“A Nanquim Descartável não é uma série sobre pessoas que fazem quadrinhos, é uma série sobre pessoas muito parecidas comigo, parecidas com pessoas com quem eu convivo, pessoas do meu universo”.

Após ministrar uma oficina obre idéias e roteiro na Comic Fair, Daniel Esteves (roteirista e editor da revista Nanquim Descartável, ganhador de prêmios como HQMix e Ângelo Agostini e professor de roteiro) conversou com a equipe do ImpulsoHQ.

Na entrevista, Esteves comenta um pouco sobre as dificuldades de se publicar uma HQ de gênero cotidiano num mercado onde quase inexistem obras assim, como surgiu sua premiada revista, sobre mercado de quadrinhos e outras coisas mais.

Confiram:

Impulso HQ: Quais são as características essenciais num roteirista?
Daniel Esteves:
Costumo dizer que existem dois tipos de roteirista: os que lêem, pesquisam, estudam, que consomem muitas coisas – e por conseqüência acabam vomitando estas coisas em histórias e os roteiristas que vivem um monte de situações na vida e criam historias a partir disso. Não acho que um seja melhor que o outro, ou o outro seja melhor que um, são duas formas básicas de enxergar a criação.

Lógico que dá para estas duas formas conversarem e se comunicarem, mas acho que esta entre estes dois pólos: ou você pesquisa muito, é muito curioso, vai atrás de informações e com isso desenvolve a historia ou você esta atento às coisas que acontecem a sua volta, com seus amigos, sua família etc. e começa a desenvolver historias.

Claro que se você conseguir aliar estes dois fatos, melhor ainda, mas pelo menos uma dessas duas características é necessária para um roteirista.

IHQ: Como professor de roteiro, qual a maior dificuldade que você vê nas pessoas que se iniciam no universo da criação e escrita de histórias?
D.E.:
Uma coisa que dá para perceber é que muitos alunos têm aquela idéia de que vão conquistar o mundo logo na primeira coisa que produzirem, acham que vão fazer algo fantástico, mas nem sabem ainda como fazer.

Às vezes, eu consigo trazer estes alunos para a realidade de como produzir uma historia curta, algo pequeno, para eles entenderem como funciona a produção, começarem a desenvolver seus próprios estilos, começarem a se compreenderem melhor para desenvolver suas histórias, aprenderem a criar personagens, a lidar com diálogos etc.

As pessoas geralmente têm essa mania de se espelharem nas coisas que lêem. Por exemplo, fãs de super herói acham que vão criar um grande super herói novo, fãs de mangá acham que vão criar uma história com trezentas edições e que aquilo vai ser um sucesso.

Tudo bem, nada contra sonhar, mas o interessante é este aluno entender a nossa lógica de mercado, de produção e entender que ele esta começando a produzir e por isso não vai fazer a obra prima de sua vida na primeira vez. Talvez seja uma merda a história que ele vai produzir, mas pelo menos ele esta começando a entender o processo criativo.

IHQ: Falando um pouco da sua produção, como surgiu a idéia da revista e das histórias da Nanquim Descartável?
D.E.:
Surgiu da vontade de criar uma série – já que as minhas outras tentativas de criar séries eram pautadas em coisas que eu não gostava ou exemplo de séries que faziam sucesso em quadrinhos e que eu realmente não queria, ou não sabia, produzir (coisas que fiz e que tinham uma pegada meio super-herói, ficção cientifica ou humor) – e da vontade de criar histórias curtas, da vida cotidiana.

Dessas vontades, de desenvolver uma série e de contar histórias mais cotidianas, eu pensei na Nanquim Descartável. O fato das duas personagens principais fazerem quadrinhos está relacionado com uma idéia inicial de que eu mostraria essas histórias que elas produzem e, mostrando essas histórias, poderia fazer uma coisa mais comercial no meio, uma coisa como ficção cientifica, fantasia etc.

Mas foi algo do qual eu desisti, percebi que não dava para impor que as personagens fizessem uma coisa que eu não queria fazer, que eram esses tipos de histórias, ao mesmo tempo também fui deixando de lado o fato delas fazerem quadrinhos. Quando comecei a série tinha gente que falava “ah, você faz quadrinhos e vai fazer uma série sobre pessoas que fazem quadrinhos, que original”.

