consideração. XD

E um outro fator é que geralmente o Oh!Great escrevia uma nota explicando alguns aspectos da trama, ali mesmo encontramos muitas explicações do que se tratava algo que ele havia mencionado.

IHQ: Recentemente foi lançado um mangá brasileiro chamado Vitral e ele está recebendo uma boa recepção parte do público e da crítica. Quem já viu o blog dos personagens Kiko e Gabi sabe que a qualidade dos desenhos e roteiros divertidos e criativos não deixa a nada a desejar diante do que se vê nas bancas. Existe a intenção ou possibilidade de levar o cativante “casal nerd” pro meio impresso?
F.B.:
Kiko e Gab foi criado pelo Gui e por mim para que tivéssemos uma projetinho juntos e nos divertir fazendo, como conseqüência divertir quem lê.

E como já mencionei, não me considero uma desenhista boa o suficiente para publicar uma HQ toda ilustrada por mim, existem muitos desenhistas melhores. XD

Não sei se o casal nerd teria uma chance de virar impresso, mas se acontecesse, certamente não os desenharia, deixaria essa parte para quem é profissional e cuidaria só dos roteiros. ^^’

IHQ: Ainda nesse assunto, como você vê os quadrinhos nacionais, que sofrem tanta resistência apesar de já ter apresentado excelentes trabalhos?
F.B.:
Quadrinhos nacionais para mim ainda são lenda. Eu vejo fase. Há fases em que as editoras querem investir uma parte nisso, existem outras fases que esse produto simplesmente desaparece.

Mas confesso que parte da culpa não fica a cargo somente das editoras (claro que um maior incentivo ajudaria, mas…). Vejo que muitos autores não possuem condições de publicar porque faltam desenhistas. Por outro lado, desenhistas que gostariam de publicar, mas não conhecem bons autores e ainda autores e desenhistas que desejam avidamente ter seu trabalho impresso, mas que não cumprem prazo e levam algo que devia ser a sério, como fanzine.

Quando esses artistas adotarem uma atitude mais profissional com suas próprias obras, talvez as editoras e principalmente o público os vejam com mais seriedade.

Alguns títulos estão ganhando a chance de serem publicados e pude conferir um deles recentemente. Me impressionei com a qualidade gráfica e o trabalho do estúdio que o produziu!

Espero honestamente que esse seja um bom sinal, mas se não houver um maior apoio, seriedade e consenso de todos os lados envolvidos (autores, desenhistas, editoras e leitores), não consigo ver uma melhora considerável no quadro.

IHQ: Quais as novidades para 2011?
F.B.:
Hehehe, prefiro não dizer para não esperarem nada. XD

Porque quando falamos algo, fica parecendo promessa e não gosto desse estilo político de prometer e não cumprir.

Claro que diferente deles, eu gostaria muuuito mesmo de prometer coisas legais e poder realizá-las, mas só sou autora. Não posso escrever, desenhar e publicar, meus trabalhos, sozinha. ^^’

Continuarei com meus projetinhos aqui quietinha e se surgir oportunidade sólida (como contratos assinados por exemplo XD) eu aviso, com certeza. Mas até que isso aconteça, vou ficar só no bate papo.

IHQ: Se você tivesse que recomendar um trabalho seu, para alguém não familiarizado com a sua obra, o que você indicaria?
F.B.:
Não tenho muitos trabalhos publicados para recomendar. Então iria pelo que considero mais intimamente meu, já que foi o que me aventurei a escrever sozinha e publicar pela net: Mercenário$ Psykhé (uma reformulação da história).

No site, os argumentos e tudo o que acontece nas HQs disponíveis lá, foram escritos por mim. Assim, creio que é possível sentir um pouco do meu estilo.

IHQ: Para finalizar, como você define Fran Briggs?
F.B.:
Não sou boa pra me definir, confesso.

Sempre acreditei que falar de si mesmo é um tanto complicado, porque geralmente não gostamos de falar de nossos defeitos e quando contamos só as qualidades, fica no ar um tipo de arrogância, pedantismo, sabe?

Vou falar muito pouco sobre o que acredito que se destaca em mim:

Não gosto de rodeios, sou direta para tratar sobre qualquer assunto, claro que sempre com respeito (quando a pessoa do outro lado também me respeita).

Não sou do tipo que distribui elogios nem para amigos, se eu disser que gostei de algo, é porque gostei mesmo e pronto. Em contrapartida, se não gostar, guardo pra mim a opinião a não ser que seja questionada a respeito.

Não entendo a necessidade que as pessoas hoje têm de dizer que odeia tudo, apontando o dedo na cara do autor como que para simplesmente agredir. Sou da política do ‘se você ficar quieto, as pessoas te acharão estúpido, se você falar, elas terão certeza’!

Acredito que tenho muito o que melhorar como autora e busco sempre alcançar isso.

E sou teimosa. Muito. Se não gostar de algo, você pode me explicar um milhão de vezes que aquilo faz sentido e que é legal, e vou entender.

Mas não quer dizer que eu vá gostar.

Isso aí é uma pequena parte do que eu sou. Mas quem é que se conhece por inteiro, né?
___________________________________________________

O Impulso HQ agradece a Fran Briggs pela atenção e colaboração com os leitores do site. E lembramos que para conhecer mais o trabalho dela clique aqui ou aqui.

Dennis Rodrigoentrevistasdolls,Fran Briggs,mangáEla já escreveu para a revista Holly Avenger, atualmente está trabalhando na tradução de um mangá para a editora JBC e participa de diversos projetos com os seus roteiros. A roteirista Fran Briggs comenta suas afinidades artísticas, seus trabalhos e projetos. Saiba um pouco mais sobre o processo...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
Compartilhe