Foto de Mariana Serzedello

Recentemente a Companhia Zero Zero encerrou a segunda temporada da peça teatral Caderno da Morte nos palcos paulistanos. Trata-se de uma adaptação do mangá Death Note (escrita por Tsugumi Ohba, desenhada por Takeshi Obata e publicada no Brasil pela editora JBC) e que concorre em 2010 ao troféu HQMix na categoria adaptação – em 2009 a peça também concorreu ao prêmio na mesma categoria, ganho pelo filme Batman: Cavaleiro das Trevas.

Conversamos com o ator Miguel Atênsia, que interpretou o personagem L, para que o leitor do Impulso HQ conheça um pouco mais a Companhia e o belo trabalho que ela vem desenvolvendo.

Na entrevista, Atênsia nos fala sobre as peculiaridades numa adaptação, os motivos que levaram a companhia adaptar a obra, a morbidez do tema e o humor na apresentação, entre outras coisas.

Para aqueles que tiveram o prazer de assistir, que sirva como mais um material referente ao mangá, à peça e à Companhia que a realizou. Para quem não assistiu, torçam para que eles voltem com a apresentação – vale muito a pena – ou talvez não, já que a Zero Zero prepara a adaptação de mais um anime.

ImpulsoHQ: Primeiro, gostaria que você apresentasse a Cia. Zero Zero para os leitores do site.
Miguel Atênsia:
A Zero Zero existe deste 2001 e já trabalhou com grandes diretores durante sua formação. Todos os integrantes são formados em artes cênicas pela Unicamp. Em 2005 a Companhia fez sua primeira adaptação inspirada no universo HQ com a peça: “Olhos de Coral”, baseado no romance de Neil Gaiman. A partir de então, passa a focar a pesquisa de linguagem sobre adaptação de obras para a cena teatral, voltadas para o público jovem, abordando a temática da relação do jovem com a sociedade em que vive.

IHQ: Quais foram as outras adaptações que a Zero Zero realizou?
M.A.:
Como disse, antes do “O Caderno da Morte”, adaptamos o romance “Coraline” do escritor e também roteirista de quadrinhos Neil Gaiman, a peça se chamava “Olhos de coral”, com direção de Tiche Viana.

Agora estamos realizando a terceira adaptação e temos projetos para pelo menos mais duas adaptações.

IHQ: Por que adaptar a HQ Death Note?
M.A.:
A Cia. Zero Zero sempre se mantém aberta a todo tipo de referência com uma pergunta em mente: o que dá uma boa peça?

Os quadrinhos fazem parte das nossas referências e quando assistimos o animê Death Note, percebemos que era uma história que tinha tudo a ver com nosso momento. Em 2008, a companhia enfrentava a violência de fazer teatro na capital paulistana, com seus altos preços, farta concorrência, falta de público etc. e a violência do cotidiano também: assaltos, furtos e o medo.

O espetáculo “O Caderno da Morte” reflete esse período, contando a história de um garoto que ganha o poder de um anjo da morte [shinigami], e passa a fazer justiça com as próprias mãos. As questões que a HQ coloca para o público eram as que queríamos colocar em discussão, a violência, o urbano, a justiça, como transformar nossa realidade?

A possibilidade de ter um caderno da morte era incrivelmente instigante! O que eu faria com um caderno desses? Esta pergunta queríamos jogá-la para nosso público.

HQ: Os integrantes da Cia. Zero Zero são leitores de quadrinhos?
M.A.:
Somos sim, eu tenho uma modesta coleção, e o Bruno [Garcia, ator que interpreta os shinigamis na peça] não tem mais lugar para guardar HQs! Mas todos passaram a ler ainda mais depois da nossa montagem.

IHQ: Pelo blog eu pude notar que vocês fizeram uma verdadeira turnê com a peça. Em que cidades o grupo já apresentou?
M.A.:
Fizemos viagens teatrais do SESI, apresentando em 14 cidades do interior paulista, depois participamos de vários festivais dentro e fora do estado.

