“Os quadrinhistas querem leis e querem obrigar editores a lançarem HQs nacionais pelo sistema de cotas. Mas isto não tem sentido. Sem produção nunca vai existir nacionalização”.

Carlos Henry é carioca e está no mercado de quadrinhos desde 1980 com o lançamento do fanzine Ponto de Fuga, produzido na UFRJ. Em sua carreira ela criou entre outros personagens o Lobo-Guará, que em 2002 foi publicado pelo selo Graphic Talents, da Editora Escala, e que recentemente ele anunciou a sua volta em forma de webcomics no site mobicomics.com.br.

Atualmente morando em Campina Grande, na Paraíba, em entrevista cedida à Rod Gonzalez, quadrinhista, cartunista e crítico de HQ, não se intimidou em  responder a questões polêmicas e aproveitou para falar de seu novos projetos. Confira:

Rod Gonzalez: Quando começou a desenhar suas próprias HQs e qual o primeiro personagem que criou?
Carlos Henry:
Entre 1989 e 1990 no fanzine Ponto de Fuga,feito na UFRJ,no Rio. Foi uma HQ de FC, chamada Exterminador, de 1 página. Se for contar de forma amadora meu primeiro personagem foi o Alma, em 1980, com 8 anos. Era um herói sombrio e sobrenatural, influência dos filmes de terror da Hammer que via com meu pai na TV. Lembrava visualmente o Justiceiro e Batman. Do que lembro de sua origem é que,era um padre amadiçoado pela inquisição e que nos dias atuais,combate mal para expiar pecados do passado.
Antes que comecem a me apedrejar, eu sei que lembra Spawn e o atual Cavaleiro da Lua, com design do David Finch, mas, eu criei o Alma aos 8 anos! Nem em sonho existia Image.

R.G.: Como teve oportunidade de publicar um gibi pela grande editora Escala?
C.H.:
Foi em um selo da editora Escala dirigido pelo Dario Chaves, que foi o editor da revista Pau Brasil pela Editora Vidente. A idéia era dar chance à vários personagens e autores da HQ brasileira, em revistas formatinho e coloridas. Eu apresentei o projeto e ele aprovou.

R.G: Existe quem diz que os gibis da Graphic Talents venderam mal, porém eu sei que os da Velta venderam bem e quase esgotaram a tiragem. Têm conhecimento disso? Sabe quanto o Lobo Guará vendeu? Caso também tenha vendido bem por que o ptojeto foi cancelado?
C.H.:
Olha, eu não faço idéia. Mas,foi o suficiente pra criar fãs pelo Brasil todo.Sempre tem alguém que leu a revista num recanto do Brasil.

R.G: Acredita que existam máfias secretas conspirando contra os super-heróis brasileiros?
C.H.:
Não. Mas sei que os distribuidores intimidavam os jornaleiros à expor as revistas das grandes, em detrimento do material nacional, isso é fato.

R.G: O que pode ser feito para melhor o cenário dos autores de super-heróis brasileiros, torná-los mais produtivo$ (se é que você entendeu o que quero dizer) na sua opinião?
C.H.:
Vou falar não só do gênero super-herói, mas na HQ nacional como um todo.O lance é discutir menos e agir mais! Organização e seriedade, gente!

Cooperativas, parcerias com produtores/editores de HQ nacional como o PADA e a editora indie Júpiter II, etc. Não precisa ser no mesmo formato Panini Comics. O povo quer produto bom e barato. Pode se fazer revistas formatinho de 32, 42 páginas, de forma popular. A elitização das HQs acabou com os quadrinhos nacionais e afastou leitores. Temos que ter o bom senso de se manter o mínimo de qualidade.

Vejo muita porcaria na Marvel e DC, em termos de roteiro e arte. Hoje o que vende são filmes derivados das HQs, não contrário. Então, se o que se produz não tem um mínimo de qualidade, paciência.

Só ufanismo pela HQ nacional é devaneio e não leva a nada! Parar de olhar pra nosso umbigo e pensar no leitor. Um bom exemplo é o Lacarmélio Alféo de Araujo, que vende e produz de forma indie a revista Celton, em Belo Horizonte (MG).Sozinho, ele vende mais que certas editoras porque ele foi atrás de leitores, fora do nosso meio, não dentro. Ele achou seu nicho e tá indo bem. Ele nem tá ai pros especialistas de plantão. Ele faz o que o povo quer!

Outro exemplo é o José Salles, da editora Júpiter II. Ele já organizou por 2 vezes o Dia do Gibi Grátis, em Jaú (SP), visando formar uma nova geração de leitores. Ele distribui neste dia revistas de graça pros jovens. Está garantindo o leitor de amanhã, afastando eles de porcarias enlatadas que estão ai desde os anos 1960!

A banca de jornal já não funciona mais como antigamente, infelizmente. Na nossa época, nossa fuga da realidade eram gibis e cinema. Hoje tem Ipad, Ipod, Internet, games com gráficos super-realistas, tudo pra garotada de hoje se desligar da realidade. Então, tem que se pensar e criar um meio PROFISSIONAL de ganhar uma graninha com webcomics.