A Nanquim Descartável não é uma série sobre pessoas que fazem quadrinhos, é uma série sobre pessoas muito parecidas comigo, parecidas com pessoas com quem eu convivo, pessoas do meu universo. E isso foi se desenvolvendo até chegar nesse formato de revista independente.

IHQ: Como é fazer uma revista sobre histórias cotidianas num mercado onde praticamente não existe essa vertente, esse segmento?
D. E.:
Atualmente tem mais coisas, mas o fato é que a quantidade de títulos nesse gênero é muito pequena. Tanto que gera comparações estúpidas, na minha opinião, com outras séries que não tem nada a ver com a Nanquim Descartável, como é ocaso de Estranhos no Paraíso. Eu citaria como referência muito mais o trabalho do Gabriel Bá e Fábio Moon, assim como filmes que eu curto, livros e outras histórias em quadrinhos do que Estranhos no Paraíso.

Penso que nos quadrinhos ocidentais a quantidade de títulos nessa pegada é muito pequena frente a outros gêneros como aventura e humor, que são gêneros mais tradicionais e têm muito mais histórias. Talvez os quadrinhos orientais tenham bastantes publicações neste gênero, mas no nosso universo, apesar dele estar contaminado pelo mangá, a gente tem uma deficiência quanto a isto.

IHQ: A que você credita a ausência do gênero cotidiano nos quadrinhos?
D.E.:
Os quadrinhos surgiram com o humor, o próximo gênero que iria despontar com importância é a aventura. Humor e aventura se consolidaram há muito tempo, o humor se consolidou em 1910, a aventura se consolidou na década de 1930, outros subgêneros da aventura, como ficção cientifica e fantasia, se consolidaram há muito tempo também.

Agora, o gênero cotidiano, romance e comédia romântica, nos quadrinhos ocidentais, não conseguiram uma regularidade de publicação, tiveram alguns autores, algumas editoras, mas não se tornou uma coisa sólida a ponto de ter continuidade.

Não sei exatamente a que atribuir isso. Talvez ao fato dos quadrinhos ocidentais serem muito mais lidos por homem do que por mulheres. Se a gente fala que nos quadrinhos orientais tem bastante coisa nessa linha é porque a maior parte é feita por mulheres e para mulheres (o que não quer dizer que só mulher leia). Eu não sei se tem pouca mulher lendo quadrinhos no ocidente porque não tem outros gêneros ou se não tem outros gêneros porque têm poucas mulheres lendo quadrinhos.

IHQ: Você lê Shoujo (mangás voltado ao público feminino)?
D.E.:
Leio, o único tipo mangá que eu leio é Shoujo. A trama em si não é fantástica, o que eu acho bacana é a forma como essas autoras contam a história, porque é uma sensibilidade diferente. O mangá vem de uma cultura diferente, porém o mangá de aventura, o shonen, carrega dentro dele algumas características presentes também nos quadrinhos ocidentais. Se você cresceu lendo quadrinhos de aventura ocidentais já viu muito daquelas coisas, já enjoou daquilo.

O shoujo me dá prazer por certas coisinhas na forma de contar a história, cenas que a autora usa, a forma de encadear os momentos, a narrativa… esses pequenos detalhes me interessam e eu leio para observá-los.

IHQ: Você já pensou em adaptar a Nanquim Descartável para TV, cinema, teatro, ou em escrever roteiros para essas linguagens?
D.E.:
Eu nunca pensei seriamente nisso, mas não teria problema nenhum em escrever para outras mídias, até porque há muito tempo eu deixei de pensar que sou um roteirista de quadrinhos e passei a pensar que eu sou um contador de história, um roteirista de fato.

Fazer quadrinhos tem a ver com a forma como eu pensei em começar a contar histórias, mas não quer dizer que é a única forma. O modo como eu escrevo a Nanquim Descartável tem tudo a ver com um roteiro de cinema, seria facilmente adaptável. Mas cinema não é um universo do qual eu faço parte, teria que começar do zero, a não ser que alguém me auxiliasse, porque eu não conheço nada do universo, não da técnica, mas de contatos, quais pessoas, como produzir etc. Mas escreveria com o maior tesão, penso até em fazer isso, só não sei quando.