IHQ: Qual a maior dificuldade em adaptar uma história em quadrinhos?
M.A.:
Encontrar o tênue equilíbrio entre ter liberdade para mudar e fazer releitura, com manter o respeito e a essência da obra original. Ou seja, não se tornar vítima de uma obra tão rica e conseguir potencializar os temas, os personagens, a história para uma linguagem diferente que tem suas características próprias, no caso o teatro.

IHQ: O fato de um desenhista já ter decidido anteriormente sobre perfil físico e vestimenta dos personagens, ângulos e cenários da história dificulta alguma coisa na hora da adaptação?
M.A.:
Nesse aspecto, do desenhista já ter decidido anteriormente, não me parece tão diferente do que pegar a peça de algum dramaturgo e encená-la. O nosso trabalho é tornar vivo todo o universo do autor. No caso dos quadrinhos, os desenhos tão ricamente detalhados acabam ajudando muito.

É evidente que toda essa riqueza de detalhes se transforma na hora de ser reconstruído no palco. Com a experiência de adaptar o Death Note para o teatro, percebemos que era necessário sermos objetivos e pontuais em algumas escolhas e trazer para a ação tudo o que fosse possível.

Tanto no mangá quanto no animê, por exemplo, podemos ver os pensamentos dos personagens e assim acompanhar seus raciocínios estratégicos dentro da trama. No palco isso ficava muito chato e demorava muito, sentimos a necessidade de transformar tudo em ação. Dessa forma o público é capaz de deduzir o que se passa na cabeça do personagem através do que ele faz e não porque ele contou, ou pensou em voz alta ou porque veio sua voz em off dizendo o que ele está pensando etc…

IHQ: O que a linguagem do teatro acrescentou à história de Death Note?
M.A.:
Eu gosto de pensar que o fato de estarmos lá ao vivo, bem perto, dividindo a nossa presença com o público dentro do mesmo lugar, contando essa história novamente como se fosse a primeira vez e todos os outros elementos próprios do teatro, em si já acrescentam bastante à história.

IHQ: Você interpretou o L, provavelmente o mais carismático dos personagens do manga. Como foi isso pra você? Teve alguma dificuldade?
M.A.:
Eu posso dizer que me realizo interpretando o L. Com certeza ele é o personagem que mais me chamou a atenção na HQ. Não só por seu carisma, mas também por sua complexidade. Ele é fascinante e o autor, Tsugumi Obha, mandou muito bem ao criá-lo. Para qualquer ator um personagem como o L é um “prato cheio” e uma oportunidade rara. Então procuro aproveitar e ser grato por poder interpretá-lo.

A minha maior dificuldade é tornar suas “manias” e “excentricidades” em algo crível e não meras alegorias. Ao longo de sua construção e hoje, depois de centenas de apresentações, vejo que ele está sempre mudando e a maneira como eu o vejo se transforma também. Acho que isso se deve por sua riqueza e profundidade. Apesar de ser uma figura estranha, ele não é uma caricatura, ele é imenso, muitas vezes maior do que eu mesmo.

IHQ: Qual é o perfil do público que assiste as apresentações de O Caderno da Morte?
M.A.:
Acredito ser todo tipo de pessoas. Já apresentamos para artistas, famílias, senhores, senhoras, adultos, jovens, crianças… Todos estão sempre presentes. Mas é inegável a presença em massa dos adolescentes que já conhecem o mangá.

Eles estão sempre presentes com suas camisetas pretas em todos os lugares que já tivemos o prazer de apresentar.

IHQ: Li esta pergunta no próprio blog da Cia. e gostaria que vocês respondessem novamente para os leitores do Impulso HQ: Você acredita que a morbidez do tema é um dos motivos do sucesso da adaptação?
M.A.:
O Bruno respondeu muito bem isso, a resposta dele foi essa: “Por algum motivo que desconheço muitos jovens são atraídos pela morbidez e isso não é novidade. Poderíamos até traçar uma linha de obras de arte com temas góticos, passando por Neil Gaiman, Edgar Alan Poe, e diversos outros pintores góticos. Muitos adolescentes são atraídos pelo gótico, e acredito que isso revele não só a revolta comum dessa fase, mas também a negação da organização do mundo como é hoje”.