Acredito que o meio mais viável seria começar na internet, via webcomics e material derivado (canecas, camisetas, posters) pra depois, se pensar em edições especiais. Apoiar e comprar HQ nacional do seu gosto. Melhor que pagar R$ 8,50 ou R$15,00 num enlatado com cronologia confusa e roteiro ruim! É como o amigo Lorde Lobo falou:”são eles ou nós”.

Os quadrinhistas querem leis e querem obrigar editores a lançarem HQs nacionais pelo sistema de cotas. Mas isto não tem sentido. Sem produção nunca vai existir nacionalização. Tem que haver produção em massa e produtos que vendam bem. Nenhum editor vai investir em produtos que não vendem bem. Isso é utopia.

Não precisamos de leis de proteção. Precisamos nos organizar, ter produção e criar produtos vendáveis. Só isso.O Mauricio, no passado, usou a cabeça e se deu bem porque criou um produto vendável e se associou com uma grande editora (Abril), que lançou uma grande tiragem a preço popular. Se ele fosse esperar lei, ela estaria ferrado.

Houve um grupo em São Paulo tentamdo reunir pequenos e médios editores e até a Escala entrou na roda. No final não deu em nada. Muitas idéias e poucas ações.

Tem que produzir HQs que nem pastel frito, como fizeram os japoneses. Sai muita merda, mas no meio dela também aparecem os bons trabalhos.
Hollywood, no passado, ganhou mercado nessa base. Fazia filmes aos quilos, muito lixo. Mas, surgiram os clássicos. Este é o caminho. E em meio a essa pastelaria tem q surgir produtos de aceitação popular. Caso contrário, nada acontece. Veja, a Escala; até investiu nas HQ brasileiras. Nada vendeu bem, deu prejú. Daí pararam.

HQ como industria acabou. Tem que ser de forma indie e artesanal para iniciar. O próprio Mauricio de Sousa não vive só de HQs. O auto faturamento dele é com o Merchandising. Aliás, os americanos também. As HQs são um meio (de divulgar) mas nunca foram um fim, um caminho pra fortuna. Você lança a revista e corre pras empresas, pra fazer licenciamento, parcerias. Isto é que dá grana pra manter a estrutura.

A maioria da galera é iludida e se acha um gênio. Acham que criaram o melhor produto do mundo. Quem tem que achar isto é o leitor, com uma resposta simples: comprando e tornando o produto um fenômeno de venda. Mas, os fanboys Marvel e DC odeiam HQs nacionais. Porém, eu acho que tem público pra tudo, mas HQ é pastel frito Tem que ter produção. Produzir primeiro e debater depois, pensando no público, não no proprio umbigo.

Sem querer fazer “obra de arte” para receber elogios de outro desenhista. Fazemos trabalho para o grande público e não pra mostrar como somos os bonzões. Lembre-se: somos conhecidos apenas por um pequeno nicho de malucos que, como nós, adora HQs.

Tentando fazer “obra de arte” é impossível obter produção em massa. Se os japonese pensassem assim jamais teriam se destacado no mercado internacional e peitado os americanos. Nada de obra de arte,apenas faria o seu melhor, não esta busca infinita pela perfeição em desenho.
Isso não quer dizer que se deva fazer porcaria.Bom senso vale aqui. O Civitelli (desenhista do Tex) faz 15 páginas de Tex por mês e no capricho. Ganha bem para trabalhar nesse rítmo. Nós, num país, que tem q produzir 100 páginas por mês pra sobreviver, acha q podemos ter um trabalho de auto nível? Impossível!

O povo não tem noção de arte, é fato! Quem compra pra ver um show de desenho são os malucos como a gente. E o número de malucos como a gente não é o suficiente para manter um título em banca, mesmo q todos comprassem.

Webcomics é um bom caminho. Tem que ser cobrando mesmo pra fazer algo de qualidade. Pode ser impresso também, mas depois de um tempo ou paralelo à webcomic. Quem for fazer HQ hoje em dia, de forma impressa, tem que se contentar começando com pouco, até atingir o público. De forma industrial não dá Tem que se adaptar as novas tecnologias. Com webcomics o alcance é maior e mataria o lance de distribuição e dependência dos editores tradicionais. A internet está ai pra gente aproveitar. É praticamente de graça! Blog, Site, Twiter, etc. Tudo com alcance BEM maior de divulgação e vendas.

R.G.: A HQ do Lobo Guará publicada pela Escala ficou sem final, não pretende publicar o desfecho?
C.H.:
R ecentemente re-publiquei o arco da história de forma digital pela Mobicomics. Se a coisa seguir bem darei continuidade e responderei aos leitores. Hey pessoal, apóia e baixa lá a HQ do meu Lobo Guará! Acessem: mobicomics.com.br.