IHQ: Muitas pessoas especulam sobre qual seria o grande tema dos quadrinhos nacionais. Conversando contigo antes da entrevista, você mencionou que Super-herói não é a cara dos quadrinhos nacionais, talvez o tema Cotidiano represente melhor o quadrinho brasileiro?
D.E.:
Quadrinho infantil brasileiro já há muito tempo se tornou um best-seller, talvez seja um dos melhores quadrinhos infantis do mundo. E eu não estou só falando da Turma da Mônica, existem várias outras iniciativas muito boas também.

Quadrinho de humor brasileiro também é fantástico por toda a tradição que o brasileiro tem com charge, cartum etc… tem caras que fizeram e fazem humor que, pra mim, são os melhores do mundo.

Agora, se tem uma coisa que o brasileiro tradicionalmente fez, continua fazendo e mostrando fórmulas interessantes são as histórias curtas. E dentro desse universo de HQs curtas surge, com freqüência, a história cotidiana. Quando eu digo que existe uma carência nesse gênero, me refiro mais a falta de séries longas nesse tipo de universo, histórias curtas há bastante. Talvez seja o ramo que vem despontando nos últimos anos com maior importância dentro dos quadrinhos nacionais.

IHQ: Dentro desse assunto de histórias curtas, muita gente reclama que o Brasil não tem tradição de narrativas longas. Por outro lado, o país tem essa tradição gigante em histórias curtas que, talvez, não seja muito reconhecida.
D.E.:
Seria o mesmo que falar que um país que só publica contos não tem uma literatura boa, poxa, conto é muito bom! Lógico, a gente também quer romance, mas conto também é muito bom.

No Brasil há muitas histórias curtas devido a falta de espaço e de tempo para produção. É muito mais fácil, pela falta de espaço e de condições razoáveis de produção, você ter uma revista onde vários autores se dedicaram um pouquinho para que ela existisse do que um, dois ou três autores fazendo um álbum grande.

Arte de Caio Majado

IHQ: Conversando contigo certa vez, você disse que preferia manter a Nanquim Descartável independente do que fazê-la através de uma editora. Poderia nos explicar isso melhor?
D.E.:
A questão não é não querer publicar por uma editora, não tenho nada contra editoras, não acho que a publicação independente seja uma oposição a publicação por editora – para mim estão todos no mesmo barco.

A minha questão de mantê-la independente é que as propostas que eu tive de editoras eram na linha: “vamos pegar o que já tem e republicar” e eu não quero isso, se for para fazer um álbum eu quero fazer uma coisa pensada do começo ao fim como álbum.

Também não vejo vantagem em publicar por editora no que se refere à divulgação e distribuição. O trabalho seria tão divulgado como a forma que eu já divulgo de maneira independente, ou até menos, e não chegaria a muitos pontos de venda além dos quais eu já chego. Não é o caso de todas as editoras, mas algumas parecem querer tudo pronto apenas para colocar seu logotipo e imprimir. Para mim isto não é trabalho de editora, editora tem que fazer um pouco mais pelo projeto.

IHQ: Como você vê o mercado atualmente?
D.E.:
O mercado vem crescendo, muito mais em publicação do que em público, mas tem crescido em visibilidade, mais pessoas têm olhado para os quadrinhos, tem divulgado os quadrinhos.

Vários estados têm investido em HQs, em São Paulo, por exemplo, o estado publica [através do financiamento do ProAc] dez álbuns de quadrinhos por ano – o que não é pouca coisa, é quase um álbum por mês.

São alternativas que vão somando. As publicações de novos álbuns nacionais por editoras como a Companhia das Letras é uma coisa que agrega e dá uma baita ressonância na mídia. Isso não fica restrita apenas naquele álbum, ela atinge os quadrinhos como um todo.

Se continuar da forma como esta, tem tudo para crescer, mas acho que precisa de mais pessoas de negócios para que isso cresça de forma inteligente.

Alexandre ManoelentrevistasComic Fair,Daniel Esteves,Nanquim Descartável“A Nanquim Descartável não é uma série sobre pessoas que fazem quadrinhos, é uma série sobre pessoas muito parecidas comigo, parecidas com pessoas com quem eu convivo, pessoas do meu universo”. Após ministrar uma oficina obre idéias e roteiro na Comic Fair, Daniel Esteves (roteirista e editor da revista Nanquim...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
Compartilhe