IHQ: Por outro lado, mesmo com toda morbidez do tema, eu pude notar, ao menos é esta a minha visão, de que a peça tem mais humor que o trabalho original. Era essa a intenção?
M.A.:
Se você nos acompanhar um dia nos bastidores, vai perceber que estamos o tempo todo tirando sarro uns dos outros e fazendo piadas, não perdoamos ninguém e nada passa despercebido.

Acho que o humor tem mais a ver com a nossa pegada, do que algo intencional. Nós gostamos do humor, através dele podemos não nos levar tão a sério. Além do fato dele nos aproximar do público e o público de nós.

IHQ: Uma adaptação, obviamente, acaba deixando certos elementos da obra original de fora (por questões de tempo, de linguagem etc.). Do que foi deixado de fora da peça, o que você mais lamenta?
M.A.:
Tínhamos cenas com a noiva do Ray Penber o agente do FBI, em que ela investigava por conta o caso Kira depois que seu noivo é morto. Eram cenas emocionantes, mas que ficaram de fora, pois não se harmonizavam com o resto da peça. Durante o processo buscamos o essencial. A peça é como uma brincadeira de meninos racionais e a entrada da força feminina traz o lado passional.

É o que a Misa Misa faz. Ela entra e faz a maior bagunça. A figura da Naomi (noiva de Ray Penber) infelizmente não contribuía para a dinâmica da nossa peça. Abrir mão de coisas boas faz parte do processo de adaptação, principalmente se o material é rico.

IHQ: Os autores da obra, Tsugumi Ohba e Takeshi Obata, têm conhecimento da adaptação que vocês fizeram?
M.A.:
Nós pedimos os direitos autorais e a produtora nos concedeu, agora se eles chegaram a ter conhecimento não sabemos!

IHQ: O que você faria se tivesse um caderno desses em mãos?
M.A.:
Já me perguntei isso inúmeras vezes. Essa é a grande questão! A princípio, no impulso, sinto que um poder dessa magnitude faz nosso senso de justiça atiçar para querer resolver tudo que vemos estar errado. Quem não sente vontade matar quando vê o noticiário? Acompanha a política? Com tantas injustiças acontecendo o tempo todo ao nosso redor e no mundo todo? Ainda mais sabendo que através desse caderno ninguém nos descobrirá, podemos matar sem sermos pegos e julgados por ninguém.

Mas depois, penso se isso não é na verdade covardia. Será que o caminho para justiça é através de assassinatos? Como ser responsável por tirar a vida de uma pessoa? Mesmo que essa pessoa mereça, porque meu julgamento é mais correto? No final das contas fico grato por esse caderno não existir. Porém os homens continuam matando outros homens, todos os dias. O que podemos fazer a respeito?

Eu resolvi fazer teatro e através dele levar essas perguntas ao público, não acho que nossa peça passe uma mensagem pacifista, não acho que ela passe mensagem alguma, mas a questão que essa ficção nos apresenta: se existisse tal caderno o que você faria? Acho deveras importante parar um pouco e pensar a respeito.

IHQ: Terminando essa temporada no teatro Paulo Eiró, o grupo tem planos de levar novamente a peça a outros locais? E depois disso, quais os planos da Cia. Zero Zero? Há planos de fazer adaptações de outras HQs?
M.A.:
Estamos sempre correndo atrás de mais apresentações. Queremos viajar muito pelo o país todo e temos planos para uma turnê pelo sul. Atualmente estamos criando uma nova peça… Adianto que é outra adaptação de animação. Mas vou fazer suspense….

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O Impulso HQ agradece a todos da Cia. Zero Zero pela enorme atenção com que nos tratou e pela entrevista cedida.

Para conhecer mais sobre a Cia. Zero Zero e ver fotos e vídeos da peça Caderno da Morte acesse www.cadernodamorte.blogspot.com.

Alexandre ManoelentrevistasCompanhia Zero Zero,Death Note,Takeshi Obata,Tsugumi OhbaFoto de Mariana Serzedello Recentemente a Companhia Zero Zero encerrou a segunda temporada da peça teatral Caderno da Morte nos palcos paulistanos. Trata-se de uma adaptação do mangá Death Note (escrita por Tsugumi Ohba, desenhada por Takeshi Obata e publicada no Brasil pela editora JBC) e que concorre em 2010...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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