R.G.: Em 1996 foi publicado na revista Herói um personagem chamado “Lobo Guará” criado por Demétrius Solano Eiroz, que ganhou um concurso de criação de personagens da revista (não com o Lobo Guará, com o João Onça-Brava, um personagem bem interessante). Não teria sido esse personagem homônimo publicado antes do seu Lobo Guará?
C.H.:
Olha, não faço idéia. Fiquei sabendo depois deste personagem,que não passou do concurso, pelo que sei.

R.G.: Como teve a idéa de publicar a revista virtual “Heróis em Ação”, somente dedicada a matérias sobre heróis brasileiros? A revista continua?
C.H.:
É Quadrinhos em Ação (rs).Parei poque dava um trabalhão organizar tudo, mesmo tendo colaboradores, que eram poucos. Estou vendo uma parceria com o PADA pra imprimir as edições lançadas, mas isso somente para o início de 2012.

R.G.: Quais seus atuais projetos de quadrinhos?
C.H.:
No momento,estou procurando editores pra meus projetos City of Dreams e meu mangá , Eco Teen. Seja impresso ou webcomics, para os EUA. Também estou iniciando estudos para uma revista de artes marciais e erotismo soft, com uma personagem chamada Lady Ninja. Este é curtição mesmo, de forma indie, mas que também vou tentar webcomics.

R.G.: Ainda antes da chegada da internet (ou pelo menos da migração dos quadrinhistas brasileiros da época dos fanzines em massa para a rede), apareceu certa vez um fanzine anônimo chamado “Mr Z.” que causou muita polêmica na época. Tal fanzine contia acusações de plágios e cópias feitos por artistas como Watson Portela e Emir Ribeiro. O Mr Z seria um precursor de figuras anônimas que surgiram na internet (os chamados “trolls”), que criticavam destrutivamente e avacalhavam artistas nacionais. O próprio “Mr Z” retornou via internet e abriu um fotologue acusando novamente Emir Ribeiro, dessa vez de ser incoerente nas posições que defende, por não ler mais super-heróis norte-americanos, mas já ter trabalhado para a Marvel e DC Comics. Pelo que eu entendi o Watson acusa você de ser o “Mr Z”. Já que ele faz isso publicamente, poderia esclarecer esse assunto definitivamente, se defendendo das acusações ou se retratando, caso procedam?
C.H.:
Fiquei sabendo depois deste tal Mister Z e dessa turma de detratores da HQ nacional. Eles tentaram postar opinião no meu fotolog, mas em seguida, eu apagava! Afirmei para o Emir que eu não sou esta figura. Ora, detesto extremismo e sempre curti mais a HQ nacional que a dos EUA, não por ufanismo, mas por qualidade.
Eu lembro até hoje quando recebi uma carta com um pôster autografado da Velta, em 1984, foi quando me iniciei no universo dos heróis brasileiros e procurei conhecer outros. Sei que Emir copia algumas poses, mas autores americanos fazem isso aos montes, por que focam só nele? Não curto tudo que o Emir faz, mas compro revistas da Velta, eventualmente das que gosto.
Troco ideias vez por outra com o Rafael, filho do Watson, e já expliquei pra ele a situação que não sou este Mr Z e nem concordo com as idéias dele. Rafael  passou pro pai dele e ficou tudo OK. Tudo isso foi muito irônico, porque sempre defendi a HQ nacional e até hoje me pergunto por que me confundiram com este tal Mr Z.
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Carlos Henry, muito obrigado pela entrevista. Também parabenizo você pela coragem em responder algumas questões difíceis, não tenho qualquer opinião formado sobre esses episódios que aconteceram quando eu nem imaginava que um dia trabalharia com HQs, tenho amizade com todos os envolvidos (inclusive você) e espero que tudo isso se resolva da melhor maneira possível, de preferência, com todo mundo conseguindo publicar e abrindo espaço para todos que acreditam que é possível ganhar uma grana desenhando e escrevendo HQs de super-herói brasileiro.

C.H.: Já me entrevistaram perguntando sobre isso e eu neguei. Abri exceção pra você que é defensor da HQ nacional, coisa que admiro. Deixo um recado aí pros leitores: a melhor forma de apoiar a HQ nacional é comprando HQ nacional! Nada de Marvel e DC com mega-sagas repetitivas, morte-retorna de super-heróis, em roteiros pretensiosos sem nenhum entretenimento, com cronologias confusas. Os indies estão ai pra mostrar sua força e qualidade, leia!

Aos quadrinistas brasileiros:os leitores querem revistas baratas e que tenham roteiros que os desligue da realidade, que os entretenham de forma sadia e direta. Não vamos fazer personagens psicologicamente perturbados, como os gringos fazem. Já basta a violência no mundo real. E vamos aproveitar o mercado de  webcomics!

Renato LebeauentrevistasCarlos Henry,Emir Ribeiro,Lobo Guará,Rod Gonzalez,Watson Portela'Os quadrinhistas querem leis e querem obrigar editores a lançarem HQs nacionais pelo sistema de cotas. Mas isto não tem sentido. Sem produção nunca vai existir nacionalização'. Carlos Henry é carioca e está no mercado de quadrinhos desde 1980 com o lançamento do fanzine Ponto de Fuga, produzido...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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